<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960</id><updated>2012-01-17T18:11:26.434-02:00</updated><category term='Tinnitus'/><category term='Jardineiro Celeste'/><category term='Jamboree'/><category term='Cruciais'/><title type='text'>RÁDIO UNIVERSAL: O Amor Entre Os Soldados</title><subtitle type='html'>Um diário de campo da psicóloga Stella Freitas-Grisam e seus pacientes em um mundo de perpétua estranheza. Os homens e seus rituais e a insanidade nossa de cada dia.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>154</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-1677049018055297031</id><published>2009-08-21T03:09:00.011-03:00</published><updated>2012-01-17T18:11:26.447-02:00</updated><title type='text'>Cachorros</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;cordei no meio da madrugada com ruídos estranhos lá embaixo. Sons ofegantes e esfregantes, me pareceu. A atmosfera era baça, nervosa, prenúncio do terror que é, por exemplo, encontrar a Polícia Obscura numa estrada à noite. Desci com náuseas e com imensa dificuldade de respirar. O telefone tocou. Deslizei o dedo pelo touch pad do meu laptop para trazer o aparato de volta à vida. Eram 3:35 da manhã. Resolvi atender o telefone. Era o prefeito, ainda acordado àquelas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tem dois cachorros na frente da sua casa. Procure não olhar pela janela."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse a ele que estava ouvindo ruídos estranhos e ofegantes e ele assentiu. Disse que eu não olhasse pela janela em hipótese alguma e desligou. Voltei para o quarto assombrada. Que era aquilo agora? Por que Andrés me ligaria a uma hora dessas? Talvez ele tivesse "visto" que eu ia olhar em torno até chegar à origem do ruído estranho e tivesse decidido me alertar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ruídos eram altos; altos demais para o silêncio da noite e estranhos demais para me deixar dormir. Decidi, contra toda advertência, olhar e ver que diabo era aquilo. Quando abri a janela e olhei, era de manhã. Quando eu me voltei para ir lá embaixo ver o que acontecia, não pude conter uma exclamação de espanto: meu criado-mudo estava virado de cabeça para baixo, a poltrona do canto estava tombada e uma porta do meu armário tinha sido arrancada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a sentir dores por todo o corpo e me sentei na cama, procurei entender o que se passava. Passava de três e meia quando ouvi os ruídos estranhos lá embaixo. Andrés me ligou e me disse que eram dois cachorros na frente da minha casa. Tentei dormir e fui olhar, mas já era de manhã e não havia nada lá. Só que agora vejo todo esse estrago em meu quarto. Comecei a tentar pensar o que aconteceu entre eu me levantar e abrir a  janela. Ou aconteceu quando eu abri a janela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus. Estou me lembrando agora. Não era de manhã quando abri a janela. Eram 3:40 no máximo. O que vi me fez ricochetear pelo quarto como uma bola de borracha maciça, quebrando tudo o que meu corpo tocava. Eram dois cachorros pretos, um deles pouco maior que o outro. O maior estava cobrindo a visão do outro. O horror da visão deles no meio da noite do sertão foi o que me atirou para trás como um coice de arma de fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela janela, ouvi o som de um cavalo se aproximando. Olhei pela janela com medo de olhar pela janela. As coisas que a gente vê olhando pelas janelas aqui. E eu que sempre sonhei ter uma pia de cozinha com uma janela ampla como a que eu tenho hoje para que eu pudesse cozinhar olhando para toda uma beleza natural através das janelas, mas qual o que.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era "sêo" Danilo. Desci e fui fazer café. Larguei toda a bagunça lá em cima. Ele me ouviu enquanto eu contava sobre a minha noite de sono. Ficou assombrado e, enquanto se propunha a me ajudar a arrumar a bagunça, disse que ouviu os mesmos ruídos próximos à casa dele. Perguntei a que horas e ele me disse que já passavam bem das três da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo, foi mais ou menos a hora em que o ruído começou aqui!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava nervosa e ele percebeu minha impaciência. Depois da história na loja de ferragens quando um cão preto avançou sobre mim quando eu já estava no carro de Duílio, me pegava nervosa pensando em cães e todas essas coisas de assombração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora lembra, conseguiu ver o que eles estavam  fazendo? Nem tive coragem de ir olhar. Essas coisas não me trazem a menor curiosidade, sabe?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Só vi os cães. Vi num flash, muito rápido, é a única coisa que me lembro"&lt;/em&gt;, eu disse, enquanto passava o café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio, por algum tempo. Eu estava nervosa com aquilo e com aquele silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os dois cães eram macho e fêmea?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava pronta para perguntar como diabos ele esperava que eu me lembrasse, mas num súbito me veio a recordação de que os dois cães eram machos. Achei incrível que ele perguntasse algo tão estapafúrdio e que, pior, eu me lembrasse de algo tão estapafúrdio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio, por mais algum tempo quando respondi. Eu me perguntava agora mentalmente qual seria o motivo do silêncio pensativo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"No que o senhor está pensando?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"No inverno. No final de inverno eles aparecem."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quem aparece?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou para mim como se eu soubesse de antemão a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os cães, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, ele disse, sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E isso é bom ou ruim?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso nem é bom nem é ruim, "sá" Stella. É algo que os cães fazem, só isso. Mas é entre eles, não é uma coisa pra senhora ficar olhando, ainda mais através de uma janela. Já lhe disse pra evitar de ficar olhando pelas janelas, às vezes é melhor sair lá fora direto e olhar, faz menos mal, por estranho que possa lhe parecer"&lt;/em&gt;, ele disse, ainda bem sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me disse que eu também deveria ter cuidado com pessoas olhando para mim de fora de minha casa pelas janelas, principalmente as crianças. Como no dia em que Arthur apareceu na janela para me incentivar a abrir o presente que ele tinha me dado. Contei a ele o que tinha acontecido no dia anterior, com Aparecida desmaiando no meio da cozinha e o almoço duplo do Renan. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me disse que foi a visão do menino enquadrado pela porta de tela, mais o assunto que se falava que levou o sistema nervoso da matriarca dos Conselheiros a um ritmo tão alto de repente que entrou em colapso. Fiquei pensando que ele poderia muito bem ter razão. Quando Adriano e eu olhamos para a cena, Renan  já tinha entrado na cozinha e já estava ajudando Aparecida a se levantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E ele ficou irritado que se chamasse ele de assombração, lógico. Provavelmente ouviu uma parte da conversa enquanto se aproximava&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, observou o velho sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, provavelmente ouviu mesmo, era uma conversa bem despreocupada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E ele tem razão, mesmo com tudo isso o "sêo" Renan é só mais um morador da cidade, "sá" Stella. Fica ofendido de ser considerado como uma coisa diferente, como assombração. Como disse o "sêo" Duílio, é só mais um desses moleques que moram na cidade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do nada, Andrés e Adriano apareceram na janela da cozinha, me apavorando e assombrando até o sertanejo. Depois de esculhambar os dois irmãos, ofereci café. Adriano e o prefeito aceitaram de bom grado. O prefeito me olhou e me disse, &lt;em&gt;"e a senhora, é lógico, tinha que abrir a janela pra olhar, inda mais durante a noite"&lt;/em&gt;, e eu ainda nem tinha contado a ele sobre o estrago que fiz em meu quarto (em caso dele ainda não ter "visto" tudo ele mesmo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu estava dizendo o mesmo pra ela, gordinho"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo sorriu um sorriso estranho, daqueles que procuram criar um ambiente melhor onde visivelmente não há perspectivas de melhora. Os meninos ficaram olhando para ele e ele para os meninos, todos nós em total silêncio. O silêncio começou a me incomodar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o que é isso agora? Alguém sabe dizer o que é essa coisa nova que está acontecendo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que?"&lt;/em&gt;, perguntou o prefeito inocentemente, enquanto pegava café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Andrés Silva Conselheiro, não seja ridículo, sobre o que mais estamos conversando???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Calma, D. Stella, era brincadeirinha&amp;hellip; Calma!"&lt;/em&gt; O prefeito  ficou pálido. Ele estava assustado com minha explosão emocional. "Sêo" Danilo parecia ele mesmo bem impaciente com o amigo de infância. Eu estava nervosa. Deixei que eles percebessem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ando neurótica dessas coisas esquisitas que acontecem aqui em Taurinos. Coisas que não dão sossego, não se tem uma semana de paz nesta cidade. Porque amarrei aqui o meu burro é pergunta que infelizmente há muito deixou de ter necessidade de uma resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Todo fim de inverno, os cães pretos começam a vir e fazem não se sabe o que porque ninguém olha"&lt;/em&gt;, explicou Adriano, retomando o tema do fim de inverno iniciado pelo velho sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, ela olhou"&lt;/em&gt;, disse o prefeito apontando para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quantos cães são?"&lt;/em&gt;, eu o interrompi bruscamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"São dois em cada casa de Taurinos"&lt;/em&gt;, respondeu Andrés pausada e ressabiadamente, sem me olhar muito diretamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como assim?"&lt;/em&gt;, eu perguntei, espantada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, tem dois cachorros que ficam em cada casa, no terreno de fora. Na mesma hora que o Andrés ligou pra senhora, tinha dois na frente da nossa casa, dois na frente da casa do "sêo" Danilo, dois na frente da casa do Arthur e por aí vai"&lt;/em&gt;, ajuntou Adriano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi o que eu lhe disse, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, confirmou o sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas de onde vem isso??? De onde vem esses animais?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente esperava que a senhora soubesse e nos dissesse"&lt;/em&gt;, explicou Adriano. Os outros dois assentiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava atônita. Agora era eu quem tinha de saber de tudo. Bom, por que não, se criei a cidade e tudo o que existe nela? Por que esperar que eles pensassem que eu não tinha de saber de tudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não tenho a mínima ideia do que isso possa ser. Vocês me disseram muito mais do que eu sei até agora. Por que acham que eu posso saber sobre uma coisa pra qual Andrés me chamou por telefone para falar a respeito pela primeira vez às 3:30 da manhã de hoje???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;oite sem fim a perder de vista sobre as montanhas de Taurinos. Do encontro de hoje, apenas "sêo" Danilo e eu ficamos conversando, de perder o tempo. Saímos para o alpendre, acendi a luz e as mariposas e outras criaturinhas noturnas já tinham começado a encostar na parede do alpendre atraídas pela luz, lançando sombras esquisitas e tortuosas sobre a superfície de tijolo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio prenunciava ser rigoroso esta noite. Nem bem o Sol desceu, já foi ficando gelado, coisas dessa Mantiqueira nem matéria nem espírito que vivencio. Uma noite limpa, um céu absoluto e sem nuvens lá fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui lá dentro atrás de um casaco, enquanto "sêo" Danilo tirava um casaco de couro de dentro do bornal que às vezes carrega consigo. Eu trouxe uma térmica com café, xícaras, pires, a tralha toda e coloquei na mesa do alpendre. Lá fora o céu estrelado sem fronteiras desta cidade imaginária e legendária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhávamos o céu em respeitoso silêncio. Por muito tempo. Deviam ser umas sete, oito da noite, mas quem se lembraria de contar as horas diante do maior show da Terra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sons distantes de cavalos que cedo ou tarde iriam ter aqui. Olhei para "sêo" Danilo e ele aproximou o ouvido do chão como sempre faz para avaliar nossa segurança. Disse que provavelmente eram os dois meninos mas não havia motivos para entrar. Ficamos olhando o céu enquanto os cavalos vinham num crescendo em meio ao silêncio do sertão. Apenas os sons naturais e os cavalos ainda distantes se faziam ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois pararam em frente ao meu portão e acenaram. Olhei para "sêo" Danilo e os dois meninos acenaram de novo, como que nos chamando. O velho sertanejo parecia cauteloso quando eu disse que iria até lá falar com os policiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não estou gostando muito da aparência deles, chamando de longe assim, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, ele declarou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"São só moradores da cidade, lembra? Só uns moleques que vivem aqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que nos aproximávamos do portão, senti calafrios correndo pela minha espinha que aumentavam de intensidade à medida que a luz do alpendre ia perdendo força. Às vezes pensava em instalar um poste de luz em meu terreno, sobre o portão. Às vezes pensava se isso valia a pena. Às vezes pensava se atender a um chamado da Polícia Obscura à noite valia a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois jamais desceram dos cavalos, como se fossem inteiriços. O olhar dos dois era sombrio, carregado, fluorescente, mais ainda pela penumbra que o final da luz do alpendre deixava ao perder força. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, não chegue mais perto"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo advertiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Podem vir até o portão, não tem problema"&lt;/em&gt;, disse a vozinha de Renan. Uma vozinha suave, obscura, sombria e calma como a noite ao redor. A escuridão me deixou nervosa naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que vocês querem?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Estamos dando um toque de recolher na cidade por causa dos cachorros que estão aparecendo à noite"&lt;/em&gt;, explicou o policial mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que há com esses cachorros, afinal? São perigosos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora viu os cachorros?"&lt;/em&gt;, perguntou o policial mais novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Muito rapidamente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora pode ter problemas por ficar olhando assim pela janela à noite, sabia?"&lt;/em&gt;, tornou o policial mais velho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já tive vários esta madrugada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos dos dois eram horríveis naquela penumbra. O sertanejo evitava olhar diretamente para eles. Eu olhava, fascinada com aquela visão dos dois de preto se confundindo com a escuridão em redor e o branco dos olhos dos dois que parecia fluorescente naquele breu de noite sem luar; meu olhar insistente fazia os dois se entreolharem. Eles pediram que "sêo" Danilo ficasse para pousar aqui. Desnecessário dizer que eu e ele aprovamos a medida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Está tudo bem com a senhora? Dá pra parar de olhar fixo assim pra a gente?"&lt;/em&gt;, perguntou Renan, vendo que eu não tirava os olhos dele e de seu parceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-1677049018055297031?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/1677049018055297031/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/cachorros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/1677049018055297031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/1677049018055297031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/cachorros.html' title='Cachorros'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7998995041547963762</id><published>2009-08-20T02:50:00.012-03:00</published><updated>2011-04-06T05:54:11.245-03:00</updated><title type='text'>Aéreo</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;O&lt;/span&gt; telefone tocou de manhã. Era Donana, perguntando se eu tinha encontrado Renan ontem. Eu disse que o tinha visto à noite, no descampado, enquanto observava o céu. Ela, como todos os outros, queria entender o que eu ficava fazendo num descampado à noite olhando o céu. Expliquei que às vezes se precisava tirar um momento para não fazer nada, etc., mas ela pareceu ter ficado na mesma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obstante, mudou de assunto, dizendo que o filho estava aéreo como ela nunca tinha visto. Eu disse que achava que Renan era algo entre um tanque de guerra e uma bolha de sabão. Muito forte, mas também muito frágil, pronto para explodir ao menor contato. Ela a principio não entendeu, mas depois pareceu concordar com minha avaliação sobre o pequeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E eles pararam do seu lado para olhar o céu, foi?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ficaram lá comigo a noite toda sem dizer uma palavra. Pareciam hipnotizados."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Será que isso não fez mal aos meninos? Nunca vi o Renan fazendo esse tipo de coisa, D. Stella"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se não fizer bem, mal também não pode fazer, Donana."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que a senhora acha que eles ficam fazendo à noite?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, não ficam lá caçando os forasteiros, entrantes, ou sei lá o que mais?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas é só isso?"&lt;/em&gt;, Donana quis saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não chamaria de só isso. Acho que deve ser o diabo ficar fazendo isso. Se isso não faz mal a eles, por que olhar o céu e as estrelas à noite faria?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa do outro lado da linha. Uma pausa gigantesca. Depois, Donana se despediu, disse que tinha esquecido algo no fogo. Eram realmente umas dez horas da manhã, horário em que as donas de casa em Taurinos costumavam começar a cozinhar para que a comida estivesse pronta lá pelo meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei pela fazenda Taurinos um pouco mais tarde. Andrés estava na Prefeitura despachando. Fico pensando o que esse menino tanto tem para despachar numa cidade que parece estar completa, onde praticamente não falta nada. Ficamos eu, Adriano e Aparecida na cozinha da fazenda conversando enquanto eu ajudava Aparecida com o almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E ela ligou querendo saber do menino?"&lt;/em&gt;, Aparecida perguntava, entretida em cortar couve tão fina que eu não conseguia deixar de pensar que ela cortaria o dedo, tão pouca a distância entre o fio da faca e seu indicador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Na verdade queria saber se eu tinha estado com ele"&lt;/em&gt;, respondi enquanto começava a fatiar pepino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E tinha?"&lt;/em&gt;, perguntou Adriano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, eles apareceram do nada nos cavalos lá no descampado&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella! Creio em Deus Padre!"&lt;/em&gt;, a mulher se horrorizava só de imaginar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas não, não estavam armados, estavam normais, eles só estavam vestidos de preto e cobertos de sangue"&lt;/em&gt;, respondi segurando o riso e fazendo a matriarca dos Conselheiros se persignar, &lt;em&gt;"estranho, não disseram uma única palavra e ficamos lá a noite inteira em silêncio total&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano estranhou e ficou com expressão de quem estava pensando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então não foram assustar a senhora?"&lt;/em&gt;, tornou Aparecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, assusta sempre um pouquinho, porque eu estava sozinha e a gente sempre acha que eles vão vir armados. Mas não escutei sons estranhos deles armados quando cheguei meu ouvido perto do chão&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Creio em Deus Padre, D. Stella não faça isso! Dizem que não presta ouvir os dois chegando assim de noite perto do chão&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, ela estava pálida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Prestar não presta, mas é melhor que encostar o ouvido no chão, mãe"&lt;/em&gt;, disse o filho mais velho, &lt;em&gt;"aí a pessoa quer ficar surda ou louca, né não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Será que é assim tão pior do que ver os dois naquelas armaduras ao vivo e a cores?"&lt;/em&gt;, eu tive que questionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ai, eu não estou gostando nem um pouco dessa conversa&amp;hellip; Será que não dá pra gente mudar de assunto?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um silêncio, mas não tinham transcorrido cinco segundos desde o pedido de Aparecida e um grito que ela soltou. Quando eu e Adriano olhamos, Renan estava ao lado dela, todo de preto, sombrio, olhando sério pra nós, ajudando a pobre mulher a se erguer. Adriano correu para perto da mãe e livrou o policial minúsculo do peso. Renan estava esquisito e sombrio. Não que ele não fosse usualmente esquisito e sombrio, mas era um esquisito e sombrio diferente. Não saberia como explicar, mas me encheu de calafrios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Detesto quando vocês ficam falando de mim e do meu parceiro como se a gente fosse assombração"&lt;/em&gt;, ele disse num tom tão esquisito e sombrio quanto sua aparência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas você gosta de meter medo nas pessoas, não? Se orgulha do tanto que é terrível"&lt;/em&gt;, rebateu Adriano, ainda reanimando a mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foda-se! Eu não sou assombração, ouviram? Sou um moleque como qualquer outro na cidade!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz um sinal a Adriano que deixasse o pequeno falar sem provocar. Estava vendo a hora em que ele ia se armar ali e aí adeus sossego. Sem contar com o que aconteceria a Aparecida, que só de falar no assunto já ficava apavorada. Que desmaiou só de ver o menino vestido de preto aparecendo pela porta de tela dos fundos da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que é que você quer aqui, Renan?"&lt;/em&gt;, Adriano perguntou quando o menino parecia ter dissipado um pouco do calor interno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vim perguntar se eu posso almoçar com vocês hoje."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele ficou para o almoço. Ficou esperando e eu chamei Adriano num canto e pedi que ele me levasse à fazenda Teixeira enquanto o almoço não ficava pronto. Ele nada entendeu, mas me levou. Não acredito como Aparecida se animou a ficar sozinha com Renan na cozinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos na fazenda e Donana veio à porta nos receber. Nos convidou para almoçar. Disse que só queríamos falar com o Renan. Adriano me olhou espantado, mas me seguiu enquanto eu adentrava a sala de jantar da família. Renan foi o primeiro a me ver e sorriu para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora podia ter telefonado. Trabalheira vir até aqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano me olhava com os olhos esbugalhados. Aparentemente a história dos aspectos o assombrava também. Quando voltamos à fazenda Taurinos, Renan e Aparecida já estavam almoçando. Decerto decidiram não esperar. Renan novamente me disse que eu poderia ter telefonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se a senhora perguntasse eu teria dito que eu estava almoçando com a minha família"&lt;/em&gt;, ele observou entre tímido e sombrio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seu lado, Aparecida não estava entendendo nada. Eu desconversei rapidamente para evitar um outro desmaio da matriarca dos Conselheiros em plena mesa do almoço. Conversamos muito e Renan parecia ter um prazer especial em ouvir nossa conversa e dar seus apartes também. Ele foi ficando cada vez menos sombrio à medida que a refeição progredia. No final do almoço, no alpendre, sozinha com ele e Adriano, perguntei porque cargas d'água almoçar em dois lugares ao mesmo tempo, cinco quilômetros longe um do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tava muito silêncio na mesa hoje lá em casa. Fiquei triste."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Adriano nos entreolhamos. Lá na porteira, um carro que não reconheci parou, deixando Duílio em casa, atrasado para o almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7998995041547963762?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7998995041547963762/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/aereo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7998995041547963762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7998995041547963762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/aereo.html' title='Aéreo'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-545977977126805990</id><published>2009-08-19T02:10:00.007-03:00</published><updated>2011-03-07T02:14:52.106-03:00</updated><title type='text'>Olhando o céu</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;a cidade, com Adriano fazendo a compra do mês no Supermercado Serve Bem Para Servir Sempre, de propriedade do Souza. Faço questão de carregar sacola por sacola, ele só dirige. Achei que já dava bastante trabalho à família monopolizando o carro com minhas compras. O jovem adorava dirigir, então propôs e assumiu o compromisso de me levar todo mês às compras. Duílio não demorou muito para aceitar a proposta do filho mais velho, sinal de que ou ele confiava muito em Adriano para fazer essas coisas ou eu estava sendo um pé no saco com meus pedidos de transporte. Esperava que fosse a primeira opção mas já que eu tinha Adriano como ajudante, não precisaria mais encher a paciência do patriarca, fosse esse o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Adriano fomos até o Zé das Profundezas comer alguma coisa. Incrível, ele tinha pastéis de queijo minas e tudo. A vitrine de salgados ao menos não parecia uma boca banguela desta vez. Entramos sem reparar na mesa do fundo do bar, nos sentamos em uma mesa ao lado dela. Senti um estranho arrepio ao me sentar. Estava próxima de algo que me incomodava, mas que eu não sabia o que era. Comecei lentamente a olhar para o lado. Anderson estava sentado na mesa no canto mais escuro do bar, exatamente ao nosso lado. Se eu estendesse a mão, o tocaria. Adriano o viu e se levantou com o pastel e a garrafa de Coca-Cola 600ml na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu espero a senhora no carro"&lt;/em&gt;, ele rosnou, não muito satisfeito com a companhia. Anderson ficou olhando calado para ele enquanto ele se afastava. O olhar se voltou para mim assim que Adriano desapareceu de seu campo de visão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quanto ficou o trabalho na fechadura?"&lt;/em&gt;, foi a primeira coisa que perguntei a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já lhe disse, a senhora já pagou pela fechadura."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Com isso você está tentando me dizer que toda vez que eu tiver de chamar você vou ter que pagar em pesadelos? Com você saindo da loja como um cachorro louco? Aqui não tem o Procon, mas tem o Conselho da Sociedade Antiga dos Taurinos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Próximo conserto eu lhe cobro em dinheiro"&lt;/em&gt;, ele se apressou em garantir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu faço votos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí com minhas coisas e fui comer no carro com Adriano. Não estava zangada com Anderson. Eu estava era com um certo medo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;À&lt;/span&gt; noite, saí sozinha. Fui até um descampado próximo mirar o céu, passar alguns momentos curtindo a bela noite estrelada de Taurinos. Abri uma canga no chão, me sentei e me deixei absorver pela visão daquele céu incomparável. O Cruzeiro do Sul, a Máquina Pneumática, a Cabeleira de Berenice. Quantas constelações mais eu poderia localizar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha ainda meia-hora desde que eu havia chegado, e comecei a ouvir um murmúrio distante. Como o tempo, tornou-se mais distinto e nítido que tipo de murmúrio era. Cavalos. Como de costume, eu não demoraria a ter companhia. E muito provavelmente, má companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me mexi. Se esses meninos continuassem essas brincadeiras perversas eu os levaria a Conselho eu mesma. Estava cansada daquilo. Os cavalos se aproximavam mais, mas diferentemente das outras vezes, os sons naturais da noite não se calaram. Com o máximo de cautela, me curvei e aproximei o ouvido do chão. Nada de estranho. Os cavalos se aproximavam cada vez mais. Colei o ouvido no chão a despeito de todas as recomendações da própria Polícia Obscura e de "sêo" Danilo. De novo, nada de estranho. Os cavalos se aproximavam cada vez mais; agora já estariam ao alcance da visão, se não viessem de algum ponto atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como de costume, os cavalos reduziram o passo quanto mais perto chegavam até que pararam. Tive a impressão de ouvir um ruído de metal em meio aos sons naturais da noite. Depois, passos que vinham dos meus dois lados e o som de duas pessoas se sentando ao meu lado. Olhei para o canto esquerdo com o canto dos olhos e lá estava Anderson. Do lado direito, Renan. Nenhum dos dois dizia uma palavra. Eu permaneci em silêncio também. O fato de que num descampado tão vasto os dois teriam de parar justamente ali ao meu lado parecia teimosamente querer me dizer alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me lembrava de ter passado tanto tempo junto àqueles meninos sem dizer uma palavra. Foram ou pareceram ser horas. Depois de um período que pareceu uma eternidade, os dois policiais se ergueram e montaram nos cavalos, sumindo dentro da última escuridão da noite que precede a alvorada tão calados quanto tinham surgido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia trinta minutos desde que eles tinham ido, começou a clarear. Me ergui, dobrei a canga e ao me levantar, vi respingos de sangue sobre a grama ao redor da canga, exatamente onde os dois policiais tinham se sentado, o que indicava que a noite deles tinha sido agitada. Imaginei que as horas olhando o céu tinham sido boas para os dois. E tomei o caminho de volta para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-545977977126805990?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/545977977126805990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/olhando-o-ceu.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/545977977126805990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/545977977126805990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/olhando-o-ceu.html' title='Olhando o céu'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-8495031297951325626</id><published>2009-08-18T19:08:00.011-03:00</published><updated>2011-03-04T02:54:54.240-03:00</updated><title type='text'>A figura do cão</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;P&lt;/span&gt;rimeiro foi o vácuo. Depois, meu corpo caindo no vazio, um abismo muito além do que eu poderia acreditar se alguém me contasse. Um abismo infinito onde eu teimava em cair sem parar, o grito de horror contido em minha garganta sem jamais deixar a garganta em momento algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertei, não sei como. Acordei daquilo e estava sentada em minha cama, curtindo o horror e a irrealidade do momento pós-sono. Ao mexer a perna esquerda, um objeto quase me perfurou. Uma chave de fenda em minha cama. Como veio parar aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci até o térreo. A janela que dava para o alpendre aberta. Tentei abrir a porta. Estava trancada. Trancada??? Aquela porta não trancava desde a construção da casa. A fechadura não era mais a mesma. Fui à janela olhar, pisei em algo mais que quase perfurou meu pé ainda descalço. Uma chave, inserida na argola de um chaveiro. Experimentei a chave na porta. Servia perfeitamente e sem o mínimo esforço. Saí para o alpendre e não havia viva alma lá fora. Um vento frio do sol meio que oculto entre nuvens me assolou por instantes. Entrei, fechei a porta sem trancar e fui fazer café. Eram nove e tanto da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto tomava o café, "sêo" Danilo apareceu. Ofereci café a ele e mal ele se sentou para tomar o café, lhe contei sobre o sonho horrível, a chave de fenda na cama e a troca da fechadura. Ele me ouviu com atenção e começou a cerrar o cenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O chaveiro deve ter lhe causado problemas de sono além de ter solucionado o problema da sua fechadura"&lt;/em&gt;, disse o velho sertanejo sem sombra de dúvida no que dizia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor acha que&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tenho certeza. Ele veio aqui, arrumou a fechadura e passou um bom tempo no seu quarto apertando o seu pescoço. Foi o que eu lhe disse que aconteceu com meu avô quando ele contou sobre o Jurupari."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;nderson estava conferindo mercadorias na porta da loja no final da tarde, quando Duílio deu a volta na praça e estacionou na guia do outro lado da rua. Descemos "sêo" Danilo e eu, Duílio esperou no carro. Anderson sorriu ao nos ver, mas viu que seu sorriso não encontrava correspondência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Gostou da fechadura nova?"&lt;/em&gt;, ele perguntou meio sem-graça, olhando para mim e "sêo" Danilo alternadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Adorei. O que não gostei foi o preço."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, eu não faria isso por dinheiro"&lt;/em&gt;, ele sorriu novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas pelo prazer puro e simples de me provocar pesadelos você faria, não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sorriso se desvaneceu de vez. Ele ficou me olhando calado e depois voltou a conferir as mercadorias, &lt;em&gt;"a senhora às vezes fala demais."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo e eu trocamos olhares. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, era o que se dizia do Adriano, lembra? Aliás, a família dele só não está chamando vocês de santos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson ficou em silêncio. Eu disse a ele que ou eu falava demais ou eles assumiam o que faziam de menos. Perguntei se esperavam que eu mantivesse segredo sobre a idiotice deles durante o Jamboree. Ele não respondeu e só fazia olhar a prancheta em busca de seus dados. Estendi a ele a chave de fenda que encontrei sobre minha cama. Ele a tirou de minha mão, sem-graça e nervoso e entrou na loja para guardar a ferramenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles vão por isso em Conselho?"&lt;/em&gt;, agora ele parecia preocupado ao retornar à frente da loja, &lt;em&gt;"porque se forem&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vocês vão reabrir o caso do Jardineiro Celeste?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson ficou em silêncio. Via agora que estávamos "sêo" Danilo e eu um passo à frente de seu plano B. Pediu que fôssemos embora porque já tinha perdido a conta das mercadorias duas vezes. O sertanejo parecia disposto a cooperar, mas eu pretendia falar com o ferreiro por mais algum tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson viu que eu não iria sair e sorriu para mim um sorriso luminoso. Luminoso e estranho, deformando as beiradas do rosto dele da borda para o centro transformando todo o conjunto num sorriso grotesco, horrível de um rosto cuja feiura eu já conhecia de muitas e muitas rondas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui me perdendo na luz morta daquele sorriso até que a luz se misturou com outra e eu tinha de repente Duílio e "sêo" Danilo sacudindo a minha cabeça, eu estatelada num banco da praça principal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eh, "sá" Stella, às vezes a hora de sair é mais cedo do que a senhora pensa&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que é que faço aqui, quero ir lá falar com&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora é louca, não vai mais lá não, vamos é embora daqui antes que ele resolva vir até a praça."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a juntar gente pra ajudar ou simplesmente de curiosidade; eu temia que formassem uma roda. Olhei para a porta da loja de ferragens e no escuro interior me pareceu ver algo como um cachorro enorme oculto pela penumbra. Não havia nenhum cachorro na loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que cachorro é aquele na porta da loja?"&lt;/em&gt;, perguntei aos dois enquanto me punha de pé, &lt;em&gt;"é por isso que eu digo que a gente vem que sair daqui assim que puder, por exemplo agora"&lt;/em&gt;, disse Duílio, abrindo a porta do carro e me enfiando dentro. Eu quis abrir a janela, mas Duílio agiu de seu lado e a fechou novamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma massa negra emergiu de dentro da loja de ferragens, espalhando os populares como pombas que corriam gritando para as ruas ao redor e se esborrachou de focinho e tudo na janela fechada que eu tinha insistido em abrir. Um cão negro. Monstruoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desesperado, Duílio manobrou o carro para a frente bruscamente atingindo o cão de raspão e quase fazendo o animal rolar por cima da capota para se estatelar no chão por trás de nós. Eu nunca o vi dirigindo tão rápido pelas ruas acanhadas da cidade. Não levamos dez minutos para chegar à fazenda Taurinos em segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt; noite caía sobre Taurinos. Pedi a Duílio que me deixasse em casa. Ofereci pouso a "sêo" Danilo e ele acabou aceitando de tão assustado que ainda estava. Ao chegarmos ao portão de minha casa, um arrepio correu pelas espinhas de nós três: havia um cavalo preto amarrado ao portão de minha casa. Duílio nos olhou interrogativamente, "sêo" Danilo e eu olhamos para Duílio tão interrogativamente quanto. Renan? Ele não tinha a chave da minha casa. Não havia ninguém em frente à casa, nem parecia haver ninguém no alpendre. A não ser que estivesse atrás&amp;hellip;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&amp;hellip;ou dentro da casa.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo, Duílio e eu entramos por outro lado da cerca, evitando passar perto do cavalo. A luz das estrelas iluminava o caminho naquele breu inicial da noite. Fomos nos aproximando da casa devagar usando nada mais que os olhos acostumados ao breu da noite para enxergar o caminho. Ninguém no alpendre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendi a luz do alpendre e mariposas e outras criaturinhas noturnas já começavam a encostar na parede do alpendre atraídas pela luz, lançando sombras esquisitas e tortuosas sobre a superfície de tijolo. Girei a chave na fechadura nova em folha o mais devagar que pude. Os dois homens me olhavam assombrados. Abri a porta do mesmo modo. Acendi a luz da sala e lá estava ele sentado na escuridão numa poltrona. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saber de antemão que era ele não amenizou o choque de vê-lo ali à noite na penumbra da minha sala. Ele estava com um molho de chaves nas mãos. Disse que eram cópias caso eu precisasse e as largou sobre a mesa de centro. Se levantou e foi embora passando pelos homens que olhavam ainda mais assombrados que antes. Eu fui até o alpendre falar com ele, mas não havia nada lá. Nem ele, nem o cavalo dele. Nem o som do cavalo partindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele foi para casa, "sá" Stella, ou fazer ronda, já que ele está assim de preto"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo quando me viu voltar à sala. Duílio ainda tinha os olhos do tamanho de dois pires enquanto se persignava loucamente no sofá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse a Duílio que ele poderia esperar até passar o café. Ele esperou. Ficamos conversando sobre o dia de hoje. Insisti que o que eu tinha visto sair da loja era um cão negro. Os dois disseram que não duvidavam que fosse um cão negro. Disseram que o que duvidavam mesmo era que Anderson tivesse cachorros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas então o cachorro enorme que saiu da loja era&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Era, D. Stella. Por isso que eu estava doido pra sair dali. Não viu o tanto de gente espirrando pra todo lado? É o que o povo diz, cavalo, cão, pato, essas coisas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se "sêo" Duílio não fecha a janela ele entrava no carro, "sá" Stella; nó, ia ser um inferno. Ele passou por mim agora pouco que não para de me dar calafrios e olha quanto tempo faz que ele já saiu daqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E ele é só um desses moleques que moram nesta cidade, só isso"&lt;/em&gt;, acrescentou Duílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-8495031297951325626?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/8495031297951325626/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/figura-do-cao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/8495031297951325626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/8495031297951325626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/figura-do-cao.html' title='A figura do cão'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7430035724868040045</id><published>2009-08-17T00:58:00.010-03:00</published><updated>2011-03-02T02:10:57.276-03:00</updated><title type='text'>Redemoinho</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;driano apareceu em casa hoje. Disse que a mãe queria vir, mas pediu que ele me sondasse antes. Eu disse a ele que velhas amigas como nós não tinham essa frescura de sondagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aparecida apareceu logo depois, com Duílio. Foi então que me toquei de que fazia uma semana ou mais que não os visitava ou mesmo via. Fiquei entocada durante todo o tempo do Jamboree, não saí de casa, pelo menos não na direção da Taurinos. Aí, a montanha vinha até Maomé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi bonito o tal encontro"&lt;/em&gt;, Aparecida me contava, &lt;em&gt;"nunca vi jovens mais bem-educados em toda a minha vida. Me ajudavam até com as tarefas de casa, a senhora acredita?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acredito sim"&lt;/em&gt;, e me lembrei do escoteiro Renato, seu amor pela honra e sua correção. Pobre criança perdendo seu tempo nesta cidade absurda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E tinha umas músicas que eles cantavam"&lt;/em&gt;, e ela cantarolou A Árvore da Montanha e outras tantas, &lt;em&gt;"umas cerimônias deles que eram muito bonitas. Os meninos atirando com arco e flecha, nó, tanta coisa"&lt;/em&gt;, ela parecia entusiasmada com o evento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duílio disse que estranhou que eu não aparecesse um só dia na fazenda Taurinos. Disse a ele que estranhei o mesmo. Que a presença dos escoteiros aqui desvirtuou a minha semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Num bom sentido, sabe, mas mudou tudo"&lt;/em&gt;, eu contemporizava para saber como a conversa se desenvolveria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais e o filho mais velho finalmente me disseram que não entenderam porque Andrés só voltou ontem para casa. Perguntaram se ele tinha ficado somente aqui. Eu disse que ele dava suas escapadas para a Prefeitura provavelmente, mas que a maior parte do tempo ficou aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella, ele promoveu o evento e não estava lá"&lt;/em&gt;, explicou Adriano, &lt;em&gt;"a gente teve que representar ele, foi um negócio bem sem-graça. Foi um evento bonito e tudo, mas ficou meio esquisito o anfitrião não aparecer, não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse ponto, comecei a pensar se dizia a eles que Andrés e Bruno, assim como todos os escoteiros do grupo deles ficaram aqui porque alguém fez o favor de parar o tempo em torno deles num dia em que eles deveriam ficar aqui e esperar o início do Jamboree. E tudo provavelmente por causa do desentendimento entre o escoteiro Renato e a dupla medonha no centro da cidade. Acabei contando. A Polícia Obscura mesmo nem tinha pedido silêncio, afinal. Os Conselheiros não gostaram nem um pouco da história. Eu os fiz ver que os meninos de Taurinos sempre jogavam jogos entre si e que estávamos sempre no meio do redemoinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vejam, se formos pegar do começo, eram Andrés e Renan juntos metidos na história do Jardineiro Celeste, com o Arthur em cima pegando no pé"&lt;/em&gt;, eu expliquei o que achava, &lt;em&gt;"e agora Andrés e Bruno juntos metidos na história do Jamboree e o Renan em cima pegando no pé. Mudam os atores, e olhe que nem todos, mas o jogo é sempre o mesmo: regras de alguém são quebradas e o alguém parte para o revide. No caso do Jardineiro Celeste, não precisei mais que entrar no Santuário para desencadear a confusão. No caso da Polícia Obscura, "sêo" Danilo não precisou de mais do que dizer que um chupacabras tinha invadido minha casa para iniciar a quizumba. É como uma rixa descontrolada e permanente de todos contra todos, onde o que menos importa são os motivos e o que mais importa é verdadeiramente a rixa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Meu bom Mitra! Chupacabras, D. Stella? Como aqueles em Varginha?"&lt;/em&gt;, perguntou Aparecida, assustada. Expliquei a eles o que tinha se passado e o que tinha sido combinado com a Polícia Obscura. O estranhamento do grupo escoteiro e a promessa que "sêo" Danilo e eu tínhamos nos feito de não deixar os escoteiros descobrir as bizarrias da cidade. O que era tentar esvaziar o mar, com 500 pessoas de fora pra lá e pra cá na área rural de Taurinos. Adriano torceu o nariz para a explicação, ele mesmo um dos meninos a que eu me referia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo teve que inventar qualquer bobagem na hora"&lt;/em&gt;, eu acrescentei, &lt;em&gt;"Renan ficou sabendo da desculpa dele, não sei como, e criou seu próprio cavalo de batalha a partir daquilo. Como se fosse uma vingança tardia pelo que ele passou no Santuário ou até a velha implicância dele com os apelidos como o da própria Polícia Obscura, entendem? Mas é bem como o Duílio disse outro dia, esses moleques ficam trocando as suas farpas e a gente aqui no meio do fogo cruzado."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família Conselheiro não sabia o que fazer, isso era claro para mim. A zanga era a zanga do costume com o Renan e agora com o Anderson, mais novo membro da "milenar" Polícia Obscura. Mas de resto, era como se estivessem presos naquele mesmo torpor que atacou os meninos. Seria a Polícia Obscura parando o tempo outra vez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Essas crianças são doidas, todas elas, e a gente já não sabe mais o que fazer"&lt;/em&gt;, disse um resignado Duílio para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duílio faz a sua parte, descendo a cinta em suas duas criaturinhas sempre que "necessário". Isso nunca resolveu os problemas, "sêo" Octávio descendo a cinta no Renan nunca resolveu os problemas, nada disso iria adiantar. Nem cessar. Porque já que sabiam que isso não iria resolver, preferiam descarregar suas frustrações nas crianças (apesar de que eu não defendo as surras, mas por vezes não dá para crucificar os pais por isso &amp;mdash; pelo menos não como a Polícia Obscura crucificou o prefeito uns dez dias atrás).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que nós vamos fazer?"&lt;/em&gt;, perguntou o pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu gostaria bem de levar a Polícia a Conselho"&lt;/em&gt;, afirmou o irmão mais velho do prefeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que isso vai resolver? Vai botar o Renan pra trabalhar com o gado junto com o Andrés ou prestando serviço comunitário na Prefeitura por duas semanas ou dois meses, depois acontece tudo outra vez?"&lt;/em&gt;, perguntei. Eu questionava as soluções da terra para os problemas, embora não tivesse soluções melhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não sei se vai resolver, mas deixar as coisas passarem batidas assim todo o tempo acho que resolve menos ainda"&lt;/em&gt;, afirmou Adriano, contrariado com o meu questionamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno construtor em questão era um adolescente muito doce, mas tinha um histórico de conflitos comigo que valia a pena ser considerado não importa o que eu dissesse a ele. No entanto, eu disse a ele que ele tinha razão: a humildade das punições era melhor que a impunidade pura e simples. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu também concordo com o meu filho. Se não podemos impedir essas crianças de fazer o que fazem, vamos ao menos fazer eles verem que o que eles fazem tem consequências"&lt;/em&gt;, declarou Aparecida, apoiada pelo marido. Os Conselheiros pareciam fechados nessa questão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés apareceu logo em seguida; sonado, mas querendo participar da conversa. Não se entusiasmou com a proposta de levar os policiais a Conselho. Aconselhou mesmo que não se fizesse isso. Eu e todos ao redor quisemos saber por que. Ele nunca explicou suas razões, além de dois ou três motivos fúteis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria porque Renan o considerava um traidor por se juntar ao Bruno com uma finalidade tão próxima à natureza depois da "humanização" dos touros da cidade? Porque ele não queria irritar o policial mais ainda já que Renan o considerava um traidor? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final, evitei mencionar o assunto tão misterioso e ancestral com Aparecida ali do lado, assim tão sujeita a faniquitos diversos de um infinito e ancestral pavor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Há um ponto que ainda não consideramos"&lt;/em&gt;, eu acrescentei, &lt;em&gt;"se houver punição para o Renan e o Anderson por isso e mais a crucificação do ex-prefeito e ele aceitar e chamar a responsabilidade da punição sobre o Jardineiro Celeste também? Afinal, ele deixou uma recordação do jardim que ele pretendia me dar contra a minha vontade e isso foi visto pelos escoteiros que acamparam em minhas terras. Aliás, ele estaria certo em invocar esse tipo de coisa e eu apoiaria. Se não se puniu o Jardineiro Celeste, por que punir agora a Polícia Obscura?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ouçam a voz da sabedoria"&lt;/em&gt;, recomendou Andrés e, engraçado, não parecia uma sátira, ele falava sério. Como eu, conhecia as implicações daquilo tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E talvez seja até esse o plano dos dois afinal"&lt;/em&gt;, Andrés continuou em voz suave, &lt;em&gt;"como no dia do acerto do Renan e do Anderson no Mithraeum. Ele jogou pra perder porque viu que poderia arrastar o chaveiro junto. E se ele estiver pensando o mesmo a respeito do Jardineiro Celeste? Quem garante que não? Quem sabe o que passa naquela cabecinha?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo apareceu um pouco depois e estranhou ver o clã reunido em minha casa. Mas disse que apesar dos prejuízos concordava com Andrés que não se deveria levar ninguém a Conselho. Concordou com a teoria de Andrés que poderia ser um plano, disse que era perfeitamente possível, &lt;em&gt;"a gente não sabe o que ficou carregado ali naquela cabeça pelo tempo do Santuário e depois o Andrés se juntando com o Bruno e isso pode ter parecido uma traição para ele. Não falo nem dos tempos antigos, mas esse negócio mais recente do Jardineiro Celeste mesmo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa gigantesca, interminável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7430035724868040045?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7430035724868040045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/redemoinho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7430035724868040045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7430035724868040045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/redemoinho.html' title='Redemoinho'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-5252944872645826006</id><published>2009-08-16T03:39:00.008-03:00</published><updated>2011-02-27T04:13:14.108-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Lugar-tenente</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;cordei de um dos pesadelos mais assustadores que já tive. Acendi a luz da cabeceira, assustada, e havia uma coisa preta na minha cama, parecendo uma protuberância esquisita em meio aos lençóis. Levantei apavorada com aquilo e já ia gritar quando a protuberância ou o que quer que fosse me olhou nos olhos e deu um grito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, eu descobri a origem do pesadelo. Era o Renan. Dormindo comigo na minha cama. Ele explicou que tinha tido um pesadelo e por isso veio dormir na minha cama. Engraçado, um pesadelo acordando à noite com outro pesadelo. Eu pensei que ele tinha voltado para casa, mas o diabinho tinha mesmo era dormido aqui. Por isso o pesadelo bizarro dentro da noite. Fiquei olhando para ele enquanto ele falava, sonada, mas ainda assustada com o pesadelo. E ele permanecia ali. Falando comigo. Um pesadelo minúsculo que nem as botas tinha tirado para dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não quero você dormindo de botas na cama"&lt;/em&gt;, eu disse severamente e a coisinha preta se encolheu. Tirou as botas e se deixou cair na cama outra vez. Eram sete e meia da manhã. Acariciei levemente a cabecinha dele, pensando na realidade do povo lá fora, preso num dia qualquer há quase uma semana de distância de nós. Levantei, larguei o menino caído lá e fui fazer café. Ao descer, dei com o outro policial dormindo no sofá. Estava bem guardada e os pesadelos eram só um efeito colateral de ter os dois monstrinhos minúsculos em casa numa mesma noite de sono. Não acordei o Anderson, mas não procurei fazer mais silêncio do que já estava. O ferreiro acordou espontaneamente e se desculpou por não avisarem que iriam dormir aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o café estava pronto, ouvimos o Renan descer. Ficamos tomando café em silêncio por um tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que nós vamos fazer agora?"&lt;/em&gt;, perguntou o ferreiro, quebrando o silêncio incômodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você eu não sei, mas eu vou comer mais pão de queijo"&lt;/em&gt;, respondeu Renan com seu minúsculo sorrisinho luminoso costumeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu estou falando dos escoteiros, Renan; esse problema do tempo deles parado desse jeito"&lt;/em&gt;, Anderson ficou impaciente com o parceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E eu lá sei? O Andrés e o Bruno colocam essa penca de bicho-grilo tudo aqui dentro, caem no mesmo feitiço dos outros e ainda tem o jardim que está aqui mas não está aqui, que é obra dos outros dois bicho-grilos, do meu irmão mais velho também, que é outro bicho-grilo de merda."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menininho dava voz aos meus próprios pensamentos. "Sêo" Danilo chegou e se juntou ao Grande Não Sei reinante em minha casa. O velho sertanejo mesmo não conseguia pensar em nada digno de nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;L&lt;/span&gt;á por umas seis da tarde, retribuí a visita a "sêo" Danilo, no horário tradicional em que já me habituei a visitá-lo. A casa estava muito mudada, era mais uma casa no sentido da alvenaria agora. O poste padrão da CEMIG em frente à casa. Trouxe meu laptop, contando com a eletricidade. O velho sertanejo não me esperava e ficou feliz com a visita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas chega pra dentro, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, ele disse sorrindo, &lt;em&gt;"já estava esquentando água pra fazer café e tudo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele me mostrou as lâmpadas elétricas nos cômodos, contente com a nova fonte de luz. Me disse que agora podia ler por mais tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Criosene ilumina bem, mas também faz uma sujeirada que a senhora não tem idéia."&lt;/em&gt; E ele sorriu novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E essa agora, hein, "sêo" Danilo?"&lt;/em&gt;, perguntei, fazendo o assunto voltar ao que era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio por um tempo. No final, disse que tinha estado pensando no que poderia ter acontecido e que não chegou a nenhuma conclusão. Podia ser tudo, podia ser nada, ele disse. Concordei. Com uma cidade disposta de forma tão caótica como Taurinos sempre tinha sido, pode chegar um dia em que um nó vai se fechar sobre a cidade e não vamos ter nenhuma solução sem pé nem cabeça para esse nó. O sertanejo concordou que havia uma possibilidade disso acontecer, embora a ideia lhe assustasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O café ficou pronto e bebemos em silêncio por algum tempo. "Sêo" Danilo me olhou de maneira estranha e me disse que vinha examinando sua memória e que uma das coisas que aconteceu no dia em que os escoteiros chegaram foi que justamente nós combinamos de eu visitar "sêo" Danilo aqui em sua casa. Me lembrei de que realmente tínhamos combinado isso que fiz hoje de forma tão espontânea. Ele disse que, do que ele conseguia se lembrar, foi outra das coisas realmente diferentes que aconteceram no dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Começava a escurecer e ouvimos o som de cavalos lá fora, ao longe. Pareciam ser dois. Olhei para "sêo" Danilo. Os dois cavalos pararam em frente à casa de "sêo" Danilo e eu ia olhar pela janela, quando o sertanejo me puxou para trás bruscamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nunca olhe pela janela com som de cavalos a essas horas da noite. A janela enquadra e dá muito mais clareza ao formato do que quer que esteja lá fora. É como se fosse umas dessas lentes de aumento. Foi o que aconteceu quando a senhora viu o Renan uma vez pela janela do seu alpendre, lembra?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que a gente faz?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Espera"&lt;/em&gt;, ele murmurou com o indicador sobre os lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cavalos tinham parado. A sensação era aquela do ar pesado que já tínhamos experimentado tantas vezes. Um ar irrespirável, quando tudo em volta, chaleiras, fogão à lenha, lâmpadas, parecia ter vida, mas uma vida mórbida e movimentos rastejantes. O velho sertanejo se persignou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo! Vamos conversar, "sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;, a voz era aquele vômito grave de uma voz passada num triturador misturado ao som de tambores de gasolina rolando uma escadaria. Era Anderson falando. Pensei: que assunto eles teriam para tratar com "sêo" Danilo naquele aspecto? Naquele espectro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pode abrir, "sêo" Danilo, não estamos mais armados"&lt;/em&gt;, agora era a vozinha minúscula do Renan, &lt;em&gt;"eu trouxe até pão de queijo; o senhor não merece, mas eu trouxe até pão de queijo"&lt;/em&gt;, ele disse ao entrar, nos mostrando um lenço branco, &lt;em&gt;"pra gente comemorar que a senhora finalmente resolveu vir e conhecer a casa nova do "sêo" Danilo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, tem pelo menos uns vinte pães de queijo nessa sacola"&lt;/em&gt;, riu Anderson olhando para nós de modo matreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo e eu nos entreolhamos sem nada entender. Pelo menos &lt;b&gt;eu&lt;/b&gt; não estava entendendo. Já ele parecia ter noção do que estava acontecendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo, a gente tem o maior respeito pela sua pessoa. O senhor não estava querendo sacanear a gente com aquele negócio de chupacabras&amp;hellip;?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Achei que a gente já tivesse discutido isso, Renan"&lt;/em&gt;, eu tentei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora achou errado. Mas fez o certo quando resolveu visitar "sêo" Danilo. Os escoteiros foram embora da cidade agora pouco"&lt;/em&gt;, retrucou Renan, &lt;em&gt;"fiz o tempo deles liberar só quando a senhora resolvesse visitar o "sêo" Danilo e agora que está aqui, eles se foram. Seu amiguinho estava chorando quando entrou no ônibus. Acho que ele não acreditou quando percebeu que tinha perdido quase uma semana aqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foram vocês todo o tempo"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo se recusava a acreditar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E estiveram na minha casa hoje de manhã, fingindo que estavam preocupados com o problema dos escoteiros, o senhor acredita?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o velho sertanejo, eu ainda me recusava a acreditar que os dois tinham segurado os escoteiros no mesmo dia em que chegaram para o Jamboree. Fiquei olhando os dois meninos de preto enquanto eles ensaiavam dar uma risadinha matreira típica daqueles mineirinhos. Enfurecida, eu disse que eles deveriam ir embora. Anderson respondeu que eu não estava em minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nem ela, nem vocês, sô!"&lt;/em&gt;, cortou o sertanejo, com um semblante severo, &lt;em&gt;"isso não é jeito de se falar com os mais velhos, sô Anderson! Vocês ouviram "sá" Stella, agora peguem o pão de queijo de vocês e sumam."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se levantaram, &lt;em&gt;"da próxima vez que chamarem a gente de algum apelido, a coisa vai ficar feia nessa cidade, eu juro"&lt;/em&gt;, grunhiu Renan, pegando o saco de pão de queijo de modo brusco e saindo emburrado, acompanhado de seu fiel e valente (e emburrado) lugar-tenente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei encafifada quando entendi que eles seguraram os meninos em minha casa até que eu viesse visitar "sêo" Danilo. O sertanejo disse ter comentado com eles sobre a visita no mesmo dia em que tínhamos combinado isso, mas nunca imaginaria que Renan e Anderson fossem pegar o mote para usá-lo como limite automático de sua praga de tempo sobre os escoteiros. Porque ninguém nunca imaginaria que Renan e Anderson fossem pegar o mote desse jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-5252944872645826006?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/5252944872645826006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/lugar-tenente.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5252944872645826006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5252944872645826006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/lugar-tenente.html' title='Lugar-tenente'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-2765019755776160363</id><published>2009-08-15T01:31:00.008-03:00</published><updated>2011-02-27T04:13:14.108-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Circe</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;R&lt;/span&gt;enato me disse que não consegue mais esperar até começar o Jamboree. Miguel acordou cedo hoje. Eu o vi por umas oito da manhã. Ofereci café aos dois mas eles recusaram, dizendo já terem se alimentado. Andrés estava por perto ouvindo a nossa conversa e me disse que queria conversar comigo. Tinha ele uma certa lassidão no corpo, um estupor que eu não conseguia entender muito menos explicar. Na cozinha, enquanto eu tomava (e ele filava) um café, ele me disse que a hora do grupo se mudar para onde o Jamboree iria acontecer tinha chegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quando o evento começa afinal? Pensei que já estivesse acontecendo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Amanhã"&lt;/em&gt;, ele tirou os óculos e começou a limpá-los devagar como em câmara lenta, olhando para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nossa, parece que faz dias já que deveria ter começado&amp;hellip; Enfim&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei pensando em se eu já tinha perguntado a ele a data de início do Jamboree. Algo não estava batendo. Já pensava em minha casa como o refúgio de Circe, a feiticeira, de cuja morada ninguém conseguia ir embora. Ecos do cineasta espanhol Buñuel em seu &lt;i&gt;Anjo Exterminador&lt;/i&gt;? Ecos do escritor inglês William Golding em seu &lt;i&gt;Senhor Das Moscas&lt;/i&gt;? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt; mesmo "sêo" Danilo ficou espantado ao saber que nenhum dos escoteiros tinha saído da minha casa em momento algum para o Jamboree. Mas eu recordei que tínhamos visto o escoteiro Renato na cidade. O chefe dos escoteiros não tinha saído daqui. Nem mesmo quando foi "abduzido" pelo Caipora em sua eterna busca de cigarros, mas o escoteiro tinha. Me lembrei de que fazia bem uma semana que eu não ia à fazenda Taurinos. O velho sertanejo não parecia entender patavina do que estava acontecendo. Eu não parecia entender patavina do que estava acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Questionado, Renato saiu da roda de escoteiros onde estava e veio ter conosco. Eu perguntei a ele sutilmente o que achava de minha casa. Eu não sabia, mas não estávamos preparados para ouvir a resposta, nem eu, nem "sêo" Danilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Maravilhosa"&lt;/em&gt;, ele respondeu, &lt;em&gt;"acho que eu não cheguei a lhe dizer o quanto é bonito o seu jardim. Não consegui explorar todo ainda e nem sei se vou conseguir."&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu um sorriso luminoso, bem ao modo das crianças daqui. Eu e "sêo" Danilo quase quebramos o pescoço ao olhar um para o outro, &lt;em&gt;"você disse jardim?"&lt;/em&gt; , perguntamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, este jardim lindo que a senhora tem, cascatinhas, pontes e tudo"&lt;/em&gt;, ele assentiu com a cabeça. Miguel se aproximou de nós e sabendo do assunto, se desmanchou em elogios ao tal jardim. Eu e "sêo" Danilo não parávamos de trocar olhares significativos. Pedi que o chefe dos escoteiros me dissesse que dia era hoje. Ele perguntou porque eu me importava tanto com as datas inteiras e eu me saí com um tal problema de memória para datas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Hoje é 24 de janeiro de 2011"&lt;/em&gt;, ele informou dando de ombros, quase simultaneamente com o escoteiro Renato, &lt;em&gt;"não vejo a hora do Jamboree começar"&lt;/em&gt;, e os dois sorriram aquele sorriso luminoso que já me acostumei a ver por aqui. Eu e "sêo" Danilo não parávamos de trocar olhares significativos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ais tarde estávamos a sós e "sêo" Danilo comentou que o calendário deles era bem diferente do nosso, mas eu o detive com um gesto na metade do comentário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo, o calendário deles não é só diferente do nosso. Essa é a data que o mesmo Miguel e agora o Renato me deram quando eles &lt;b&gt;chegaram&lt;/b&gt; à cidade. Se é o que eu estou pensando, eles já estão vivendo o mesmo dia da chegada vai fazer cinco dias."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, pela conversa deles e pela data já deu pra ver que eles estão parados no dia em que chegaram"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo estava assombrado, &lt;em&gt;"e agora, "sá" Stella?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso eu recordei que tínhamos visto o escoteiro Renato na cidade, mas jamais na fazenda Taurinos, onde tudo acontecia. Eles não iam porque o Jamboree não tinha começado ainda. Eles nunca iriam porque o Jamboree não iria mais começar. Porque o Jamboree já tinha começado e acabado. Foi só então que eu vi o tamanho do erro que cometi ao aceitar o grupo escoteiro aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Polícia Obscura apareceu logo em seguida para complicar as coisas. Os dois torceram o nariz para a permanência do grupo escoteiro em minha casa e vieram me perguntar quando eles finalmente iriam deixar a cidade. Expliquei que para eles o Jamboree nem tinha começado, porque eles estavam blá, blá, blá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o pior é esse jardim que eles estão vendo em volta da minha casa"&lt;/em&gt;, continuei, arrancando expressões de estranheza dos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Jardim? Que jardim?"&lt;/em&gt;, o timing vocal dos dois foi perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os policiais prometeram não assumir os aspecto de cabritos pretos falantes que cuspiam fogo pela boca mas foram arrancar o prefeito e o Bruno das barracas. Sorrindo amarelo para os escoteiros e seu chefe, fomos entrando para minha casa  e a Polícia Obscura estava irritada com os dois que chamavam bicho-grilos, querendo explicações. Andrés e Bruno pareciam dois patetas. Como que perdidos no encanto de Circe. Eu e "sêo" Danilo podíamos notar que eles faziam parte daquilo. Como Andrés tinha ficado preso no Santuário, agora ele e Bruno compartilhavam a mesma sorte de não mais conseguir sair do dia em que os escoteiros chegaram aqui. Eu disse isso à Polícia, quando nenhum dos dois escoteiros presentes parecia encontrar palavras para definir aquilo pelo qual passavam. Os policiais serenaram a carga de ódio infanto-juvenil para cair na mais profunda perplexidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ih, tem isso também, é?"&lt;/em&gt;, Anderson persignou-se como bom cristão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E essa história de jardim?"&lt;/em&gt;, lembrou Renan, tornando a ficar irritado, o que já estava começando a me deixar irritada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés e Bruno afirmaram que nada sabiam de jardim nenhum. Perguntei em que dia estávamos. Estranharam a pergunta e responderam que era 10 de agosto de 2009. Renan franziu a testa, Anderson franziu a testa, eu e "sêo" Danilo franzimos a testa. Apenas Andrés e Bruno não franziram a testa, presas que eram daquele estado de torpor que não era diferente do que vi nos outros escoteiros do mesmo grupo. As longas noites passadas contemplando o céu; torpor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, Anderson, vocês têm certeza de que esse negócio de parar o tempo é seguro?"&lt;/em&gt;, foi a primeira coisa que eu perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, agora também é nossa culpa essa merda???"&lt;/em&gt;, a criança mais nova se preparava para avançar em cima de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, pelo amor de Mitra, não estou culpando vocês, só preciso de uma resposta. A gente precisa eliminar as possibilidades pra&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O zangão se acalmou. Finalmente disse que se fosse por isso, teria sido a primeira vez. Eu não sabia o que pensar. "Sêo" Danilo não sabia o que pensar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E essa história de jardim? Os escoteiros vêem, mas o Andrés e o Bruno não"&lt;/em&gt;, lembrou Anderson, começando a ficar irritado, o que já estava também me deixando irritada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Naquela noite com os músicos do Rio&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, começou o velho sertanejo, &lt;em&gt;"ah, vocês não vão começar com o sermão, né?"&lt;/em&gt;, cortou Renan, rente e eu disse que ele ficasse quieto e ouvisse, &lt;em&gt;"&amp;hellip;a senhora notou se eles olhavam para os lados, como se estivessem admirando alguma coisa, "sá" Stella?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não notei, se eles por algum momento viram que ali tinha um jardim, disfarçaram bem ou não se interessam muito por jardinagem."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan acrescentou que quando a Polícia Obscura chegou, implantou o terror e mesmo que eles prestassem atenção no comportamento deles, os músicos não estariam em condições de admirar o jardim, o que achei &lt;acronym title="Maneira polida da autora de dizer que o comentário de Renan foi desnecessário de tão óbvio."&gt;extremamente lógico&lt;/acronym&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A chuva"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo numa epifania.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhamos para a janela da cozinha a ver se o tempo fechava. O velho sertanejo riu e explicou que falava da chuva um dia antes dos escoteiros chegarem. O único incidente mais digno de nota a que poderíamos chegar naquele ou em qualquer outro momento, exatamente um dia antes da chegada dos grupos escoteiros a Taurinos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A chuva parou tudo, não foi?"&lt;/em&gt;, disse o prefeito de seu canto, ainda sob forte efeito daquele torpor, sorrindo como um idiota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei ao prefeito se ele não percebia que os dias e as noites estavam passando e, a julgar pela resposta que me deu, ele não parecia saber o que era dia ou o que era noite. Bruno não foi melhor em sua tentativa de explicar como tinha passado os últimos dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que seria melhor chamar o Arthur; não foi ele que mandou essa chuva?"&lt;/em&gt;, sugeriu Anderson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan não pareceu resistir a brincar com o clichê, &lt;em&gt;"sempre achei que o Arthur era o verdadeiro manda-chuva nessa cidade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;rthur chegou duas horas depois em seu cavalo. Ficou olhando as barracas enquanto atravessava o terreno em direção da minha casa. Ele parecia encabulado quando entrou. Não parecia querer olhar ninguém nos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, o que havia naquela chuva que você fez cair?"&lt;/em&gt;, foi a primeira pergunta que fiz a ele quando ele se sentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Água, né?"&lt;/em&gt;, ele respondeu a contragosto, como se tivesse ouvido a mais idiota das perguntas. Era óbvio que ele preferiria estar em outro lugar que não minha casa hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E nenhuma semente oculta, mágica ou latente veio junto com a água?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno Feletti franziu a testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que é que a senhora quer dizer com isso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Arthur, os escoteiros não conseguem sair daqui da casa de "sá" Stella; e mais, eles estão vendo um jardim em torno da casa que nenhum de nós pode ver e que pelo jeito é o mesmo jardim que você queria colocar aqui mas teve que tirar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explicamos que ainda por cima havia a questão do eterno dia 10 de agosto de 2009, que nem o Andrés e nem o Bruno viam o jardim, mas que foram igualmente afetados pela parada do tempo. Arthur foi se espantando mais e mais à medida que a explicação progredia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quando a senhora me disse pra tirar o jardim, ele deve ter ficado lá, mas não podia mais ser visto por ninguém da cidade"&lt;/em&gt;, ele explicou para nosso assombro, &lt;em&gt;"e a chuva deve ter revelado isso para eles, que eram de fora. Pode ter redobrado a energia do jardim, e assim ele agora pode ser visto, mas só pelo pessoal de fora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso sem dúvida explica porque nem o Andrés e nem o Bruno veem o jardim. Mas por que, se posso saber, deixou que o jardim permanecesse se eu tinha dito a você para retirar tudo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu pensei que tinha feito isso, mas vocês me mostraram que ele ficou. E por que eu não sei."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então há coisas que você não consegue controlar"&lt;/em&gt;, eu questionei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, acho que nesse ponto não sou tão diferente da senhora, afinal."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o menino sorriu um sorrisinho satisfeito ao me ver sem-graça. Mas antes que satisfeito, ele parecia triste. Disse que não podia prever o que poderia acontecer quando colocou o jardim em minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nós só queríamos fazer algo de bom pra senhora. Não dava pra ver esse estrago todo acontecendo&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, ele começou a demonstrar nervosismo, olhando para todos, sentiu um nó apertado na garganta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, ninguém está te culpando por nada. É só que precisamos achar a solução pra essa bagunça. De mais a mais, nem sabemos se o jardim que ficou tem a ver com o estado em que os escoteiros estão."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pois é, ainda tem a Polícia pra culpar"&lt;/em&gt;, lembrou Renan, tornando a ficar irritado, o que já estava começando a me deixar irritada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não houve o problema do sino? Não poderia ter voltado?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Com certeza não"&lt;/em&gt;, negou Anderson imediatamente, &lt;em&gt;"e se voltasse, teria sido para todos nós, não só eles, nuemes?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson terminou dizendo que tinham aplicado a técnica de parar o tempo na fazenda Taurinos durante o Jamboree e isso não afetou em nada o tempo daquelas pessoas. Exatamente como fizeram aqui, mas lá foi mais de uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tinha razão. Nos restava mesmo a chuva e o jardim que nos cercava e que não podíamos ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-2765019755776160363?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/2765019755776160363/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/circe.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2765019755776160363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2765019755776160363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/circe.html' title='Circe'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7492177029776451354</id><published>2009-08-14T01:56:00.005-03:00</published><updated>2011-02-10T01:59:46.779-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Clint Eastwood</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;R&lt;/span&gt;enato acordou hoje. Praticamente 24 horas dormindo após a experiência com a Polícia Obscura. Não era muito para o que ele deve ter passado. Mas com certeza ele estava agora bem melhor. Ele comeu bem no café da manhã, o que é um bom sinal. Minha despensa está se esvaziando. Preciso ir ao supermercado do Souza esses dias para repor o estoque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os cabritos ficaram falando comigo à noite enquanto eu tentava dormir, D. Stella"&lt;/em&gt;, me disse o menino recordando a experiência, terrificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu sei"&lt;/em&gt;, respondi, tomando um gole de café; ele me olhou sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pelo jeito a senhora não acredita em mim. Eu sei que é difícil acreditar, mas eu juro, não estou mentindo! Os dois ficaram mesmo falando comigo. Só falavam palavrões e me xingavam o tempo todo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu acredito em você."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou comendo em silêncio, olhando fixo para mim, provavelmente procurando um modo de me "convencer" de que ele estava falando a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ninguém acredita em mim. Desde que eu falei daquele homem que estava conversando com o Miguel&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu acredito nele e em você"&lt;/em&gt;, eu garanti ao escoteiro; ele quase engasgou com o pão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas não pode as duas coisas serem verdade, D. Stella! Como pode ser ele e não ser ele?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tem muita coisa nessa cidade que não se explica. Como podem dois cabritos falarem com você? Eu acredito porque eu vi os cabritos na tua barraca."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio. Não pareceu ter conseguido pensar numa objeção coerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não acha que era o seu amigo conversando com o Miguel, então?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que era alguém muito parecido com ele, mas que não era ele"&lt;/em&gt;, declarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Polícia Obscura apareceu logo em seguida, seguida de "sêo" Danilo. Perguntei ao Anderson se ele não estava mais trabalhando como lojista. Ele me disse que o pai iria cuidar da loja durante o Jamboree para que ele pudesse patrulhar a cidade com Renan. Os dois viram o escoteiro e Renan ia dizer alguma coisa quando eu fiz sinal para que ele ficasse calado. Eles ficaram quietos a contragosto porque estavam em minha casa. Isso não os impediu de lançar olhares fulminantes e furiosos na direção do menino. Renato não tinha medo deles, o que só aumentava o risco que ele corria; tinha cedo aprendido no escotismo a sorrir diante das dificuldades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escoteiro pediu licença e saiu, depois de fazer questão de lavar a louça que usou, apesar de eu insistir que ele largasse tudo lá. Passou pelos policiais e os cumprimentou, mesmo sabendo quem eles eram. Recebeu um silêncio emburrado como retribuição e se foi sem mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vocês precisam controlar esse ódio que aparece em vocês de quando em quando"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo a eles quando o escoteiro saiu, prolongando um pouco mais a tromba dos dois, &lt;em&gt;"às vezes mais atrapalha do que ajuda. Muito melhor guardarem essa energia para os entrantes, a população não tem nada a ver com isso, meninos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Caralho, mais um puxão de orelha? As minhas duas orelhas dão pra usar pra fritar um ovo de tão quentes que já 'tão, porra! Mil vezes porra, caralho!"&lt;/em&gt;, o meganha mais velho estava irado e demoraria a fechar o registro dos palavrões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tudo de errado é a Polícia que faz, dou conta não, puta que pariu"&lt;/em&gt;, ajuntou o meganha mais novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pois acho bom que deem conta"&lt;/em&gt;, eu disse, &lt;em&gt;"gente que faz as coisas e tira da reta a gente encontra em qualquer lata de lixo. E vocês sabem muito bem que definitivamente esse não é o caso de vocês. Outra coisa: levo vocês a Conselho se entrarem na minha casa outra vez para atazanar um hóspede meu com aspecto de cabritos pretos ou qualquer outro aspecto medonho que venham a inventar. Minha casa não é trem-fantasma."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não para de criticar a gente nem um minuto, eh? Caralho!"&lt;/em&gt;, Anderson estava ofendido e emburrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Fez errado, eu critico mesmo. Outro dia, se não intervenho, vocês tinham matado aqueles músicos do Rio. Vocês ficam assistindo esses filmes na TV até tarde e pensam que podem sempre entrar de sola onde quer que seja. Nenhum de vocês dois é Clint Eastwood."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ais tarde, "sêo" Danilo veio me dizer o que eu já sabia: que até o momento não havia pistas do desaparecido líder da tropa, Miguel. Começo a ficar nervosa com a situação, cogitando o que poderia ter acontecido ao pobre homem. Como desapareceu? Para que lados andará? Quem era, se não era o velho sertanejo, o homem que Renato viu conversando com ele quando ele desapareceu? Temos corrido a cidade inteira com Adriano, chegamos a ir ao sítio onde ocorreu o ritual da Polícia Obscura e dali até as margens do lago da Ilha Basilisco e nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos interrompidos por novo vozerio lá fora. Fico nervosa quando isso acontece, já me arrependi várias vezes de ter deixado os meninos acamparem aqui por conta disso. Andrés e Bruno estavam lá fora com os outros escoteiros, discutindo algo. À distância, via-se que Bruno tinha algo na mão, parecido com uma caixinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor voltou a fumar, "sêo" Danilo?"&lt;/em&gt;, perguntou Andrés, conhecedor dos hábitos antigos do velho sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sertanejo olhou para mim e para ele. Disse que não. Andrés estendeu a ele a caixinha que estava na mão do Bruno. Era uma caixinha de Souza Paiol. Ele olhou para mim, sem nada entender. Eu entendendo menos ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Achei meio pra dentro meio pra fora, embaixo da minha barraca, agorinha pouco"&lt;/em&gt;, disse o Renato para mim e para "sêo" Danilo, provavelmente repetindo o que já tinha dito a Andrés e Bruno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se o senhor não voltou a fumar, quem teria passado por aqui e enfiado isso debaixo da barraca do Renato? Ele jura que a caixinha de Souza Paiol não estava ali quando ele montou a barraca"&lt;/em&gt;, questionou Bruno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Juro mesmo. Pela minha honra"&lt;/em&gt;, afirmou Renato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo se voltou para Renato, como que iluminado por algo novo, &lt;em&gt;"você viu o Miguel por último e um homem conversando com ele que parecia muito comigo. Você se lembra do que eles estavam falando?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escoteiro parou e pensou. Não parecia conseguir se recordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É importante que lembre do máximo de coisas que você puder"&lt;/em&gt;, aconselhou o velho sertanejo ao menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escoteiro pensou mais um pouco. Não parecia conseguir se recordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nada? Nem um nadinha de nada?"&lt;/em&gt;, estimulava Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escoteiro pensou mais um pouco. Finalmente olhou para nós e sorriu; agora parecia conseguir se recordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele pediu um cigarro ao Miguel e o Miguel disse que não fumava e que era muito melhor não fumar. O homem acho que não gostou, mas não fiquei ouvindo mais porque não era um assunto meu. E porque eu tinha de ir pegar lenha para a fogueira da noite. Foi a última vez que eu vi o Miguel."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nó, por que não disse isso antes?"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo olhou para mim revivendo ecos de antigos contatos com entidades no mato, se bem que não antigas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Desculpem, não achei que fosse muito importante"&lt;/em&gt;, ele confessou, atônito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu garanti a ele que fazia toda a diferença, &lt;em&gt;"agora dá pra saber quem esteve com o Miguel quando ele sumiu. Mas foi muito bom que você tenha conseguido se recordar. A gente só tem que te agradecer."&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vocês conhecem o homem que levou o Miguel?"&lt;/em&gt;, ele olhou para nós no auge do suspense. Andrés e Bruno estavam em estado de estupor, esperando ser surpreendidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente tem uma ideia de quem seja; eu e "sêo" Danilo encontramos com ele numa mata perto daqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho sertanejo confirmou. Disse que precisaríamos conseguir uma ou duas caixinhas de Souza Paiol para que o homem devolvesse Miguel (claro que se escudou de dizer que era o Caipora para não apavorar ainda mais o menino varginhense naquele mundo esquisito de cabritos pretos falantes). Bruno disse que ia à cidade e poderia comprar. "Sêo" Danilo disse que iria ele mesmo. Que menores de idade não deveriam comprar cigarros, mesmo que para os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele sequestrou o Miguel por causa de cigarros???"&lt;/em&gt;, Renato estava no auge de sua perplexidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Parece que sim"&lt;/em&gt;, respondeu o velho sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato fez questão de ir conosco. A princípio, eu não queria que ele fosse, mas no final achei que seria bom ele ver que "sêo" Danilo não tinha mentido. O velho sertanejo foi à cidade e voltou mais tarde, trazendo dois maços de Souza Paiol. Fomos nós cinco à mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;J&lt;/span&gt;á fazia bem uma meia-hora que estávamos caminhando. Andrés discutia comigo como se poderia erradicar o Caipora da cidade, Bruno torcia o nariz para a ideia, Renato quase nada entendeu e eu e "sêo" Danilo dissemos a Andrés que essas coisas não se "erradicavam". Eram tão parte do mundo mental daquela mata quanto eram as árvores e plantas e riachos do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos num trecho mais fechado agora. Os três escoteiros nos seguiam em suspense. Andrés parecia estar com medo. Ao chegarmos à clareira onde pela primeira vez eu entrei em contato com o Caipora, paramos e nos sentamos no chão, aguardando. O velho sertanejo abriu a caixinha de Souza Paiol, tirou um cigarro e o acendeu. Via-se que ele tragava o cigarro a contragosto, como se aquilo fosse parte inalienável do ritual que ele não pudesse de modo nenhum pular. Renato olhava sem entender nada, mas nada ousava perguntar naquele momento em que viu que ninguém pronunciava uma sílaba sequer, mais uma prova de sua sensibilidade. O velho sertanejo fumava. Foi Bruno quem primeiro chamou a atenção para um assobio distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É ele. Bem na terceira tragada&amp;hellip; Quietos agora!"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo?! É o senhor de novo, "sêo" Danilo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato se espantou. A voz era a voz dele. Ele olhava para nós em busca de uma explicação, mas só recebia pedidos de silêncio. O mato vinha estalando, gravetos se quebrando nas pisadas do que quer que estivesse vindo. Era o tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele surgiu na clareira, era o escoteiro Renato. Aparecendo diante do próprio escoteiro Renato. O jovem varginhense tremia de cima em baixo sem conseguir se mexer do lugar. Nunca pensei que a visão de si mesmo pudesse inspirar tanto terror a alguém. Andrés e Bruno olhavam, um pouco menos espantados, mas espantados mesmo assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eh, o senhor de novo, "sêo" Danilo. E trouxe aquele do bom!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "escoteiro Renato" e "sêo" Danilo se sentaram juntos e fumavam em silêncio. Ninguém ousava dizer uma palavra. O velho sertanejo perguntou pelo paradeiro do líder de tropa. O Caipora disse que ele estava em sua barraca. Que ele nunca tinha saído de lá. Raciocinei aquilo como algo como animação suspensa. Ele estava ali, mas não estava ali. Ao mesmo tempo presente e indisponível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;F&lt;/span&gt;ui encontrar o escoteiro Renato sentado na parede do alpendre, ainda no escuro do começo de noite. Acendi a luz e as mariposas e outras criaturinhas noturnas já começavam a encostar na parede do alpendre atraídas pela luz, lançando sombras esquisitas e tortuosas sobre a superfície de tijolo. Perguntei do Miguel e Renato disse que ele tinha ido dormir depois do dia de descobertas. O menino estava ainda sob o choque de tudo o que tinha vivenciado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por isso eu disse que acreditava em você e em "sêo" Danilo"&lt;/em&gt;, eu disse a ele quando ele tocou o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi difícil acreditar até ver. A gente pensa que só existe na semana do folclore na escola&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, e ele olhou para mim, sorrindo sem-graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, não são só historinhas que o povo conta, aqui é o lugar onde essas coisas tomam vida de verdade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo apareceu logo depois. Perguntou também sobre o Miguel e recebeu a mesma resposta do escoteiro. Renato se desculpou com o velho sertanejo pela confusão e este acariciou ligeiramente a cabeça do menino, &lt;em&gt;"larga mão, se eu não soubesse o que era, nem eu acreditaria."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu nunca ia imaginar que uma cidade assim tão esquisita fosse ao lado de Varginha"&lt;/em&gt;, confessou o menino, &lt;em&gt;"que lugar é esse onde tanta coisa estranha acontece?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o velho sertanejo, em dúvida sobre se deveria dizer a ele. "Sêo" Danilo decidiu por mim, perguntando se eu tinha localizado alguma constelação nova como na outra noite. Eu disse que não e começaríamos um novo assunto, mas não contávamos com a tenacidade do jovem ao nosso lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que lugar é esse?"&lt;/em&gt;, tornou o menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o fiz dar sua palavra de honra que não diria a ninguém o que ouviu de mim e contei a ele sobre a cidade. Ele ouviu calado, como que preso à profundas cogitações. Perguntou se ele tinha morrido. Eu disse que não. Perguntou se Andrés e Bruno eram diabos. Eu disse que não, mas que eu às vezes tinha minhas dúvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, assim vai assustar o menino&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele é um menino corajoso, "sêo" Danilo. E agora além disso, sabe exatamente onde está."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7492177029776451354?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7492177029776451354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/clint-eastwood.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7492177029776451354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7492177029776451354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/clint-eastwood.html' title='Clint Eastwood'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-2607115798761075736</id><published>2009-08-13T03:28:00.006-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.454-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Oferenda temporária</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u chamei Andrés para dentro de casa hoje de manhã. Eu disse a ele que Renato estava tendo um pesadelo atrás do outro. Acordava de um, caía no sono como se fosse puxado de volta para um buraco e recomeçava a ladainha dos pesadelos de novo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sono dele ainda era agitado; nada de se admirar depois de um contato daqueles com a Polícia. Andrés ficou revoltado. Não esperava tanta confusão, era lógico. Isso sem considerar que ainda não havia nem sombra de Miguel e nada parecia indicar que seria possível, que dirá fácil encontrar o homem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levei o prefeito ao quarto de hóspedes e abri a porta para lhe mostrar o pequeno escoteiro adormecido. Ao abrir a porta, nosso horror e espanto foram totais: os dois cabritos pretos que vi sair da barraca estavam velando o menino no escuro, um de cada lado da cama, como súcubos minúsculos e horrorosos. Ao acender a luz, eles não estavam mais ali. Ao apagar, estavam ao lado da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles estão usando a própria energia do moleque para velar ele"&lt;/em&gt;, disse Andrés, com olhos de espanto que deixavam entrever uma ponta de medo e preocupação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;L&lt;/span&gt;iguei para a Polícia. Anderson foi o primeiro para-raios que encontrei pelo caminho. Eu disse a ele que era um absurdo o que estavam fazendo. Tinha prometido me controlar e não fazer críticas, mas nunca era o caso de me controlar com a Polícia Obscura. Liguei para Renan e repeti a ladainha. Voltei ao quarto de hóspedes e Renato estava dormindo tranquilamente afinal. Nem sombra dos dois cabritos pretos que ladeavam a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;ndrés ficou admirado de eu ter conseguido acabar com o problema dos pesadelos de Renato usando nada mais que um telefone. Eu disse a ele que quando se sabe o origem do problema, fica mais fácil fazer com que as coisas voltem a funcionar. Disse também que além da esculhambação para cima dos dois policiais medonhos, tive que prometer um bolo de fubá e café com leite para os dois no fim da tarde, precisamente na hora da Ave Maria. Andrés não gostou muito da história. Disse que eu poderia criar um hábito neles como por exemplo, dar comida para um santo para resolver problemas. Eu disse a ele que fiquei pensando em como isso me lembrava o candomblé ou a umbanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles acabam comendo bolo de fubá e tomando café com leite, almoçando, jantando por aqui a hora que vierem. Então, em que isso afeta?"&lt;/em&gt;, eu quis saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés disse que eles poderiam ficar mais exigentes com o tempo, mas deixou morrer a discussão sobre as oferendas. Me senti como uma mãe-de-santo arriando um despacho num limite qualquer de Taurinos. Sem falar que era quase como premiar os dois ao invés de punir a Polícia por abuso de autoridade. As criaturinhas noturnas então viriam e tomariam café comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renato passou o resto dia dormindo. Passamos o resto do dia procurando Miguel. Ne sombra dele, de nada, em lugar algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u disse a Andrés que se ele quisesse ficar, poderia. Os escoteiros se reuniam lá fora em torno de uma grande fogueira. E ele ficou. Quando se convida para comer, esses meninos de Taurinos são sempre cordatos e pontuais. Seis horas e o som dos cavalos começava a se ouvir. Depois de um ou dois minutos, estavam batendo a porta. Entraram reclamando dos escoteiros a quem chamavam bicho-grilos. Achei que eles estavam tendo uma enorme má vontade para com eles todos. Eles disseram que eram todos um bando de pavorosos bichos-grilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles ficaram comendo e olhando fixo para mim e para Andrés. Eu e Andrés ficamos comendo e olhando fixo para eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não fiquem olhando assim fixo pra gente a essas horas"&lt;/em&gt;, advertiu o ferreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, então parem de olhar fixo pra gente a qualquer hora"&lt;/em&gt;, devolveu Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O Andrés tinha que estar no café também? Por que está aqui de enxerido?"&lt;/em&gt;, reclamou Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Para sua informação, D. Stella me convidou especialmente para o evento"&lt;/em&gt;, esclareceu Andrés, olhos virados para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que bonitinho, convidou especialmente para o evento"&lt;/em&gt;, zombou Anderson, &lt;em&gt;"ela prometeu o café pra a gente, não pra você."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Prometi para os três que estão comigo agora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso não é justo, D. Stella, era a gente&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, começou Anderson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"&amp;hellip;que estava torturando o escoteiro? Sim, eram vocês."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não era isso que eu queria dizer, D. Stella"&lt;/em&gt;, ele ficou encabulado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas era o que você tinha que dizer. Me dá a impressão de que estou recompensando vocês por aquela cagada na noite passada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E por que é que vocês tinham que fazer essa merda toda com o Renato? O moleque é todo na dele, não faz mal a ninguém&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, questionou Andrés furioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não vim aqui pra isso"&lt;/em&gt;, Anderson se levantou. Eu disse a ele que ele sentasse e comesse. Disse isso com uma veemência que pareceu assustá-lo. O mais novo não se intimidou. Disse que Renato era folgado de querer dar lições de moral a eles no meio da rua. Eu disse que o escoteiro só estava dizendo uma coisa óbvia. Perguntei a ele se acharia engraçado passar mais uma temporada no Santuário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ninguém aqui ficou rindo da situação de vocês, nem quem te deixou trancado lá no Santuário. Acha que isso é motivo pra rir? Ou se o Anderson sumisse, você todo preocupado e a gente rindo da tua cara?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa quase eterna. Os dois continuaram comendo normalmente (é claro que emburrados), quem diria. Eu já sabia que ia dar essa merda, sempre dava essa merda, mas quer saber? De vez em quando eu ligava em modo foda-se e foda-se. Eles acabaram de comer e iriam embora em silêncio se Renan e Anderson não me pedissem para falar com o escoteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Avisem o carinha que é bom ele respeitar quem ele não conhece."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ninguém desrespeitou você não, cara"&lt;/em&gt;, Andrés olhou para Renan e sacudiu a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles não disseram mais uma palavra e sairam para a ronda noturna. Fiquei lavando a louça do café e Andrés ficou me fitando na cozinha. Parecia ver em mim uma alma de outro mundo ou coisa assim. Não sei se a oferenda deu certo. Os umbandistas vivem no plano físico, as entidades em Aruanda e eles sempre sabem se a oferenda deu certo. Eu moro no mesmo plano que as entidades e saber se alguma coisa deu certo é sempre um problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-2607115798761075736?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/2607115798761075736/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/oferenda-temporaria.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2607115798761075736'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2607115798761075736'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/oferenda-temporaria.html' title='Oferenda temporária'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7346363070551605010</id><published>2009-08-12T02:38:00.009-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.455-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Cabritos</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;O&lt;/span&gt;s escoteiros do grupo de Varginha estavam reunidos em conselho em frente ao alpendre. Eram oito horas da manhã. Ouvia o vozerio, mas tentava adivinhar o que diziam através da janela, enquanto tomava café. Com o passar do tempo e do café, descobri que falavam do líder deles, Miguel. Saí para o alpendre depois que o debate parecia ter cessado e, ao abrir a porta, Andrés quase usou meu nariz como aldrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ia mesmo chamar a senhora"&lt;/em&gt;, ele disse, sorrindo sem-graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Deu pra notar. Vocês estavam falando sobre o Miguel? O que aconteceu com ele?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele sumiu. Ninguém sabe onde ele está, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno se chegou, mas nada acrescentou ao que Andrés já tinha dito. Os dois estavam preocupados. Eu estava preocupada. Nenhum dos escoteiros do grupo tinha visto Miguel ao acordar. Renato se juntou a nós e disse que tinha visto alguém conversando com Miguel na noite passada e que esta foi a última vez que o viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você tem como dizer quem era? Conhece daqui da cidade?"&lt;/em&gt;, perguntou Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É ele vindo ali. O homem que eu vi com o Miguel"&lt;/em&gt;, respondeu o escoteiro com segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhamos na direção e era "sêo" Danilo vindo até nós. Perguntamos a ele se tinha visto o líder da tropa, mas ele não pareceu entender do que é que se estava falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas eu vi o senhor conversando com ele ontem à noite"&lt;/em&gt;, asseverou o menino, nos deixando confusos. Ele parecia ter certeza absoluta do que dizia, o que só aumentou a confusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O mocinho deve ter visto alguém parecido, não conversei com o líder deles em momento nenhum ontem"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo garantiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Juro pela minha honra"&lt;/em&gt;, o menino disse, &lt;em&gt;"não fiz confusão não, era o senhor mesmo"&lt;/em&gt;, ele parecia apavorado só de pensar que poderíamos achá-lo mentiroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A confusão só fez aumentar. O menino provavelmente não acreditava no velho sertanejo, mas não ousava discutir, o que implicaria chamar "sêo" Danilo de mentiroso. Andrés e Bruno olhavam para os dois e para mim alternadamente sem nada entender. Eu disse que ficaríamos ali o dia inteiro discutindo e não chegaríamos a parte alguma. Que precisávamos mesmo era sair à procura do líder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E viramos a cidade de ponta cabeça. Nada. Perguntamos à Polícia Obscura se o viu. Eles riram muito com o episódio, mas procuraram ficar atentos. Não via graça nenhuma num desaparecimento de uma pessoa em Taurinos, mas procurei não criticar os dois e correr o risco de uma nova ondinha de ódio dos dois policiais. A última coisa que eu queria era os dois monstrinhos minúsculos podendo ajudar e não ajudando. Mas Renato não parecia pensar da mesma maneira. Pudera, não conhecia os dois como eu conhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É errado rir das dificuldades dos outros, vocês sabiam?"&lt;/em&gt;, declarou Renato olhando sério para Anderson e Renan, tomando justamente a posição que eu não queria tomar. Renan e Anderson franziram a testa na direção dele, vi Renan esticar o pescoço como sempre fazia quando muito irritado e eles teriam crescido para cima do escoteiro se eu não tivesse segurado os dois. Renato se preparava para se defender e defender seu ponto de vista, quando eu consegui miraculosamente fazer murchar a tentativa de briga. Os dois ficaram mirando o escoteiro, extremamente irritados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;T&lt;/span&gt;ive de perguntar ao sertanejo se ele tinha escondido algo que não poderia falar naquele momento. Disse que não duvidava dele, mas que o menino tinha sido tão categórico ao dizer que se tratava dele, "sêo" Danilo, que a ideia me ocorreu. "Sêo" Danilo negou que tivesse mentido ou omitido o que quer que fosse. Não tinha motivos para isso, ele disse. Eu acreditava no sertanejo, mas fiquei absorta como ele, procurando entender o que se passava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor não tem um desses&amp;hellip; aspectos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu. Disse que não tinha nenhum aspecto além daquele que eu conhecia. Quanto mais eu pensava naquilo, mais confusa eu ficava. Ele também não era lá de muita ajuda naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;À&lt;/span&gt; noite, silêncio por toda parte. Deviam ser umas onze e meia. Perdi o sono após passar o dia procurando o líder dos escoteiros do grupo de Andrés e Bruno que desapareceu misteriosamente do acampamento. E eu que pensei que a internet me distrairia e me daria sono outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui para o alpendre, mas deixei apagada a luz para evitar que as mariposas e outras criaturinhas noturnas encostassem na parede do alpendre atraídas pela luz. Me sentei na cadeira de balanço, bem Dona Benta. A mistura interior, magia e provincianismo sempre me lembraria de Monteiro Lobato e seu eterno Sítio do Picapau Amarelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, a calma da noite não escondia que nem tudo era calma: a barraca de Renato se sacudia de maneira estranha, como se ele se espreguiçasse e não coubesse dentro da barraca ele mesmo. Corri o olhar pelas outras barracas e nenhuma se movia como a dele. Ao correr o olhar numa vista geral, dei com dois cavalos pretos amarrados num poste ao lado do portão de minha casa. Levantei da cadeira alarmada. Eles estavam aqui dentro. Corri para a barraca do escoteiro e abri o zíper de um único golpe. De dentro saíram dois cabritos pretos de olhos muito mais do que simplesmente maus, cuspindo fogo pela boca, uma das coisas mais bizarras, absurdas e apavorantes que já vi e o pobre escoteiro encolhido no fundo da barraca, olhos parecendo pires, olhando para mim. Olhei para o portão de minha casa e não havia mais cavalo nenhum ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os cabritos estavam falando comigo&amp;hellip; A senhora não acredita, eu sei, mas os cabritos estavam falando comigo&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7346363070551605010?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7346363070551605010/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/cabritos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7346363070551605010'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7346363070551605010'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/cabritos.html' title='Cabritos'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-3311035316047833938</id><published>2009-08-11T03:18:00.007-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.455-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>A árvore da montanha</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;R&lt;/span&gt;enan e eu estávamos parados na frente da loja de ferragens do Anderson. Esperando o Anderson para que pudéssemos sair. Foi quando reconheci um dos escoteiros do grupo de Varginha nos cumprimentar com um sorriso luminoso, entrando na loja atrás de algo. Fiquei nervosa, fico nervosa agora sempre que vejo um escoteiro entrar numa loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo, Anderson saiu. Pergunto a eles por que têm de andar de preto nos cavalos pretos debaixo deste sol. Eles disseram que era para inspirar o pavor em qualquer criatura que se aventurasse a adentrar os domínios de Taurinos. Anderson mudou de assunto bruscamente e disse que o escoteiro estava comprando corda e que estava pedindo nota fiscal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Teu pai não pode dizer que o talonário dele não ficou pronto?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, até pode, mas se o moleque insistir ele vai dar, com certeza"&lt;/em&gt;, tornou o ferreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele dilema cruel. Entrar e arriscar a dar na vista tentando impedir que Alberto preenchesse uma nota fiscal. O menino foi embora aparentemente tranquilo e eu disse a mim mesma, &lt;em&gt;"que será que aconteceu que acabou resolvendo o problema?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson já ia entrar na loja, curioso, quando Alberto saiu e explicou ao filho que não tinha talonário. Nos disse que nenhum dos comerciantes que ele conhecia em Taurinos tinha talonário. Pensei: viver em Taurinos é viver na eterna informalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É mortal, ele?"&lt;/em&gt;, perguntou o lojista ao filho, curioso, vendo o escoteiro sumir na distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, pai. É mortal."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ais tarde, perguntei aos dois se eles me visitaram ontem. Eles disseram que eu sabia que sim. Que pelo menos devia saber, já que os dois falaram em colaborar parando o tempo para causar o mínimo de impacto. Eu disse que entendia os dois mas que, mesmo assim, encontrar a barraca imunda de sangue e vísceras ontem junto a todos os escoteiros e pior, junto ao chefe deles não foi o que eu chamaria exatamente de mínimo de impacto. Eles começaram a me criticar novamente, enfurecidos. E ficaram me criticando por todo o decorrer do dia. Já vi que a nova tática da Polícia Obscura é se defender atacando. E criticando. Sei que eu não tenho sido fácil com eles dois esses dias, mas eles também não têm sido nada fáceis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Agora, vamos parar com esse negócio de chupacabras"&lt;/em&gt;, Renan estava irritado, &lt;em&gt;"quem chamou a gente de chupacabras?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso nós inventamos para o chefe dos escoteiros. Vocês queriam que eu falasse da presença da Polícia Obscura na cidade? É pra ser obscura ou não é?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, eu e Anderson entendemos a desculpa, mas vamos parar por aí, tá? Já engoli a tal de Polícia Obscura"&lt;/em&gt;, ele disse, olhando para Anderson e fazendo-o ficar vermelho, &lt;em&gt;"agora, se começarem com esse negócio de chamar a gente de chupacabras, a gente vai virar essa cidade de pernas pro ar ou eu não me chamo Renan Augusto Giacomin Teixeira."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E eu não me chamo Anderson Nascimento Caldeira"&lt;/em&gt;, se apressou em ajuntar o ferreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;C&lt;/span&gt;omentei com "sêo" Danilo que os meninos detestaram a comparação com os chupacabras. Ele riu e achou natural. Mas concordou comigo que os chupacabras saíam perdendo feio na comparação com a Polícia Obscura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O mocinho mais novo deve ter ficado uma vara. Chamando de Polícia Obscura que já era bonito ele queria matar, imagina agora isso de chupacabras. Ia ser outra guerra no jeito daquela que quase aconteceu entre o Andrés, Renan, a senhora e o Jardineiro Celeste."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor acha?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, se vier o assunto, é desconversar rapidinho."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos escoteiros veio falar com a gente. Perguntou quem eram uns meninos de preto na cidade e eu disse que eram agentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Agentes da Polícia?"&lt;/em&gt;, o escoteiro perguntou, curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, eles só andam a cavalo pela cidade e avisam os adultos sobre algum problema que viram."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sei, são como batedores"&lt;/em&gt;, disse o menino, sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mais ou menos&amp;hellip; Bom, tem dias que eles são bem batedores, eu tenho de admitir."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez foi "sêo" Danilo quem teve de reprimir às pressas um ataque de riso. Nosso desespero é nosso combustível. Reconheci o escoteiro. Foi o que nós vimos na loja de ferragens do Anderson mais cedo hoje. Estávamos felizes com o desfecho do episódio das notas fiscais, mas agora eu suspeitava que aquele menino poderia denunciar ao chefe que não se emitia notas fiscais em Taurinos. Será que eu não estava meio paranoica com esse negócio das notas fiscais no final das contas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;ndrés vem aprendendo que a vida de prefeito não é fácil. Ainda mais quando ele tem que esconder o fato de cinco centenas de companheiros escoteiros. E teve que lidar com problemas de infraestrutura na própria fazenda Taurinos. Sua sorte é que o Departamento de Obras morava no quarto ao lado. Adriano criou uma complexa infraestrutura para o evento na fazenda Taurinos, onde estavam concentrados todos os grupos escoteiros presentes, menos o de Varginha. Só Adriano sabia como o complexo funcionava, mas não seria mais necessário depois do Jamboree de qualquer modo. Andrés disse estar trabalhando também para abrir mais espaço na fazenda Taurinos para que o grupo de Varginha pudesse se juntar aos demais acampados lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;O&lt;/span&gt; escoteiro das notas fiscais se chamava Renato. Acabamos fazendo amizade. E o Renato me disse que ele e os outros escoteiros do grupo estavam chateados pela distância que havia daqui até o Jamboree.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É lá que as coisas acontecem, D. Stella"&lt;/em&gt;, ele disse com os olhos brilhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontecem mesmo. Fiquei pensando em todos os quinhentos escoteiros em volta da fogueira cantando algo parecido com isso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"A árvore da montanha, ole-li aio. A árvore da montanha, ole-li aio. Esta árvore tinha um galho. Ó que galho, belo galho. Ai, ai, ai que amor de galho. E o galho da árvore. A árvore da montanha, ole-li aio. Este galho tinha um broto. Ó, que broto, belo broto. Ai, ai, ai que amor de broto. E o broto do galho. E o galho da árvore. A árvore da montanha, ole-li aio&amp;hellip; Este broto tinha uma folha. E esta folha tinha um ninho. E este ninho tinha um ovo. E este ovo tinha uma ave. E esta ave tinha uma pluma. E esta pluma tinha um índio. E este índio tinha um arco. E este arco tinha uma flecha. Esta flecha foi na árvore. Ó, que árvore, bela árvore. Ai, ai, ai que amor de árvore. E a árvore da montanha, ole-li-aio&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Árvore Da Montanha&lt;/b&gt;, canção escoteira, domínio público.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora mora aqui há muito tempo?"&lt;/em&gt;, ele perguntou, me acordando de meus delírios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Uns seis meses."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, então é recente"&lt;/em&gt;, disse o menino, sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recente. Uns quinze, dezesseis mil anos somente. Mas o que são quinze, dezesseis mil anos no tempo do planeta afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u perguntei a Andrés qual o motivo do grupo dele ter sido segregado aqui. Eu disse a ele que os escoteiros estavam descontentes com o fato de estarem isolados a mais de um quilômetro de onde tudo estava acontecendo realmente. Ele disse mais uma vez que estava trabalhando para abrir mais espaço na fazenda Taurinos para que o grupo de Varginha fosse para lá também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você quer me dizer então que houve espaço para todos os grupos escoteiros de Minas Gerais na sua fazenda menos para o seu próprio grupo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés não soube o que responder. Tentou desviar o assunto, perguntando se eu não me sentia à vontade com o grupo acampado em minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se a senhora não quiser mais, eu posso arranjar um outro lugar pra a gente ficar"&lt;/em&gt;, ele disse meio desapontado e sem jeito, olhando para o chão. Eu o peguei pelo queixo sem que ele esperasse e ergui a cabeça dele para que olhasse para mim através das lentes cheias da poeira do cerrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Andrés, não muda de conversa, você sabe muito bem que não é esse o motivo da minha pergunta. Podem ficar o quanto for preciso, não me importo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, então é isso mesmo, houve espaço para todos os grupos escoteiros na minha fazenda menos para o meu próprio grupo"&lt;/em&gt;, ele agora parecia ligeiramente irritado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei em silêncio. A explicação dele não era minimamente convincente mas honestamente eu mesma não tinha nem mesmo uma melhor. Do nada, de dentro da minha casa, o laptop começou a reinar e mandou uma música para reprodução no Winamp que em breve encheu a casa e o terreno todo, interrompendo o folguedo escoteiro aqui fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"Era uma manhã de abril, quando nos disseram que deveríamos ir. Quando eu olhei pra você, você sorriu pra mim. Como poderíamos dizer não? Com toda a diversão que se pode ter, viver os sonhos que sempre tivemos. Oh! As músicas que teremos pra cantar, quando finalmente tivermos retornado!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A Última Batalha De Aquiles (fragmento)&lt;/b&gt;, escrita por &lt;b&gt;Led Zeppelin&lt;/b&gt; em &lt;b&gt;Presence&lt;/b&gt;, 1976, Swan Song, Atlantic.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Entrei, para desligar o som e jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-3311035316047833938?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/3311035316047833938/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/arvore-da-montanha.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/3311035316047833938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/3311035316047833938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/arvore-da-montanha.html' title='A árvore da montanha'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7424068296979595878</id><published>2009-08-10T18:16:00.004-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.455-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Chupacabras</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;P&lt;/span&gt;atrulha Tamanduá. Foi a única coisa que eu consegui distinguir do som do grito lá fora, em meio ao sono que ainda prevalecia. Se o dia de ontem foi uma completa falta do que fazer em meio à chuva, o de hoje prometia. Desci e fui ver o que estava acontecendo. Abri a porta para encontrar dezenas de barracas de camping em volta da casa e um bando de meninos olhando para mim. Eu tinha esquecido pela segunda vez do evento e mais ainda, que tinha cedido meu terreno para os escoteiros acamparem. Eu fiquei olhando ainda tonta de sono enquanto os escoteiros ensaiavam me saudar com seu grito de guerra. Ouvi  o grito de guerra e valia por uns três ou quatro galos em torno da casa. O líder da tropa veio falar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Muito prazer. Meu nome é Miguel. Nós da Patrulha Tamanduá saudamos a senhora e todo o bom povo de Taurinos. Andrés nos falou muito sobre a senhora e sobre sua atuação na defesa da cidade&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aposto que ele só falou na manutenção e não na criação deste hospício. Eu sorri para o líder da patrulha e para os meninos e lhes dei bom dia. Eles responderam em uníssono. Me lembrei de como Sérgio Dias ou seu irmão disseram numa entrevista que os Mutantes se isolavam num sítio distante para compor músicas para discos novos e viver "como se todos fossem um só".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos a conversar e eles me ofereceram café. Eu recusei polidamente. Miguel me perguntou várias coisas da cidade. Eu disse a ele que ficasse bem atento aos conselhos de Andrés e de Bruno sobre onde não deveriam andar, certos trechos do entorno eram perigosos, procurei enfim dar-lhe uma análise geral da região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Parece uma região desafiadora para os meninos"&lt;/em&gt;, Miguel sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É uma região desafiadora para todo mundo"&lt;/em&gt;, e eu sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pareceu sério de repente. Para maior estranheza, perguntei a ele qual era a data de hoje. Ele disse que hoje era dia 24 de janeiro de 2011. Pensei: estamos arrumados. Sorri e perguntei por Andrés. Miguel disse que ele tinha ido com os outros da Patrulha atrás de água. Não demorou muito e Andrés estava de volta com os outros meninos. Eles nos saudaram e eu puxei Andrés um pouco de lado para conversar, sob o olhar estranho do líder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Andrés, estamos fudidos. O calendário deles, como o da Meire, está quase um ano e meio na nossa frente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Calma, D. Stella; tudo se ajeita"&lt;/em&gt;, respondeu o prefeito-escoteiro, olhando de soslaio para o líder que nos fitava todo o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como calma, rapaz? E se eles começarem a conversar sobre coisas da atualidade deles, que para nós é futuro ainda, e você não conseguir seguir as conversas? Já parou para pensar nisso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés olhou para o lado e era Bruno chegando. Os dois seriam meus hóspedes de terreno durante o Jamboree. Ele chegou perto, saudou o líder e encostou em nossa pequena roda. Repeti o que tinha dito ao Andrés. Ele pareceu preocupado. Perguntou o que fazer. Eu disse que ele deveria perguntar ao Andrés, que aparentemente tinha a solução na manga. Mas é claro que Andrés não tinha. Sugeri que visitássemos as casas comerciais da cidade e pedíssemos ao donos que retirassem os calendários de vista. A sugestão era tão absurda que foi aceita prontamente pelos dois. Andrés disse que falaria com os comerciantes da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E rezar pra que nenhum dos meninos peça nota fiscal."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora já tá querendo sacanear a gente"&lt;/em&gt;, Andrés estava calma e discretamente furioso. Bruno, como já era de hábito, não dizia nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu tô querendo sacanear vocês??? Enlouqueceu?? Você por um acaso parou pra pensar na metade dos problemas que poderiam acontecer quando tudo isso começou?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos interrompidos pela aproximação do líder dos escoteiros de Varginha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;o final da tarde apareceu "Sêo" Danilo. Amarrou seu cavalo lá fora e veio tomar café comigo. Veio saudando os escoteiros com seu ar bondoso de quem já vivenciou de tudo ou quase tudo. O olhar de quem entende as agruras e as alegrias (onde quer que andem) de viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olha, vai ter problemas nisso tudo que nós nem imaginávamos, "sêo" Danilo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei a ele sobre a data mencionado pelo líder de patrulha de Varginha e a conversa com Andrés e Bruno. Ele arregalou os olhos para mim e depois se quedou sério, pensativo. Como se ele medisse cuidadosamente as consequências que poderiam advir dali. Concordou com a idéia de tirar os calendários embora não achasse que seria à prova de furos. Concordou porque achava que qualquer coisa que se pudesse fazer era válida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tinha trazido um saco de pães de queijo fresquinhos. Me convidou para tomar um café dia desses em sua casa, ver a instalação de eletricidade, &lt;em&gt;"a senhora nem vai reconhecer a casa"&lt;/em&gt;, disse com um sorriso satisfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto tomávamos café, eu pensava justamente nisso. Mesmo. Quanto tempo fazia que eu não ia visitar "sêo" Danilo? Talvez desde minha passagem definitiva para cá. Para dizer a verdade, nem me lembrava mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas reflexões foram cortadas pelo som distante de cavalos. O som dos cavalos parou como se fosse um CD sendo pausado e voltou como se soltássemos a pausa, indo morrer na distância, agora na direção oposta. Estranhei isso e comentei com o velho sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Final de tarde, espero que a Polícia Obscura não dê muito trabalho"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo, suspirando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fazia cinco segundos depois que o som de sua voz tinha morrido, e ouvimos um alarido dos escoteiros lá fora. Pelo som das vozes e gritos de espanto, não parecia ser coisa boa. Eu e "sêo" Danilo nos entreolhamos e saímos correndo para ver o que acontecia. Encontramos os escoteiros em torno de uma das barracas, lanterna apontada para a cobertura da barraca ela mesma coberta&amp;hellip; com sangue e pedaços de vísceras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramos, em estado de choque. Não menos em  estado de choque estavam os escoteiros, Andrés e Bruno incluídos. O líder olhava para todos os lados, olhos arregalados e aturdido diante do que via. Eu e "sêo" Danilo, senão Andrés e Bruno também, tínhamos uma vaga noção do que tinha acontecido. A Polícia Obscura mais provavelmente parou o tempo, entrou no meu terreno, aniquilou um ou mais entrantes, se foi e fez o tempo voltar a correr novamente quando já ia longe. Foi isso o que nos fez sentir com uma pausa de CD naquele momento. Ajudei os escoteiros indicando a  lavanderia onde poderiam jogar um balde d'agua ou mais na barraca e deixei que eles mesmos, como bons cavalheiros, recolhessem as vísceras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava contando os segundos até que o líder da patrulha viesse comentar o evento. Despistamos o quanto foi possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pode ter sido um chupacabras"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo disse ingenuamente, o que quase me fez gargalhar na frente do líder da patrulha. Consegui a muito custo conter a gargalhada e o líder nos olhava de forma cada vez mais estranha enquanto tentava ser simpático, &lt;em&gt;"será que existem mesmo essas coisas como chupacabras?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, por aqui às vezes aparece"&lt;/em&gt;, garantiu "sêo" Danilo, quase me fazendo rir outra vez. Pensei que no caso eram dois chupacabrinhas, mas eram tão mais horríveis que eu cheguei a ter pena dos chupacabras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7424068296979595878?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7424068296979595878/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/chupacabras.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7424068296979595878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7424068296979595878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/chupacabras.html' title='Chupacabras'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-5448596395432012848</id><published>2009-08-09T02:38:00.008-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.455-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Chuva</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;H&lt;/span&gt;oje o céu amanheceu fechado. Uma chuva grossa como não se via há tempos por aqui começava a desabar. Chovia tão pouco em Taurinos que toda chuva aqui era vista como um fenômeno sobrenatural. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos eu, "sêo" Danilo e Andrés no alpendre. Olhando a chuva cair. Da última vez em que fiquei olhando a chuva cair, tinha sido num telheiro na fazenda Taurinos, quando os homens da fazenda saíam altas horas para cavar grandes buracos no chão. Nunca mais vou me esquecer daquela noite misteriosa e estranha, a que a chuva conferia uma aura de mistério a mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu pedi que o Jardineiro Celeste fizesse chover um pouco. Vai chover até o começo da noite"&lt;/em&gt;, assegurou Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Assim é fácil ser prefeito. Quando se tem amigos influentes"&lt;/em&gt;, brinquei com Andrés. Longe de se sentir encabulado, ele se saiu com uma risadinha matreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quando chegam os escoteiros, "sêo" Andrés?"&lt;/em&gt;, perguntou "sêo" Danilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Amanhã cedo"&lt;/em&gt;, e Andrés olhava fixamente a chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha até me esquecido dos escoteiros. Só o mais recente incidente com a Polícia Obscura foi suficiente para desviar minha atenção de todo o resto. Mas as coisas continuavam acontecendo em seu ritmo normal, eu não me dava conta disso facilmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falou no diabo, apareceu o rabo. A Polícia Obscura surgiu do nada. Pergunto se eles não tinham nada mais a fazer num domingo que sair na chuva atrás de entrantes. Os dois ficaram irritados, primeiro porque estavam completamente molhados e depois porque acharam que eu estava implicando com eles e ficaram me criticando uma boa parte do tempo. Depois começaram a criticar Andrés (que ficou em silêncio todo o tempo) e só "sêo" Danilo foi poupado de suas reclamações. Depois, ficaram quietinhos, se sentaram no alpendre conosco e ficaram olhando a chuva cair. A Polícia Obscura parecia apreciar a minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-5448596395432012848?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/5448596395432012848/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/chuva.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5448596395432012848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5448596395432012848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/chuva.html' title='Chuva'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-3491346876574270392</id><published>2009-08-08T08:23:00.005-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.455-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Prefeitura</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;ndrés reclamou de eu não ter ido hoje de manhã em sua posse como o novo prefeito de Taurinos. Eu disse que estava dormindo e não queria acordar cedo. Eu não iria à posse de qualquer maneira. Achei horrível a história da crucificação do prefeito e todas as circunstâncias que a envolveram. Ir à posse seria como comemorar o estado lamentável em que o ex-prefeito se encontra no meu entender. Mas eu disse que ele era bem-vindo e que tinha sido bom ele vir. Contei o incidente da noite anterior com o Kid Abelha e ele disse que tinha "visto" e "ouvido" tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, então você sabe o tranco que foi. A confusão. Ficou eu e "sêo" Danilo lá apagando o incêndio da Polícia Obscura. Os músicos desesperados sem saber o que estava acontecendo"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E no final o Anderson se tocou"&lt;/em&gt;, observou o novo prefeito de Taurinos (o diabrete ficou nos vigiando enquanto olhávamos o céu noturno), &lt;em&gt;"entendeu que podia ter matado três pessoas de verdade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E que não fossem, fossem projeções dos músicos verdadeiros, quem garante que eles não iriam levar chumbo aqui e aparecer mortos lá no Rio como aconteceu com os caras de Santos que vieram atrás de mim?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Diacho&amp;hellip; A gente precisa conversar com eles, D. Stella"&lt;/em&gt;, disse Andrés, parecendo alarmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Precisa sentar e conversar, eu sempre disse que isso tem de ter um limite. Se eu não estivesse lá com "sêo" Danilo, os três poderiam estar mortos a essa hora, Andrés. São três pessoas conhecidas pela mídia, não os ratos que vieram atrás de mim. Imagina se isso começa a atrair gente pra cá, que tiro no pé deles mesmos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me esforcei para fazer Andrés entender que tínhamos de convencer os dois policiais que atrair mais gente para cá com essas atitudes seria dobrar ou triplicar a carga de trabalho deles mesmos. Além de criar uma aura mística totalmente indesejável para a cidade, atraindo massas como no caso de São Thomé das Letras, cidade bem perto daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Desse jeito, daqui a pouco Taurinos entra na rota da Estrada Real."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Creio em Deus padre"&lt;/em&gt;, e Andrés persignou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;iscutimos o assunto da Polícia Obscura na Prefeitura. Presentes estavam o prefeito, o irmão mais velho do prefeito, todo o efetivo policial de Taurinos, eu e "sêo" Danilo. Os policiais me olharam com uma ponta de ódio. Para eles, eu estava me queixando da atuação deles em defesa da sociedade local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, vocês não tinham que fazer todo aquele estardalhaço"&lt;/em&gt;, asseverou o prefeito, apoiado de perto por "sêo" Danilo, &lt;em&gt;"se podem testar com sal grosso, de quanto sal grosso vocês precisam?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan estava de tromba mas respondeu que um grão de sal grosso era suficiente para testar qualquer entrante. Disse que o comportamento de um entrante era diferente do de uma pessoa comum e que o sal grosso só serviria para os casos de muita dúvida, porque a mera presença do sal grosso já denunciava o entrante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então por que todo o constrangimento com os músicos? Quero dizer, não deu pra notar pelo tal comportamento que eles eram pessoas de verdade?"&lt;/em&gt;, eu apertava os meganhas minúsculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan e Anderson ficaram em silêncio, seus olhos esporadicamente encontrando os meus e despedindo faíscas de ódio. &lt;em&gt;"Eu tenho um recado; um ódio interno guardado"&lt;/em&gt;, como um dia gravou Luiz Melodia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan ou Anderson, a D. Stella está fazendo uma pergunta"&lt;/em&gt;, lembrou Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente não é surdo, Sr. Prefeito de Taurinos"&lt;/em&gt;, disse Renan secamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então responde porque aí a gente vai ver que além de vocês não serem surdos também não são mudos"&lt;/em&gt;, eu pressionei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente vai testar nos casos que tiver dúvidas mesmo que sejam pequetiticas"&lt;/em&gt;, declarou Renan enfim, enquanto Anderson se dividia em olhar para nós e para o parceiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E olha, chegar com educação na casa dos outros. Já disse que não quero a Polícia a cavalo no meu terreno sem necessidade, apontando arma para as pessoas que estão comigo. Isso foi e é abuso de autoridade. Não houve a menor necessidade disso. Fui eu quem os levou para dentro, já sabia a confusão que iria ser quando vocês chegassem. Não estavam aqui para fazer mal a ninguém, apenas erraram o caminho."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente fala as coisas na esperança de que vá adiantar alguma coisa. Mera ilusão. Os policiais ainda assim me olhavam com uma ponta de ódio. Para eles, eu estava me queixando da atuação deles em defesa da sociedade de Taurinos mesmo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt; a Polícia Obscura foi me cercar em casa, no fim da reunião, numa espécie de lobby antirrepressivo. Era só o que me faltava, os pestinhas dos policiais pitbulls agora me enchendo o saco em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora, hein? Vai ficar de Corregedora agora, é?"&lt;/em&gt;, rosnou Renan de maneira afetiva (e efetiva).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E se ficar, qual é o problema?"&lt;/em&gt;, rosnei retribuindo a ele um pouco de sua doce ferocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que a senhora não disse isso tudo pra gente ontem? Por que teve que dedurar pro&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, em primeiro lugar, o Andrés "viu" e "ouviu" tudo. Conversei com ele e já imaginava que ele tinha "visto" aquilo acontecer, não dedurei ninguém. Em segundo lugar, eu estava querendo relaxar um pouco depois daquela bagunça e falar sobre ela na mesma hora só ia me deixar mais nervosa. E vou dizer mais: você é bem idiota se pensa que pode fazer alguma coisa nessa cidade que a cidade inteira não fique sabendo no dia seguinte."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan não disse nada, mas quase acabou fazendo beicinho. Me dava vontade de abraçar o menino e apertar muito aquela coisinha fofa quando ele ficava com aquela carinha linda emburrada. Mas às vezes não dava pra ser muito carinhosa com ele ou ele entendia tudo errado e como uma boa desculpa para aprontar outras. Então, não abracei, não apertei, mas fiquei discretamente curtindo a trombinha dele. Com aquela expressão, ele parecia mais como uma borboleta procurando comida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson veio também, mas ficou em silêncio. Me olhava mordido, mas não dizia nada. Eles jogavam usualmente o jogo do "você não sabe o tanto que eu ralo pra defender você". Eu sabia como era. Tinha horas que eu adivinhava o jogo, a intenção, o eterno conflito de interesses reinante na cidade. Tinha horas que nada fazia sentido, nem à luz do jogo, da intenção, ou do eterno conflito de interesses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-3491346876574270392?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/3491346876574270392/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/prefeitura.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/3491346876574270392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/3491346876574270392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/prefeitura.html' title='Prefeitura'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-5769176749558721743</id><published>2009-08-07T17:01:00.013-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.456-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Máquina pneumática</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;e volta de Varginha, onde eu, Duílio, Aparecida e "sêo" Danilo fomos visitar o prefeito de Taurinos. Senti muita pena do pobre homem. Ele não estava muito melhor do que o estado de choque sugerido por "sêo" Danilo. Os Conselheiros ficaram em choque eles mesmos ao ver através da vidraça as mãos e os pés do prefeito enfaixados. O prefeito, através de uma enfermeira, deixou uma carta de renúncia nas mãos de Duílio. Ele estava dormindo e a enfermeira disse que ele tinha deixado a carta com ela para que fosse entregue a qualquer cidadão de Taurinos que viesse vê-lo. Ele não retornaria mais ao cargo e só retornaria à cidade pelos motivos óbvios de sua residência em Taurinos. Bom, não era para menos. Eu não culparia a pobre criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O vice-prefeito vai ter que assumir a Prefeitura agora"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo quase à meia-voz para mim quando estávamos um pouco distantes dos Conselheiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E quem é o vice-prefeito?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Um ex-paciente seu aqui da cidade"&lt;/em&gt;, tornou o velho sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Meu bom Mitra&amp;hellip; Andrés???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O próprio. Tem conselho até no nome, "sá" Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Era só o que nos faltava."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas, "sá" Stella, o menino já era prefeito de Taurinos de fato e de direito. O prefeito ali não mandava nada. A senhora não lembra do tempo da Lei dos Touros? Era o gordinho no comando da cidade todo o tempo&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo, pelo amor de Mitra, tem um exército de adolescentes pra chegar na cidade e como é que o pirralho vai fazer pra ser prefeito de Taurinos e escoteiro ao mesmo tempo???"&lt;/em&gt;, e eu disse a "sêo" Danilo que iria ser uma gracinha ouvir Andrés dizer coisas a seu grupo como, &lt;em&gt;"desculpem, adoraria ajudar a montar a fogueira para hoje à noite, mas tenho que ir à Prefeitura despachar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho sertanejo coçou a cabeça. Claro, não tinha parado para pensar nisso. No meio-tempo, nem que o prefeito não tivesse renunciado, Taurinos ainda assim não teria um prefeito, com o homem destroçado no Hospital de Varginha. Andrés teria forçosamente de assumir o cargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas que chapa foi essa, incluindo uma criança?"&lt;/em&gt;, perguntei para subitamente me dar conta de minha própria ingenuidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas que chapa que nada, "sá" Stella; a senhora acha que aqui é como lá em Santos? O Andrés era o prefeito e sempre foi e botou o hominho lá pra ficar de fachada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me calava. Mesmo, que interessaria isso agora? "Sêo" Danilo tinha razão. Eu sabia de onde vinha ou parecia vir o comando da cidade. Apostava eu que nem mesmo o nome da família veio em vão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não veio mesmo, o nome tem que ver com a função que eles sempre tiveram na cidade"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo explicou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;o chegarmos à fazenda Taurinos, Duílio entregou a carta ao filho mais novo já no alpendre. Andrés pegou a carta sem entender, olhou para todos nós, limpou os óculos antes de abrir o envelope. Leu e um traço de desânimo foi se acentuando em seu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sou o prefeito de Taurinos agora"&lt;/em&gt;, ele disse sem muita convicção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pois é"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo, &lt;em&gt;"agora o leme está nas suas mãos, "sêo" Andrés. Use-o com sabedoria."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dei uma risada alta. O velho sertanejo e os Conselheiros me olharam aturdidos. Me desculpei e fui para casa, acompanhada por "sêo" Danilo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Desculpe, "sêo" Danilo, mas o senhor dizendo a ele para usar o leme com sabedoria foi engraçado. O senhor é um otimista incurável"&lt;/em&gt;, eu disse, assim que nos sentamos no alpendre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu tinha que dizer alguma coisa, sô, o menino parecia tão desanimado&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo sorriu encabulado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, eu entendo"&lt;/em&gt;, e eu ri de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;H&lt;/span&gt;ouve uma pausa enorme. Desliguei a luz do alpendre, onde as mariposas e outras criaturinhas noturnas já tinham começado a encostar na parede atraídas pela luz, lançando sombras estranhas sobre a superfície de tijolo. Ficamos contemplando o céu noturno. De um lado da estrada começou ao longe o som de cavalos se aproximando. Do outro lado da estrada começou ao longe o som de um carro se aproximando. Eu ia comentar sobre isso, sobre como os sons se sobrepunham no silêncio da noite, quando "sêo" Danilo me deteve com um gesto, se abaixou e aproximou o ouvido do chão, retirando-o logo em seguida com uma careta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"São eles?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os próprios. Ainda estão longe, mas já dá pra notar de quem se trata."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro que eu tinha ouvido vindo do lado oposto, o da saída da cidade, agora encostava no portão. Um homem desceu, me chamou e ficou esperando no portão. Acendi a luz do alpendre e fui atender junto a "sêo" Danilo que já demonstrava estar alarmado pela confluência de fatores à frente. Iluminado apenas pela luz do alpendre que deixamos lá atrás, ao chegar mais perto, o rosto dele me transmitiu uma certa sensação de familiaridade. Eu já tinha visto aquele homem antes. Mas onde? Onde? Tinha medo dessas situações quando os rostos e vozes me soavam familiares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Boa noite, senhora"&lt;/em&gt;, me disse o homem educadamente, &lt;em&gt;"a senhora saberia dizer se passamos muito do caminho de Varginha?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Uns duzentos quilômetros, eu diria. Eu não lhe conheço de algum lugar?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, eles estão vindo. Não vai dar tempo"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo estava apavorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Talvez. Nós temos uma banda e tocamos muito pelo sul de Minas. Estamos justamente indo para Varginha tocar esta noite"&lt;/em&gt;, o homem estranhou o comportamento de "sêo" Danilo e perguntou se estava tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, não está nada bem. Quantos vocês são no carro?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Três comigo, minha amiga que canta e que está dirigindo e meu amigo do saxofone está no banco de trás."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente, ao ouvir a palavra "saxofone", me lembrei quem eles eram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sua amiga se chama Paula e o seu amigo George? E seu nome é Bruno?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, então a senhora nos conhece"&lt;/em&gt;, ele parecia aliviado, &lt;em&gt;"pois é senhora, só queríamos a saída da cidade pra chegar em Varginha a tempo pro&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olha, Bruno, escuta com atenção; vocês não tem tempo pra achar a saída da cidade agora. Entra todo mundo pra minha casa já antes que esses cavalos cheguem aqui"&lt;/em&gt;, Paula já colocava a cabeça para fora da janela do motorista para entender o que se passava. Tirei os dois de dentro do carro e coloquei todos para dentro de casa às pressas, &lt;em&gt;"desculpa gente, agora não dá tempo nem pra explicar"&lt;/em&gt;. Apaguei a luz do alpendre e esperamos todos na sala em silêncio, os músicos sem nada entender e obviamente apavorados com a recepção na cidade de interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Chegaram, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, o velho sertanejo sussurrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cavalos se aproximavam do alpendre devagar. O ambiente se tornou pesado como capa de chumbo derretido. Os músicos começaram a sentir falta de ar. A aldrava bateu cinco vezes, como se fosse rachar a porta em dois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella! Abra em nome da Lei!"&lt;/em&gt;, a voz era aquela de trovão envolto em um som de tambores de gasolina descendo loucamente por uma escadaria sendo dinamitada; o que se seguiu lá fora foram risadinhas sinistras de um adolescente e de um pré-adolescente, &lt;em&gt;"legal a frase né, D. Stella, agora abre a porta, por favor. Tem um carro com placa do Rio de Janeiro parado aí na porta e eu tenho impressão de que eles estão aí com a senhora"&lt;/em&gt;, disse uma vozinha microscópica lá fora. Paula comentou assustada que nunca tinha ouvido uma voz daquela e muito menos uma transformação daquilo naquela vozinha que ouviu a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu vou abrir, mas peço um tempo"&lt;/em&gt;, eu disse, já nervosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente não tem a noite toda, D. Stella"&lt;/em&gt;, disse Anderson, do outro lado da porta. A atmosfera sinistra da Polícia tinha se suavizado, mas sem dúvida voltaria pior. Expliquei aos músicos que havia dois meninos do outro lado da porta que tinham vindo para matar os três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles matam qualquer pessoa na cidade sem autorização para estar aqui. Se eu não conseguir provar que vocês são vocês, não vai prestar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paula ficou nervosa, acusou o guitarrista do grupo de ter errado o caminho e levado o grupo todo no rebosteio. Pedi calma e disse que iria conversar com eles. "Sêo" Danilo tentava acalmar a cantora e os outros dois a seu modo. Abri a porta e os dois meninos olhavam para mim com as cabecinhas tortas, como cachorrinhos que não entendem o que se passa com você. Eles portavam um rifle com uma lanterna fortíssima acoplada cada um e não tinham vindo conversar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, D. Stella. Entrega os forasteiros e a gente cuida do resto."&lt;/em&gt;, Renan sorriu um sorriso luminoso, esticando o pescoço para tentar enxergar o que havia na sala escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan e Anderson, os três que estão aqui&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, uma mulher e dois homens. Nós sabemos. Estamos acompanhando eles desde que entraram em Taurinos. Vai, entrega logo os três, D. Stella"&lt;/em&gt;, esclareceu Anderson nos últimos estertores de sua boa vontade e paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olha, eles são de um grupo de músicos do Rio de Janeiro. Vieram tocar em Varginha e pegaram o caminho errado."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bem errado"&lt;/em&gt;, Renan respondeu, &lt;em&gt;"já passaram bem duzentos quilômetros de onde deviam estar. A senhora conhece eles, D. Stella?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Conheço. Eles três tem um grupo no Rio chamado &lt;a target="_blank" href="http://www.kidabelha.com.br/" title="Kid Abelha, trabalhando para você viver melhor."&gt;Kid Abelha&lt;/a&gt;, começaram nos anos oitenta&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois riram do nome do grupo e apenas Anderson parecia saber do que se estava falando. Ele parecia já ter ouvido falar do grupo, mesmo não sendo seu tipo de música favorita nem de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Diz para eles saírem. Um por um"&lt;/em&gt;, Renan e Anderson estavam apontando seus rifles para a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Meninos, não acho que seja necessário apontar&amp;hellip;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Meninos é a puta que te pariu. Não é assim que a senhora fala? Agora diz para eles saírem. Um por um."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A perspectiva era sombria. Ele usava meu discurso contra mim agora, o diabinho. Eu já me via assistindo impotente à mutilação, desmembramento e descarnamento ainda em vida do grupo &lt;a target="_blank" href="http://www.kidabelha.com.br/" title="Kid Abelha, trabalhando para você viver melhor."&gt;Kid Abelha&lt;/a&gt;, um grupo que compôs temas que marcaram vários momentos de minha vida. Eu tinha pressa e tanta coisa me interessava. Mas nada tanto assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro saiu o saxofonista, pálido como o inferno ao ver as duas criaturinhas de preto mirando sua cabeça com um rifle cada. Depois, a cantora e por fim o guitarrista, seguido de "sêo" Danilo. Todos devidamente mirados e iluminados pelos rifles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor pode por favor tirar os óculos escuros?"&lt;/em&gt;, pediu Renan ao saxofonista, confuso sobre o porque de uma pessoa usar óculos escuros à noite, &lt;em&gt;"assim é melhor, pelo menos não parece uma mosca."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Taurinos agora virou festa, é escoteiro, é músico chegando de toda a parte, onde é que a gente vai parar? Eu vi essa moça na Internet, conheço ela sim"&lt;/em&gt;, disse Anderson com a luz no rosto dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson perguntou quem tocava o que. Os músicos reponderam um tanto quanto embaraçados e o ferreiro pediu que eles tocassem uma música deles para provar quem eram. Os três fizeram menção de ir, mas Anderson segurou Paula pelo braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A moça fica. E por favor, não tentem dar uma de espertos e sair com o carro, a gente mata a moça aqui e vocês dois antes de vocês sonharem em chegar a Varginha."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se soltou de Anderson com um puxão, assustada e revoltada. O ferreiro se desculpou e os outros dois músicos trouxeram seus instrumentos depois do que pareceu uma eternidade. O guitarrista ainda quis afinar o violão e a cantora quase arrumou com o instrumento na cabeça dele. Depois, entre assustados e horrorizados com a situação, eles tocaram o que parecia ser isso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"Só tenho tempo pras manchetes no metrô. E o que acontece na novela alguém me conta no corredor. Escolho os filmes que eu não vejo no elevador pelas estrelas que eu encontro na crítica do leitor. Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim. Só me concentro em apostilas, coisa tão normal. Leio os roteiros de viagem enquanto rola o comercial. Conheço quase o mundo inteiro por cartão postal. Eu sei de quase tudo um pouco e quase tudo mal. Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim. Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Nada Tanto Assim&lt;/b&gt;, escrito por &lt;b&gt;&lt;a target="_blank" href="http://www.kidabelha.com.br/" title="Kid Abelha, trabalhando para você viver melhor."&gt;Kid Abelha&lt;/a&gt;&lt;/b&gt; em &lt;b&gt;Seu Espião&lt;/b&gt;, 1984, WEA&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Renan adorou a música. Vejo que Renan é atraído pelo pop carioca de algum modo, porque me lembro dele cantando um funk carioca no chuveiro em casa. Ele pediu outras e os músicos disseram que não poderiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olha senhor da polícia, seguinte: se vai matar, mata logo todo mundo. Porque se a gente chegar atrasado nesse show, o povo de Varginha é quem vai matar a gente e aí já adianta logo o negócio"&lt;/em&gt;, propôs o saxofonista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tudo bem, vocês podem ir embora"&lt;/em&gt;, autorizou Anderson, &lt;em&gt;"só têm que dar meia volta e descer duzentos quilômetros até chegar a Varginha que é a única coisa que vocês vão ver quando chegarem ao fim da estrada que desce. Só tem isso no caminho, então não tem como errar&amp;hellip; de novo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt; graças a Mitra, a Polícia Obscura encerrou sua ronda e por um triz não aniquilou os integrantes do &lt;a target="_blank" href="http://www.kidabelha.com.br/" title="Kid Abelha, trabalhando para você viver melhor."&gt;Kid Abelha&lt;/a&gt;, o que já estava de bom tamanho. Eu voltei a me sentar no alpendre com "sêo" Danilo e chamei os meninos para se sentarem junto conosco. Perguntei se Renan estava se sentindo melhor depois de agir tão mal comigo quanto eu agi com ele. O diabinho disse que sim. Anderson olhava para o céu estrelado e "sêo" Danilo seguiu seu olhar rumo ao infinito. Anderson olhou para todos depois e disse, &lt;em&gt;"meu bom Mitra, era gente de verdade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Do que você está falando, cara?"&lt;/em&gt;, perguntou Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os músicos, Renan. Podíamos ter matado eles."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso acontece, cara."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, Renan, porra; se a D. Stella não avisa a gente que eram músicos de verdade e estavam perdidos, a gente tinha chumbado eles no chão."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente podia testar com sal grosso. Mas você preferiu ouvir eles cantando&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei olhando para "sêo" Danilo. Eles podiam testar com sal grosso e não testavam? E pessoas de verdade poderiam estar correndo sério risco por aqui? Os músicos, se não fosse tomarem abrigo na minha casa, já estariam numa vala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a noite seguia. Indiquei a eles uma outra constelação, próxima ao Cruzeiro do Sul e que eu vinha lutando bastante para localizar: a Máquina Pneumática. Não era uma constelação muito atrativa ou descritiva, era mais como umas estrelas formando o que parecia ser um quadrado. Sempre me dispus a localizar essa constelação, eu disse, por causa do nome estapafúrdio. Renan me perguntou o porque do nome e eu disse que os astrônomos costumavam batizar essas descobertas com nomes de invenções de seu tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo diria depois em muitas ocasiões que a noite contemplando as estrelas ao meu lado e ao lado da Polícia Obscura foi uma das noites mais fascinantes e esquisitas de sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;img border="0" height="266" width="320" src="http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/TTZlzr25doI/AAAAAAAAAus/QZ6JUBD-xqo/s320/antlia.JPG" title="Máquina Pneumática" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-5769176749558721743?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/5769176749558721743/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/maquina-pneumatica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5769176749558721743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5769176749558721743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/maquina-pneumatica.html' title='Máquina pneumática'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/TTZlzr25doI/AAAAAAAAAus/QZ6JUBD-xqo/s72-c/antlia.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7988107550928872231</id><published>2009-08-06T03:10:00.011-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.456-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Drama da Paixão</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;B&lt;/span&gt;runo apareceu pela primeira vez em minha casa. Veio com Andrés. Digo primeira vez porque ele nunca veio aqui de fato, embora já tivesse estado em minha casa umas poucas vezes. Era a primeira vez que ele entrava na casa. Ele olhava o interior atentamente, sem nada dizer. Estava ressabiado, atento, estávamos ainda meio marcados pelas circunstâncias do Jardineiro Celeste, não bastasse ele sempre me ter trazido no olho desde o dia em que nos conhecemos. Ofereci café e os dois recusaram. Sentamos no sofá e eu perguntei a que devia a honra da visita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vocês formam uma dupla insólita. Não sonharia ver os dois sentados juntos no meu sofá há uns dez dias."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se entreolharam. Bruno sorriu, sem-graça. O sorriso de Andrés era tão descontraído quanto. Eles disseram que não tinham vindo conversar sobre isso. Eu disse que estava tão disposta a conversar sobre isso quanto eles, mas que tinha umas perguntas a fazer ao Bruno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que tanto silêncio?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno ficou em silêncio. Parecia piada, mas ele me respondeu com mais silêncio. &lt;em&gt;"Por que falar?"&lt;/em&gt;, ele disse enfim, depois de uma pausa gigantesca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não fui eu quem estragou a tentativa de comunicação entre o Jardineiro Celeste e a cidade? Era assim que você pretendia se comunicar com a cidade? Em silêncio?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Em silêncio, fiz mais pela cidade do que muita gente fez falando. Porque falar é falar, não é fazer, D. Stella. Nós chegamos à conclusão de que se a senhora tinha criado a situação, a senhora poderia remediar a própria situação que criou. E foi o que acabou acontecendo, não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E vocês chegaram à conclusão de que eu tinha criado a situação porque vocês chegaram à conclusão de que eu tinha criado a situação."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não entendi&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Em que vocês se basearam para chegar à conclusão de que eu tinha criado aquela ou qualquer outra situação em particular além de tudo o que eu já tinha criado?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno ficou em silêncio. Andrés ficou em silêncio. Eu fiquei em silêncio. Bruno acabou dizendo algo não muito diferente do que o pai de Anderson me disse ontem na praça. Que como Criadora de Taurinos eu era como Deus, princípio e fim. Dai nem uma folha de árvore cair de um galho que não fosse por minha vontade. Vontade, no entanto, que eu não conseguia controlar. Achei e fiz ver a ele que essa era uma explicação simplista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Dentro do que vocês todos têm tentado me convencer, vocês mesmos não passam de fantoches na minha mão."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se irritaram com o retrato, mas eu os desafiei a me dar uma explicação melhor. Eles ficaram em silêncio. Perguntei se eles achavam que tinham vontade própria ou se seguiam cegamente determinações minhas que nem mesmo eu sabia de onde vinham. Eles ficaram em silêncio. Era mesmo duro conversar com essas pestes desses moleques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella, na verdade a gente queria conversar sobre&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, começou Bruno, hesitante, &lt;em&gt;"&amp;hellip;a gente quer saber se a senhora pode hospedar nosso grupo escoteiro em volta de sua casa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse que sim. Que já que estava apoiando o evento, então não custava dar uma cota a mais de sacrifício para que tudo ao menos corresse em relativa paz. Mas eu tinha perguntas a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o prefeito?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que é que tem o prefeito?"&lt;/em&gt;, os dois perguntaram em impressionante sincronismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como assim, que é que tem o prefeito? O homem foi pregado numa cruz por conta de um acordo que ele não fez sozinho e que nada tinha a ver com ele pessoalmente. Está certo que o que os dois fizeram com ele vocês fazem uns aos outros mutuamente há quanto tempo? Mas é fácil enfiar o prefeito na bananosa e se fingir de mortos, não? Bom, o Andrés ainda estava aqui em Taurinos para tentar ajudar&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, eu ajuntei, fazendo Bruno ficar vermelho como uma pimenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mostrei a eles um prego que eu tinha recolhido da cruz quando Anderson liberou o prefeito. A ponta ainda manchada de sangue. Eles ficaram abismados com o tamanho. Bruno ficou zonzo olhando para o prego. Andrés tirou os óculos, aturdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Só pra vocês terem uma ideia do que rolou na praça. Os pregos foram feitos pelo Anderson, nosso grande ferreiro e futuro inventor da guilhotina. Bonito, não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois me olhavam aturdidos. Som de cavalo na porta de casa e era "sêo" Danilo. Ele entrou, cumprimentou a todos e disse que foi a Varginha ver o prefeito. O homem estava em estado de choque, segundo ele, resultado do estresse extremo de ser pendurado pelas mãos e pés numa cruz. O médico que o conhecia de outros carnavais o interrogou suavemente nos corredores, perguntando se em Taurinos existia alguma seita de fanáticos religiosos ou coisa do gênero. Os dois nos olhavam aturdidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente não imaginava que o Renan&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O problema é esse. Ninguém nunca imagina que o Renan."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo concordou com o que eu dizia. Disse que um evento desse tamanho tinha de necessariamente ter passado pelo Conselho para evitar esse tipo de problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo, eles convenceram, olha só, eles &lt;b&gt;convenceram&lt;/b&gt; o prefeito a fazer a cruz e provavelmente até mesmo pregar a si mesmo nela. O senhor não viu o tamanho dos pregos"&lt;/em&gt;, e eu mostrei o prego a ele, &lt;em&gt;"o senhor tem idéia do que eles podem ter feito com o desgraçado do homem durante toda a madrugada até que ele fosse parar na praça de manhã? Nem eu, mas boa coisa não foi. O Andrés mesmo, se eu não enfio ele no carro quando o Adriano passou pelo Zé, não sei se ele não iria encontrar o seu próprio destino na cruz&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que merda&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, Andrés resmungou, olhando de relance para um Bruno bem abatido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, senhores escoteiros? Qual foi a boa ação de ontem?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enviei uma onda de choque na direção do brio dos dois. Eu disse que eles sabiam que estavam lidando com uma Polícia selvagem e altamente especializada, além de intensa e aleatoriamente imprevisível (sem falar em escalafobética e insanamente horrenda). Que eles tinham de discutir o assunto com todos antes. Contei o que eles sabiam de tempos atrás quando Meire fez uma visita à cidade e quase foi queimada viva por Renan. Perguntei o que diriam os escoteiros se chegassem à praça e vissem a crucificação do prefeito da cidade. E o que responderíamos, diríamos que era apenas o Drama da Paixão temporão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E imaginem isso multiplicado por quinhentos"&lt;/em&gt;, ajuntou "sêo" Danilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vocês querem desencorajar a gente"&lt;/em&gt;, fungou Andrés enquanto Bruno olhava para os próprios tênis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se "sêo" Andrés e "sêo" Bruno querem ajuda, a gente pode ajudar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Me proponho a ajudar também, como "sêo" Danilo. Mas será que os escoteiros estão preparados para o que tem por aqui? Eu sei que o lema deles é &lt;acronym title="Be prepared, no original, transformado em Sempre alerta no Brasil."&gt;estar preparados&lt;/acronym&gt;, mas será que eles estão mesmo preparados para Taurinos? Como vamos conseguir esconder deles todas as coisas estranhas daqui? Podemos tentar, mas os riscos são altos, se vocês conhecem dez por cento do potencial da cidade para a bizarria."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se entreolharam. Eu disse a eles que se eles fossem em frente, ajudaríamos. Eu conversaria com a Polícia Obscura mais à noite e ver se conseguia deles o compromisso de cavalheiros de suavizar as rondas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;os Quatro Cavaleiros do Apocalipse só apareceram dois, Renan e Anderson. Eu estava terminando de fazer a janta, com a ajuda de "sêo" Danilo. Graças a Mitra, vieram à paisana, camisas de flanela simples para o frio da noite, se bem que vieram em seus cavalos pretos. Eles queriam sinalizar com isso que respeitavam minha decisão de não recebê-los dentro de casa de uniforme, mas que a visita era oficial da Polícia Obscura, não um mero encontro social com os cidadãos taurinenses Anderson Nascimento Caldeira e Renan Augusto Giacomin Teixeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles saudaram "sêo" Danilo e se sentaram no sofá. Eu disse que viessem à cozinha. Nos sentamos em torno da mesa e eu servi spaghetti à bolonhesa e almôndegas a eles. Renan perguntou se eu tinha Coca-Cola. Eu o fiz pegar uma na geladeira e encher quatro copos. Ele largou a garrafa em cima da pia destampada e o fiz tampar a garrafa novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que a senhora quer exatamente?"&lt;/em&gt;, perguntou Renan entre uma garfada e outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não deixar que os escoteiros percebam que esta cidade é um hospício."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Hahaha, e a senhora acha que vai depender da gente?"&lt;/em&gt;, o policial mais novo riu, divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Também. Vai depender de todo mundo. Vocês poderiam, digamos, "suavizar as rondas". Que acham?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expliquei que um testemunho de coisas exóticas na cidade da parte dos grupos escoteiros poderia reverter em propaganda para a cidade, atraindo mais e mais forasteiros, loucos para conhecer o mistério de Taurinos, assim como o que aconteceu tempos atrás na cidade vizinha de Varginha, com o mundialmente famoso caso do ET de Varginha. Os dois ficaram impressionados com minha eloquência e ao pensar nas consequências dessa imagem bizarra de Taurinos na mídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella, a gente pode ajudar, parar o tempo e capturar os entrantes sem os escoteiros verem, mas sempre pode acontecer um imprevisto"&lt;/em&gt;, explanou o policial mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E não tem essa de "suavizar rondas". Isto aqui é a Polícia Obscura, não uma dupla de ursinhos de pelúcia ou instrutores de origami"&lt;/em&gt;, ajuntou Renan, zangado com minha tentativa, &lt;em&gt;"distribuam uma cartilha de sobrevivência em Taurinos, sei lá, toque de recolher, mas não tem essa de "a Polícia suavizar rondas"!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Lógico, quem foi que falou em suavizar rondas afinal?"&lt;/em&gt;, eu deixava barato, já estava conseguindo o mundo em se tratando da Polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E não esqueça que eu fiquei chateado, bem chateado mesmo com a senhora quando eu chamei de mãe e a senhora&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, não é o momento pra amor filial agora. Estamos em visita oficial da Polícia Obscura, lembra?"&lt;/em&gt;, interrompeu Anderson, sorrindo amarelo para mim e me salvando pelo gongo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que idéia foi essa de crucificar o prefeito, meninos?"&lt;/em&gt;, perguntou "sêo" Danilo, encarando a dupla aterrorizante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se o prefeito tivesse vindo falar com a gente quando os bichos-grilos foram levar a ideia para ele, teria passado a bola pra gente e resolvíamos no Conselho com os dois bichos-grilos. Foi ele aprovar o evento sozinho, deu no que deu"&lt;/em&gt;, Renan respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi muito bom ver o prefeito estrebuchando naquela cruz"&lt;/em&gt;, ajuntou o ferreiro, que aparentava ter sido totalmente possuído pelo caráter sádico da instituição que representava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando bem, não me peguei eu mesma pensando no prefeito de Santos estrebuchando nervosamente numa cruz? Me vejo por vezes perdendo a sensibilidade como o Dr. Finnegann, da obra de Márcio de Souza, Mad Maria, médico irlandês a serviço da companhia Madeira-Mamoré Railway Co. que se torna insensível ao massacre de trabalhadores da ferrovia a ponto de matá-los ele mesmo no final das contas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Anderson disse que vocês convenceram o prefeito a fazer a cruz para ele mesmo. Como vocês fizeram isso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan sorriu aquele sorrisinho satânico minúsculo de ursinho e relanceou os olhos para Anderson, que sorria um sorrisinho parecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora quer mesmo saber?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, melhor não"&lt;/em&gt;, advertiu o sertanejo, suando frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ouve o "sêo" Danilo, D. Stella, ele é quem sabe das coisas"&lt;/em&gt;, tornou o pestinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu desisti de saber. Sabe-se lá o que ainda se pode saber numa noite como essa. Os meninos adoraram o spaghetti e as almondegas. E é claro, a Coca-Cola. Eu disse a Renan que ficasse. Ele é claro, aproveitou para comer mais. Quando ele terminou, eu disse a ele que estava com raiva dele pela atitude impensada. Por isso aquela explosão em frente ao Zé. Mas que eu não tinha deixado de notar que ele me chamou de mãe. Eu disse isso a ele porque eu não queria que ele se sentisse recusado. Era apenas uma atitude dele estava sendo recusada. Eu me perguntava porque até os momentos felizes na cidade tinham que vir revestidos por uma couraça de tensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então não estava me recusando? O que sou eu sem as minhas atitudes?"&lt;/em&gt;, e ele me encarou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que você seja a soma de suas atitudes é legítimo, como também é verdade que nem todas são boas. Algumas podem nem ser extremamente más, mas são impensadas. Escolher o prefeito como bode expiatório foi uma. Extremamente má, extremamente impensada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parou por um tempo, como quando estava pensativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7988107550928872231?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7988107550928872231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/drama-da-paixao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7988107550928872231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7988107550928872231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/drama-da-paixao.html' title='Drama da Paixão'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-1591689486763082900</id><published>2009-08-05T04:01:00.011-03:00</published><updated>2011-02-04T20:15:47.456-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jamboree'/><title type='text'>Crucificando</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;ndrés veio bater na minha porta. Eram nove da manhã, horário em que não costumo levantar. Geralmente sempre há um pestinha de plantão para me acordar às sete, mas hoje os pestinhas de plantão se atrasaram um pouco. Andrés entrou, um pouco agitado, e foi comigo à cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E quais as novidades?"&lt;/em&gt;, perguntei ainda sonada, acendendo o fogão para fazer café. O leitor do diário chegará lógica e paulatinamente à conclusão de que vivo de café e nada mais. Chegará à conclusão de que se morrer e for para o inferno, café será a única refeição que terá todos os dias. Mas isso é só porque adoro café e me dá prazer descrever os momentos em torno dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tá uma confusão dos diabos lá na cidade"&lt;/em&gt;, ele disse enquanto limpava seus óculos, um tanto quanto nervosamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Perguntei quais as &lt;b&gt;novidades&lt;/b&gt;, Andrés. Uma confusão dos diabos na cidade não é exatamente o que eu chamaria de novidade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu um quase riso amargo. Recolocou de volta os óculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Anderson e Renan pregaram o prefeito de Taurinos numa cruz na praça principal. Tão lá agora, a cidade toda em volta que nem formigueiro."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E onde eles arrumaram madeira?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou me olhando sem entender, me seguindo atento com os olhos atrás das lentes, &lt;em&gt;"mas eu estou lhe dizendo que Renan e Anderson pregaram o prefeito numa cruz e tudo que a senhora tem pra me perguntar é onde eles arrumaram madeira??? A senhora não acha estranho pregarem o prefeito numa cruz???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se você tivesse morado em Santos como eu, saberia muito bem o que é querer pregar o prefeito da cidade numa cruz."&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu observava a água começando a liberar suas primeira bolhas. Pensava no prefeito de Santos, devida e deliciosamente pregado numa belíssima cruz e isso me dava incomensurável prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"De mais a mais, o que exatamente você quer que eu faça? Uma imitação do Sílvio Santos ou do Luiz Inácio Lula da Silva? Malabarismo com ovos caipiras ou uma colcha de renda?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não entendi&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quero dizer que não vou sair daqui como uma louca varrida cada vez que um de vocês sete fizer alguma coisa bisonha. Andrés. Você sabe quantas coisas bisonhas vocês fazem por dia? E eu, não como, não bebo, não tomo banho, nada?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa gigantesca. A água ferveu no meio-tempo e o canto dos passarinhos lá fora me distraía do silêncio deixado por Andrés. Passei o café, observando calmamente a água descer, acrescentando mais água e dissolvendo os desfiladeiros que o pó de café molhado tinha formado. Tudo isso enquanto o prefeito da cidade continuava na vertical, pregado numa pavorosa cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés ficou em silêncio. Tomou café comigo e me fez prometer que iríamos à cidade assim que terminássemos. Eu já estava começando a ficar nervosa de antemão com ele e com a perspectiva desagradável de chegar à cidade e encontrar o prefeito da cidade pregado numa cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E,&lt;/span&gt; conforme o espetáculo prometido, lá estava o prefeito da cidade pregado na cruz. De longe, já víamos aquele burburinho em volta. E eu pensei na falta do que fazer dos locais, largando feijão no fogo para vir contemplar toda essa merda acontecendo na praça central. Nem sombra de Renan por perto. Daqui, já dava para ver que Anderson montava guarda na cruz e falava alto como um arauto para que todo o povo em volta ouvisse claramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que isso sirva de exemplo para todos aqueles que ousarem sonhar em firmar acordos para trazer gente de fora para Taurinos!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei num feudo, a visão fantasmagórica e medieval, um Gólgota medieval no centro da praça principal. Passando pela loja de ferragens, vimos Alberto contemplando passivamente o suplício. Não que eu apreciasse o prefeito, mas não queria acordar de manhã tendo que ir ao centro da cidade tentar dissuadir crianças de crucificar pessoas, ainda mais na praça central.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Alberto, você não vai intervir? Não é seu único filho ali na praça, todo de preto em cima do cavalo, parecendo um carrasco medieval e falando aquele monte de bosta medieval? Vai esperar inventarem a guilhotina e instalarem uma aqui na praça também?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não é a senhora mesma que cria isso? Pois então!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que quem cria isso são pais sempre se cagando de medo dos próprios filhos, isso sim! Mas isso mesmo viu, joga a culpa em Deus que fica mais fácil caminhar sem esse peso!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés ouviu a discussão, mas não disse nada. Alberto ouviu a imprecação, mas manteve a cara de bunda. Fomos abrindo caminho no meio da multidão que enxameava em torno da cruz até que não ficou mais ninguém na nossa frente a não ser Anderson. E a cruz onde o prefeito estertorava, é claro. Anderson nos viu emergir do bolo de gente ao redor e sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olha só, Andrés foi rapidinho buscar a D. Stella em casa. A senhora sabia que &lt;b&gt;ele&lt;/b&gt; deveria estar ali numa outra cruz junto com o prefeito? E o Bruno também!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para Andrés. Como um camaleão gordinho e minúsculo, ele adotou a linguagem corporal do disfarce pleno. Eu conhecia aquela linguagem como poucos em Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nossa Andrés, tem como você dar cinco minutos entre uma bosta e outra que você faz ou está difícil? Que é que você aprontou dessa vez? É Jardineiro Celeste, Polícia Obscura, não tem como você dar uma porra de uma pausa?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me voltei para Anderson. Ele ia recomeçar a cantilena do que isso sirva de exemplo para todos aqueles que ousarem sonhar em firmar acordos para trazer gente de fora para Taurinos quando eu o interrompi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bonita cruz, hein, Anderson? Adorei. Aposto que nem foi você que fez. Agora que eu já adorei a cruz, tem como tirar o desgraçado do prefeito daí?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson riu, &lt;em&gt;"a senhora sempre de bom-humor, hein, D. Stella? Apostou certo, nós "gentilmente convencemos" o prefeito a fazer a cruz para ele mesmo. Se o Renan autorizar eu tiro o prefeito do castigo. Mas tá recente ainda, os urubus nem começaram a sobrevoar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas que diabos o prefeito da cidade fez pra esse tratamento VIP?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele e o senhor Andrés Silva Conselheiro firmaram um acordo para trazer gente de fora para a cidade. São amiguinhos do Andrés e do Bruno que moram em toda essa região e um pouco mais além."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Desce o prefeito daí e a gente discute isso no Mithraeum, Anderson!"&lt;/em&gt;, insisti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já lhe disse, D. Stella, só o Renan pode autorizar tirar ele do castigo, foi ele quem colocou o prefeito aí."&lt;/em&gt; Anderson fechou o cenho, olhos fixos em Andrés, que não dizia uma só palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E onde se meteu o Renan numa hora dessas?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele foi comer uma coxinha lá no Zé e já volta."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pois eu vou trazer o Renan aqui nem que seja pelas orelhas pra acabar com essa nova loucura."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não recomendo tentar trazer o Renan aqui pelas orelhas. Não é com o Renan que está mexendo, é com a Polícia Obscura."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mesmo? Pois a Polícia Obscura está mexendo com o Conselho da Sociedade Antiga dos Taurinos. Ou vocês dois tiram ele daí ou eu vou convocar reunião e vai ser pra hoje"&lt;/em&gt;, disse e larguei o policial lá com cara de cu mal comido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Andrés fomos até o Zé, eu porque queria achar o Renan e por um fim naquela merda, ele provavelmente porque estava com medo de ser crucificado pelo Anderson nesse meio-tempo. Lá estava Renan, em sua costumeira mesa de fora, bebendo uma Coca-Cola 600ml e comendo o que provavelmente era a sua terceira coxinha enquanto o desgraçado do prefeito agonizava naquela cruz nefanda. Ele me viu e abriu um sorriso enorme que se desfez quando ele viu Andrés atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom dia, mãe!"&lt;/em&gt;, ele se dividiu entre tentar sorrir, fechar a cara ao ver Andrés e se espantar ao ver a minha cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom dia mãe é a puta que te pariu. Tira o prefeito de lá daquela cruz horrorosa e acaba com essa palhaçada, Renan!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas, D. Ste&amp;hellip; Ei, espera aí, a senhora não dá ordens na Polícia Obscura!"&lt;/em&gt;, ele ficou aturdido com a minha atitude e furioso com o que considerou ingerência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não, mas o Conselho da Sociedade Antiga dos Taurinos dá ordens na Polícia Obscura sim. Tira ele de lá ou eu levo os dois pra Conselho hoje!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan ficou ainda mais aturdido com a promessa, &lt;em&gt;"a senhora não ia levar a gente pra Conselho&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, e eu o interrompi rápido, &lt;em&gt;"ia levar não, &lt;b&gt;vou&lt;/b&gt; levar se não tirarem aquele homem de lá!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Esse aí do seu lado merecia uma cruz pra ele também! E o Bruno, que nem sei onde está!"&lt;/em&gt;, o policial minúsculo estava vermelhinho como um tomate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que cruz, cruz, mania de cruz! Não sei nem de onde vocês tiraram essa ideia agora!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do nada, Adriano apareceu descendo a rua, encostou o carro na guia ao nos ver; eu abri a porta e enfiei Andrés no carro para espanto total do irmão mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Leva o teu irmão daqui; a gente se vê mais tarde no Mithraeum. Vai, vai!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso mesmo, bonito mesmo vocês dando fuga pro culpado! A gente se acerta na reunião!"&lt;/em&gt;, Renan invectivava enquanto Adriano saía à toda com o irmão mais novo olhando apavorado pela janela de trás do carro e sob risco de crucificação imediata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pode ter certeza. A gente se acerta mesmo na reunião, garoto"&lt;/em&gt;, eu disse, &lt;em&gt;"agora, será que dá pra tirar o homem de lá ou a primeira reunião vai ter que ser sobre isso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;o chegar em casa, vi um cavaleiro se aproximando do meu portão. Era "sêo" Danilo. Provavelmente planejava ir à cidade, a julgar pela direção de que estava vindo. Ele ficou estarrecido ao saber da crucificação do prefeito, &lt;em&gt;"mas que loucura é essa, "sá" Stella, esses meninos não dão um minuto de sossego?!?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse a ele que o prefeito tinha ido parar no hospital em Varginha. Deve haver naquele hospital uma ala só para os pacientes vindos de Taurinos, a todo momento deve ir gente que se arromba por aqui. Disse a ele que da cidade mesmo liguei para os membros do Conselho que não avisei pessoalmente. Que tinha marcado com eles reunião de tarde no Mithraeum, às três horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ithraeum. Adriano é o Oficiante de hoje. E já iniciou os trabalhos pedindo silêncio. Andrés e Bruno se olhavam de quando em quando no mesmo fluxo enigmático de sempre, observados atentamente por Guilherme e Arthur. Renan e Anderson compareceram de preto e se sentaram juntos, fuzilando Andrés e Bruno com os olhos, entre frustrados e enfurecidos. Eu ia implicar com eles por comparecerem de preto, mas "sêo" Danilo me pediu que pegasse leve com os detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu vou passar a palavra aos policiais para que expliquem o que se passou na praça principal hoje"&lt;/em&gt;, determinou o Oficiante, &lt;em&gt;"o irmão Anderson fala ou o irmão Renan prefere falar?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan se ergueu e ia começar a falar, quando o Oficiante lhe disse que permanecesse sentado. Renan sentou-se de volta, contrariado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ficamos ontem sabendo que o prefeito, Bruno e Andrés firmaram um acordo pra trazer gente de fora para a cidade. Não sabemos ainda o que é, mas sabemos que é muita, muita gente, o que só piora o que eles fizeram. Por isso, eu e o Anderson decidimos pela crucificação sumária e imediata do prefeito para que servisse de exemplo de que ninguém está acima da lei em Taurinos. A Polícia já provou isso várias vezes. Se não fosse pela D. Stella, ele ia estar lá até agora."&lt;/em&gt;, e ele olhou para mim naquele misto de insatisfação, frustração e raiva que já algum tempo vinha caracterizando os meninos daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor vai continuar?"&lt;/em&gt;, perguntou o Oficiante, sentindo a pausa comprida demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É só por enquanto"&lt;/em&gt;, rosnou Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão Renan é chamado a moderar seu tom de voz ao se dirigir ao Oficiante ou qualquer outro membro do Conselho. Pergunto ao irmão Bruno onde ele estava no curso dos acontecimentos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Em Varginha, com o Arthur"&lt;/em&gt;, foi a resposta de um Bruno sério, circunspecto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão Andrés quer fazer alguma declaração?"&lt;/em&gt;, tornou o Oficiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés, mudo como um peixe desde a mesa do café, resolveu adquirir alma nova e falou pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quero declarar que nem eu nem o Bruno queremos gente de fora se fixando aqui na cidade. É um encontro do qual eu e o Bruno participamos, que ocorre de tempos em tempos em diferentes cidades. As pessoas vêm, se encontram e depois de alguns dias vão embora exatamente como vieram. Ninguém vai permanecer na cidade, eu posso garantir."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão Andrés ou o irmão Bruno pode nos dizer de que tipo de encontro se trata?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés olhou para o Bruno, como se receoso de dizer do que se tratava. Suspense. Olhei para "sêo" Danilo e ele parecia presa do mesmo sentimento de suspense geral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É&amp;hellip; É um&amp;hellip; Um jamboree."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não seria jabuti?"&lt;/em&gt;, perguntou Anderson ingenuamente, me lembrando o corretor de busca do Google e me fazendo rir. Imediatamente, todo o contingente da Polícia Obscura me fulminou com os olhos, bem ao modo dos meninos daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Silêncio!"&lt;/em&gt;, exigiu o Oficiante, &lt;em&gt;"o irmão Anderson fala somente quando for a sua vez. Peço também a colaboração de D. Stella para que a reunião não fique sendo interrompida a todo momento. Irmão Andrés, se puder esclarecer a este Conselho o que isso significa&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Um jamboree é uma reunião de escoteiros de um país (que são chamados também de Acampamentos Nacionais), de um continente ou do mundo todo. Um encontro de uma região menor como Minas Gerais geralmente não é chamado de Jamboree, mas resolvemos deixar o nome assim. Eu e o Bruno fazemos parte do Grupo Escoteiro de Varginha. Todos os GEs do estado foram convidados e confirmaram presença"&lt;/em&gt;, ele disse a última frase ressabiado, com medo da vigilância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa gigantesca. O espanto era geral. Até para eles, que vinham me contar coisas estarrecedoras com a maior naturalidade, como se já existissem há décadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você nunca disse que era escoteiro, irmão Andrés"&lt;/em&gt;, disse o Oficiante, confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O sr. Oficiante nunca perguntou"&lt;/em&gt;, Andrés respondeu, provocando risos gerais. Até o Oficiante e a Polícia Obscura tiveram de rir ao som do velho bordão de Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Agora eu entendo porque o Bruno se junta com o Andrés para ir para Varginha vez por semana"&lt;/em&gt;, ajuntou Arthur.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão Arthur precisa esperar que lhe seja dada voz. Por favor, senhores membros do Conselho, peço requererem voz antes de qualquer aparte ou contribuição a este debate, ou a reunião será anulada. Eu passo a palavra ao irmão Bruno para que ele explique como é o tal encontro."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno olhou para Andrés, a súbita cumplicidade dos dois, talvez súbita apenas para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É trabalhar juntos, cantar juntos, conhecer, explorar juntos. É trocar experiências que são valiosas para todos. Celebrar a natureza. Formar caráter. Muita gente junta aprendendo coisas novas e confirmando coisas antigas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson se inscreveu para falar, seguido de Renan. Olhei para "sêo" Danilo e "sêo" Danilo olhou para mim. O movimento dos dois foi acompanhado com mais interesse por Arthur e Guilherme do que por Andrés e Bruno. E é claro pelo próprio Oficiante que anotava as inscrições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que é tudo muito bonito, e tal, mas quantas pessoas você calcula que vão vir?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Oficiante passou a palavra ao Bruno, &lt;em&gt;"umas quinhentas pessoas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Confirmadas?"&lt;/em&gt;, perguntou o Oficiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, confirmadas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão tem consciência de que esse número representa um quarto da população de Taurinos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim"&lt;/em&gt;, Bruno olhou para Andrés, em suspense. Renan reergueu a mão e o Oficiante lembrou a ele que o tinha anotado na fila de voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão Renan quer falar, passo a ele a palavra."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão da agricultura celeste infinita pode dizer&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Irmão Renan, modere o sarcasmo e o desrespeito a um membro do Conselho. Evite a anulação da reunião."&lt;/em&gt;, o presente Oficiante dirigia uma das reuniões mais complicadas da história recente do Mithraeum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O irmão Bruno pode dizer a este Conselho como um grupo desse tamanho vai ficar na cidade sem causar confusão e impacto na sua natureza de que vocês tanto gostam?"&lt;/em&gt;, Renan olhou para o Oficiante, a ver se aprovava o novo tom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno também olhou para o Oficiante e respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Gostaria de lembrar ao irmão Renan que a natureza de Taurinos é a natureza de que &lt;b&gt;a gente&lt;/b&gt; tanto gosta. Estamos no mesmo barco, eu sei, mas a sua preocupação com a natureza de Taurinos para mim é coisa nova. Agora, respondendo a pergunta, os escoteiros têm propostas para conservar tanto a cidade quanto a natureza de Taurinos durante o evento. Coisa que alguns Agentes da lei na cidade não tem&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan ia levantar, enfurecido, quando o Oficiante sinalizou que não o fizesse, &lt;em&gt;"gostaria que o irmão Bruno limitasse sua fala à resposta da pergunta feita pelo irmão Renan."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno e Andrés então explicaram detalhadamente o plano de ação durante o encontro. Anderson ainda levantou a questão das patrulhas indo a lugares da cidade onde não deveriam, como o Santuário, a Ilha Basilisco e outros, e de como isso seria coordenado. Andrés e Bruno assumiram inteira responsabilidade por esse item, como de resto, por toda a organização do evento. O Conselho foi tendo cada vez menos perguntas, até que não restou mais nenhuma. A realização do evento foi votada, o que resultou em sua aprovação, seis votos contra dois. Não preciso explicar quem votou contra, preciso? Renan pediu direito a voz ao se ver derrotado e recebeu do Oficiante a permissão para falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quero dizer uma coisa, Andrés e Bruno: já pensaram se entrantes começam a se esconder junto às barracas e nós tivermos que ir até as barracas para caçar os danados à noite ou no fim do dia? Tragam os seus amiguinhos escoteiros se quiserem. Mas não quero ouvir reclamações quando as coisas começarem a ficar esquisitas. A Polícia vai atrás onde quer que estejam os forasteiros. Já pensou que bonitinho eu pegando um forasteiro no meio de uma fogueira de acampamento e trucidando ele na frente da molecada? Já viu, né? Boa sorte, irmãos de Conselho da Fraternidade Escoteira!"&lt;/em&gt;, e ele riu um risinho minúsculo e diabólico com um carinha fofinha e satânica ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-1591689486763082900?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/1591689486763082900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/crucificando.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/1591689486763082900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/1591689486763082900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/crucificando.html' title='Crucificando'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-6618002338053444640</id><published>2009-08-04T01:12:00.008-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.311-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Perséfone</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;onana apareceu em seu carro hoje de manhã. Encontrou café pronto, tudo na mesa mas recusou polidamente a refeição, dizendo já ter tomado seu desjejum. Fiquei tomando o café e detestando tomar café com alguém que não queria tomar café comigo. Imaginei que ela não tinha vindo exatamente para se sentar e recusar meu café da manhã. Ela não demorou muito para tomar a iniciativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan está lá em casa, tem estado tão triste esses dias."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que?"&lt;/em&gt;, eu estava sendo bem joão-sem-braço, me fazendo de desentendida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele veio aqui ontem, não foi? E vocês conversaram a respeito dele."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Donana, não é segredo nenhum na cidade que eu me apeguei muito ao menino nesse mês e tanto que ele ficou em minha casa. Acho que foi comentado até na minha festa de aniversário de corpo ausente, não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou em silêncio. Disse que desde que o menino voltou para casa, vinha se sentindo triste por ele e por tudo. Eu deixei fluir meu lado psicóloga e tentei motivar a pobre mulher. Mas não deixei de falar nas reflexões que eu tive no dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Para com isso, você tem um marido que cuida de vocês todos, tem dois filhos lindos, saudáveis; conte suas bençãos, não seus problemas. Dê força aos problemas e eles terão força. Você tem tudo nas mãos, mulher. Não desperdice isso, não deixe que isso escape de você!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu estou triste por isso ter acontecido. Meu marido agiu numa hora de raiva e expulsou o menino, eu também estava chocada pelo que aconteceu, aquela gritaria dele no meio da rua com o Anderson. Ele só encontrou abrigo na sua casa. A senhora cuidou dele como eu faria, natural que desenvolvesse os mesmos sentimentos. Eu estou triste, muito triste mesmo por isso ter acontecido. Eu sinto muito, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Donana, mesmo numa cidade como Taurinos, você sabe o que é fazer um menino de dez anos errar por uma cidade em busca de abrigo? Vocês iam mesmo deixar o Renan sem um teto sabendo que, errado o quanto ele possa ter sido, ele ainda assim é um dos dois filhos de vocês?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava chorando; não havia som, só lágrimas. Eu tinha pena de Donana. Dela, do menino e de mim mesma, sem essa de autocomiseração, mas me escalavrei bastante nessa história. O processo deixou marcas fundas nela também, eu via agora. Também mais uma vítima da sociedade machista predominante em Taurinos, sem opor ou se impor de maneira que pudesse ter evitado toda essa situação. O menino terminou dividido entre duas figuras maternas, o que foi mais uma das sequelas do malfadado episódio. Eu despertei a mãe que havia em mim para depois atirar nela à queima-roupa no dia da despedida. Eu já me via na iminência de passar a eternidade ressuscitando essa mãe para logo depois poder atirar nela à queima-roupa outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;G&lt;/span&gt;uilherme apareceu à tarde. Quando eu esperava que ele começasse um sermão sobre os presentes de aniversário que não abri, ele se sentou no alpendre comigo e ficou um tempo em silêncio. Depois olhou fixo para mim e perguntou a única coisa que conseguiu perguntar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Do que é que você está falando, Guilherme?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que todo esse negócio da minha família e da senhora com o Renan? Por que todo mundo só cuida do Renan? E eu? Não conto?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É lógico que conta. E muito. Mas o seu irmão passou por situações bem difíceis, Guilherme. A atitude dos teus pais de mandar seu irmão embora de casa fez com que ele caísse aqui. Eu não iria deixar seu irmão na rua. Me apeguei a ele e isso acabou dando problema, como tudo mais em Taurinos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora com certeza acha correto o que ele fez naquele dia"&lt;/em&gt;, o irmão mais velho me olhava com olhos fundos de censura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não ia ser a juíza de seu irmão. Só vi ali alguém que precisava de um teto. Ele estava desesperado naqueles dias; tudo o que ele tinha planejado foi por água abaixo quando Anderson se recusou a continuar como amigo dele. Na época não sabíamos que o Anderson não estava no normal dele desde o dia do ritual da Polícia Obscura. Seu irmão não tinha como entender o porque da reação do Anderson e se desesperou. Não acho certo o que ele fez, mas acho que foi algo que ele sentiu no momento e que não deixou Renan pensar claramente numa solução melhor. Se me perguntar, é isso o que eu acho."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, depois de uma pausa, eu disse a ele, &lt;em&gt;"não acredito que você esteja com ciúme de seu irmão mais novo, Guilherme."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou emburrado depois me olhou desafiador como um galinho garnisé, &lt;em&gt;"e se estiver? Qual o problema? Nem o meu presente a senhora quis!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Guilherme, tanto a caixa do seu presente quanto a do Bruno estavam vazias."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Estavam vazias porque a senhora recusou o jardim! Recusou tudo! Se o Renan tivesse dado o presente ia ser a maior felicidade, né??? Vê o presente que ele te deu, muito pior que uma caixa vazia!"&lt;/em&gt;, ele gritou, no auge da excitação nervosa, socando o braço da cadeira, enfurecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que tinha então dentro da caixa?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Agora não interessa mais!"&lt;/em&gt;, ele me fitou furioso e começou a chorar, &lt;em&gt;"fiquei horas e horas em Varginha escolhendo a merda do presente, pra que, porra?"&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um Guilherme ciumento, que amorzinho. Mas eu estava triste por ele e por tudo o que aconteceu. Ele tinha razão. Que diferença isso faria agora? De qualquer modo, as circunstâncias em torno dos eventos nesses vinte dias acabaram falando mais alto. Tentei tocar o ombro dele e ele o retirou num puxão raivoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não encosta. Nem chega perto."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não estava em mim. Estava furiosa, Guilherme. Quando Arthur me disse que as sementes&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"As sementes que os passarinhos puseram em volta da sua casa eram as sementes daquele jardim que a senhora viu e que eu nem cheguei a ver! A gente nunca que ia derrubar a sua casa! Não é que a gente não pudesse, mas a gente nunca que ia fazer isso com a senhora! A senhora acha que a gente ia derrubar a minha casa porque o meu irmão levou a senhora no Santuário!? A casa do Adriano, que estava apoiando a gente???"&lt;/em&gt;, e ele enterrou a cabeça entre os braços cruzados exatamente como Arthur tinha ficado no dia em que recusei o jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas eu apoiei vocês. Apoiei o Jardineiro Celeste. Se eu soubesse para onde estava indo e o que aquilo significa para a cidade jamais teria entrado. Fui a primeira a cobrar de Andrés e do teu irmão essa palhaçada. Se não acredita em mim, pergunte a eles. Só fui entender que eu tinha entrado em uma reserva biológica quando conversei com Anderson e "sêo" Danilo no churrasco lá nos Conselheiros já tem quase um mês. Foi então que eu conversei com os dois aqui em casa. Você acha que eu iria saber se o que vocês estavam dizendo era verdade ou não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorou, mas eu o ergui da cadeira e o levei para dentro. Ofereci café. Ele aceitou e nos sentamos na mesa. Mudei ligeiramente de assunto e perguntei o que significava Arthur aparecer aqui com um lenço branco nas mãos. Só para ter uma segunda versão da tradição já que já tinha conversado sobre isso com "sêo" Danilo. Guilherme olhou para mim e foi essa a única vez que a curiosidade dentro dele falou mais alto que a raiva que ele sentia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele estava avisando que não vinha brigar. Ele veio, é?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eh, Arthur&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, e ele sorriu um sorrisinho minúsculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele descontraiu um pouco, notei. Mas isso não solucionava problemas, apenas os afastava momentaneamente. Era claro que nunca iria apagar a desfeita que fiz ao recusar aquilo tudo. Não adiantaria muito perguntar a eles se ter o jardim em minha casa os faria feliz. Provavelmente colocar o jardim aqui era importante naquele momento, mas agora não fazia mais qualquer diferença. Juntando com a história toda de Renan, fácil entender que ele se julgasse preterido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que o Arthur disse é que eu crio essas situações, como essa briga eterna do Jardineiro Celeste com o Andrés&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E se não é a senhora, quem mais?"&lt;/em&gt;, Guilherme me colocava contra a parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu disse a eles que talvez eu tivesse "apenas" posto a roda para girar, foi exatamente o que eu disse, com essas palavras."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa enorme. O que ele poderia me dizer? O que qualquer um poderia aventar a não ser crenças? &lt;em&gt;"Eu acredito que seja a senhora."&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;"Eu acredito que não seja eu."&lt;/em&gt; Muito embora "sêo" Danilo me dissesse e reiterasse que não há crenças em Taurinos, essas eram algumas delas. A crença de que sabíamos o que vinha provocando todos os eventos desde o início. A crença de que era isso ou aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mesmo que seja eu quem esteja criando isso, não estou criando necessariamente para o meu prazer, tenho que dizer, Guilherme. Tem meses desde que cheguei aqui que não paro, é um incêndio atrás do outro e eu correndo de lá pra cá para apagar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não teve nenhum incêndio aqui desde que a senhora chegou"&lt;/em&gt;, ele rebateu ingenuamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É um modo de falar, não? Parece que esta cidade está todo dia sempre a um segundo de se destruir."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora criou o Jardineiro Celeste pra proteger a natureza de Taurinos contra a senhora mesma e as pessoas de fora. Como criou a Polícia Obscura pra proteger Taurinos dos forasteiros. Isso é o que eu sei. Mais que isso, não sei."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei saber mais detalhes sobre o Jardineiro Celeste daquela fonte confiável, mas a fonte confiável estava meio emburrada e não disse mais nada até ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;À&lt;/span&gt; noite, o clã Teixeira inteiro apareceu. Vinham conversar comigo sobre Renan. Sem maiores detalhes, porque já não aguento mais escrever sobre isso, mas até o patriarca do clã Teixeira chorou e houve um &lt;i&gt;mea culpa&lt;/i&gt; coletivo, desses que não resolvem mas também não enganam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos problemas era que Renan tinha tido duas mães e gostado da experiência. O outro problema é que Guilherme estava com ciúmes do irmão e iria aonde ele fosse. Se Renan queria ter duas mães, ele queria também. "Sêo" Octávio e Donana não conseguiam acreditar no que estava acontecendo. Para sossegar a dupla, tivemos que combinar que os dois viriam para cá em 1º de janeiro e iriam para lá em 1º de julho, como se fossem Perséfone, passando seis meses no Olimpo e seis no inferno. Mas onde é o Olimpo e onde é o inferno?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;ão deviam ser ainda nove horas da noite quando "sêo" Danilo apareceu. Faziam quinze minutos que o clã dos Teixeira tinha deixado minha casa. Contei a ele sobre o dia e ele se admirou do que aconteceu, embora não se espantasse muito com a solução a que chegamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, o músico e o policial, já leva tudo num pacote só, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, depois ele pareceu arrependido de ter dito isso, embora eu não tivesse me importado e até achado graça no atual estado das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós encerrávamos ali o assunto com o Jardineiro Celeste, pelo menos este assunto. Não saiu a contento para nenhum dos lados, mas o que não tem remédio, remediado está. Agora, a certeza dos pequenos guardiães da natureza local e suas investidas agressivas contra aqueles que representam ameaça aos recursos naturais locais. Um conflito fantástico entre a natureza e o progresso que posso ter criado eu mesma não faz vinte dias. Como o tempo me leva aqui é que eu não sei. Talvez seja, como disse "sêo" Danilo uma vez, que eu dou demasiado valor ao tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-6618002338053444640?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/6618002338053444640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/persefone.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6618002338053444640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6618002338053444640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/persefone.html' title='Perséfone'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-6412170374238621539</id><published>2009-08-03T19:25:00.008-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.312-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Ano zero</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;S&lt;/span&gt;entada no alpendre de tarde. Numa cadeira de balanço e com o laptop ao lado, olhando o saibro em volta de casa. Pensando novamente em Renan. Pensava que aos poucos me acostumaria à solidão. Pensava que já tinha me acostumado a ela. Mas a solidão é companheira teimosa, insiste em ficar do lado por vezes mesmo quando no meio de uma festa, de uma celebração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes em meio a uma roda de amigos eu me sentia presa da mesma solidão que sinto hoje. Ficava pensando comigo se os meus amigos se sentiam ou se já tinham se sentido assim alguma vez na vida. Não a solidão da falta de companhia, mas a da falta de identidade com aqueles mesmos amigos, pelo menos naquele momento. Ou quando estava com minhas amigas que tinham filhos e quando elas conversavam sobre as peraltices ou as coisas engraçadas que eles faziam, quando contavam vantagem sobre a inteligência, esperteza dos filhos, tudo aquilo. Não importava o quanto de trabalho eles dessem, havia sempre nelas e em suas narrações o prazer de serem mães, mesmo que apenas levemente perceptível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu achava essas coisas maravilhosas e me sentia feliz por elas, eu não conseguia ao mesmo tempo deixar de nutrir um sentimento reverso. Que não era a inveja, embora não fosse de estranhar se ela ocorresse também. Era a solidão, de me ver só numa situação em que meu trabalho e minhas condições físicas jamais me permitiriam filhos, naturais ou adotivos. Eu jamais exporia meus filhos a coisas como as que passei em Santos e São Vicente e ainda passo em Taurinos. Abri o Winamp em meu laptop e deixei tocar aleatoriamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"A solidão é fera, a solidão devora. É amiga das horas, prima-irmã do tempo, E faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração. A solidão dos astros&amp;hellip; A solidão da lua&amp;hellip; A solidão da noite&amp;hellip; A solidão da rua&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Solidão&lt;/b&gt;, escrita por &lt;b&gt;Alceu Valença&lt;/b&gt; em &lt;b&gt;Mágico&lt;/b&gt;, 1984, Barclay/Polygram.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Nem um pouco aleatório pela situação em que me encontro. Passei a música para a frente, como Renan um dia me pediu para tirar uma música de Macy Gray e como minha mãe um dia me pediu para tirar uma música de Baden-Powell.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"Não consigo aguentar mais uma noite solitária assim. Não aguento."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Noite Solitária&lt;/b&gt;, gravada por &lt;b&gt;Hopeton Lindo&lt;/b&gt; em &lt;b&gt;The Word&lt;/b&gt;, 1991, Greensleeves.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A seleção continuou não muito aleatória. Tem dias que nem a música nos traz conforto nesse inferno. Fechei o Winamp e sosseguei. Olhando tudo. Me lembrando da insanidade dos últimos dias. E de como Renan me fazia falta. Quando eu pensava que já tinha me acostumado à solidão, eis que Renan apareceu para me provar que eu poderia viver de outro modo, não mais sozinha como antes. Como o filho que nunca tive, ele me mostrou isso claramente. E se foi, quando eu achava que eu tinha encontrado o caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um som de cavalo ao longe. Quando cavalos passam ao longe e seu som se faz ouvir nitidamente aqui, quer dizer que vão passar pela frente da minha casa e da porteira da fazenda Taurinos. A fazenda Taurinos e minha casa ficam num desvio para dentro do campo. Esse desvio é bifurcação que vai sair na estrada principal que é a saída e entrada da cidade. Se alguém toma pelo desvio, ou quer parar na fazenda Taurinos ou na minha casa, porque elas são as únicas duas coisas nesse desvio do caminho. Minha casa tem bastante recuo no terreno, mas isso não é problema para qualquer entidade que apareça por aqui. Se o som passa da fazenda Taurinos, fatalmente virá parar aqui, gente ou assombração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E veio parar aqui, gente ou assombração. O cavaleiro era Arthur e graças a Mitra não vinha de jardineira azul-celeste. O Sol já ia baixo. Ele parou em frente a casa e me mostrou um lenço branco. Sabia-se lá o que ele queria dizer me mostrando um lenço branco. Despedida? Paz? Fiquei imaginando o que poderia ser dentro da simbologia dos meninos daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Chega pra dentro!"&lt;/em&gt;, eu gritei do alpendre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri que o lenço era o bom e velho símbolo de paz entre eles. Ele amarrou o cavalo no portão. Veio descendo o terreno em direção de minha casa, sem evitar de olhar o saibro em torno. Ele subiu ao alpendre, meio sem-graça, pedindo licença e entramos. Arthur sentou de costas para a janela da cozinha e eu fiquei petrificada ao olhar para ele. A contraluz da janela mostrava nítidas feições de um espantalho horroroso no menino, sorrindo um ainda mais horroroso sorriso fluorescente para mim. Sugeri imediatamente que trocássemos de lugar. Ele pareceu entender o que aconteceu e ficou admirado (e um tanto embaraçado) de descobrir que eu podia ver esse lado dele na contraluz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ofereci café. Ele recusou polidamente. Eu disse que a demanda tinha chegado ao fim e com ela a interdição em minha casa. Ele recusou mesmo assim. Perguntei se ele tinha vindo simplesmente para me aparecer como o Pavoroso Espantalho da Morte e do Horror. Ele riu, novamente embaraçado, e fez uma pausa. Eu não sabia o que esperar. Ele não sabia o que dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu vim me desculpar pela confusão de ontem no bar do Zé, D. Stella. Não fui nem um pouco simpático. Mas eu também não vou mentir e dizer que estou contente com a senhora. Mas tanto do seu lado quanto do meu, o que está feito, está feito."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tudo bem, está desculpado, eu já estou mesmo acostumada a passar esses carões no bar do Zé. Da outra vez foi a Polícia Obscura"&lt;/em&gt;, eu sabia que isso era o mais aproximado de um pedido de desculpas que ele poderia vir a me fazer pelo acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur ficou um tempo em silêncio. Perguntou se eu sabia o que estava acontecendo. Respondi que "sêo" Danilo e Andrés tinham me contado a respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o Andrés contou a velha história"&lt;/em&gt;, Arthur sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei a ele o que eu tinha sabido por Andrés e perguntei a ele se era aquela a velha história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim. Essa mesma. E é verdade, D. Stella. Isso aconteceu há quinze, dezesseis mil anos atrás e no entanto foi criado pela senhora não tem vinte dias."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o Livro das Origens era aquela confusão porque&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Porque o Livro das Origens é a senhora"&lt;/em&gt;, ele ergueu as sobrancelhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, só podia ser, uma bagunça daquelas, tudo distorcido, nada batendo com nada&amp;hellip; Deixa eu adivinhar, vai. Você morre a cada cinquenta e dois anos prensado por um touro num curral da sua fazenda enquanto a Sociedade Antiga dos Taurinos planeja a cerimônia que vai expulsar o Grande Um da cidade. Há quinze, dezesseis mil anos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino tinha a expressão séria. Pediu que eu não o olhasse fixamente. Disse que eu poderia até estar levando na brincadeira, mas que o que eu dizia era verdade. Respondi que não estava levando nada na brincadeira. Mas que já não sabia se estava anestesiada de tanta descoberta. Ele rebateu que isso não era uma descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não existe nada da maioria das tradições de 16 mil anos da cidade que a senhora não tenha criado de fevereiro pra cá. Não existe tempo em Taurinos, pelo menos não como a senhora conhecia. Não pare os olhos em cima de mim; procure descansar a vista"&lt;/em&gt;, e ele prosseguiu, &lt;em&gt;"isso não acontece mais porque a senhora decidiu morrer naquele dia. Ali terminou o Grande Um, a Lei dos Touros a cada cinquenta e dois anos. A vida aqui se divide em dois períodos: antes e depois da senhora. O que a senhora conhece como 2009, nós taurinenses chamamos de ano zero."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;R&lt;/span&gt;enan apareceu no final da tarde em seu palomino. Disse que estava com saudades daqui. Eu contei a ele sobre minhas reflexões antes que Arthur chegasse. Ele ficou me ouvindo sério. Vi uma lágrima rolando e sequei a carinha dele com meu polegar. Depois de me ouvir, Renan não sabia o que dizer, senão que estava com saudades dos dias passados aqui. Ele me abraçou. Ficamos um momento assim e depois ele se sentou no sofá e ficou olhando para as própras botas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu me lembro da senhora chorando quando meus pais me levaram de volta. Pensei que a senhora estava chorando porque a senhora estava feliz que eu estava voltando pra minha casa de verdade. Depois a senhora não foi na sua festa e o Arthur disse&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O "sêo" Danilo me contou, ele disse que você chorou muito durante a festa toda."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É porque eu vi que a senhora não estava contente de eu ir embora. Eu sou novinho, mas eu entendi logo que a senhora se acostumou comigo como se fosse minha mãe. E é porque eu me acostumei com a senhora como se fosse seu filho também. A minha mãe e o meu pai tem medo de mim. Mas eu sei que no fundo eles gostam de mim."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É claro que eles te amam, Renan. Que ideia!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas eles tem muito medo de mim"&lt;/em&gt;, ele parecia desanimado, &lt;em&gt;"a senhora não."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quem disse que não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhou surpreso. Via-se que não esperava por aquilo. Mas eu achava que ele deveria esperar. Fiquei surpresa ao vê-lo surpreso assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nó, mas até a senhora&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não tenho medo só de você, Renan. Tenho medo de você, do Andrés, do Arthur, do Adriano, do Anderson, do Bruno e do teu irmão."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou pensativo. Depois, perguntou do que eu tinha medo em todos eles. Eu disse que não sabia o que esperar deles em momento nenhum. Ele então perguntou se eu sabia que eu criava a maioria desses comportamentos sem controle nenhum neles. Eu disse que vinha recolhendo várias opiniões que me diziam que isso era verdade. Que Arthur tinha acabado de me dizer o mesmo com outras palavras. Eu disse que isso abria ainda mais perguntas do que respostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se é assim, quanto de liberdade vocês têm de vocês mesmos, de livre arbítrio?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que é um livre arbítrio?"&lt;/em&gt;, ele franziu a testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não existe "um" livre arbítrio. Existe livre arbítrio. Quer dizer fazer uma coisa porque você teve vontade você mesmo e não porque alguém ou alguma coisa te fez fazer."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frequentemente o domínio que as crianças tinham dos elementos ou forças me fazia esquecer que, no caso de Renan, eu ainda assim estava falando com um menininho de dez anos de idade. No mesmo caso, imbuído de um aspecto ou lado ou como quer que chamem isso, qualquer um deles poderia dar um ar solene a uma reunião do Mithraeum, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como a gente sabe se é esse tal de livre arbítrio e não outra coisa que fez a gente fazer aquilo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem resiste à lógica das crianças? Ou à ilógica das crianças? Achei que não tinha como responder a ele, mas respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como a gente sabe se é outra coisa que fez vocês fazerem aquilo e não esse tal de livre arbítrio?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan ficou novamente pensativo. Depois, olhou em torno, esticou o pescoço como fazia quando zangado ou alarmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que chegou gente. Preciso ir embora, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pediu que eu fechasse os olhos e não abrisse a porta por algum tempo mais assim que ele fosse embora. Eu imaginava o que era. Renan era um pesadelo. Era o meu pesadelo favorito, mas um pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;U&lt;/span&gt;ma hora depois, apareceu "sêo" Danilo a cavalo. As maripôsas e outras criaturinhas noturnas já tinham começado a encostar na parede do alpendre atraídas pela luz, lançando sombras esquisitas e tortuosas por cima dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje olhando para "sêo" Danilo, eu o vejo um pouco como o Dr. Romeu, terapeuta que me iniciou no paranormal para o melhor e para pior. Acho que este homem tem muito a ver com aquele. Como se "sêo" Danilo fosse feito de minha recordação do Dr. Romeu. Sábio, vivido, pessoa com quem sempre me aconselhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nossa, a Polícia me passou mais além no caminho, foi aquele Deus nos acuda de sempre."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, ele saiu daqui já faz uma hora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Creio em Deus padre. Estou vendo tudo girando ainda. Parece aquele defeito de televisão de quando proseia mas num mostra as feição."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tive que rir. Ele carregou no regionalismo da Mantiqueira justamente com essa intenção, me fazer rir. Contei a ele sobre a passagem de Arthur e Renan por aqui hoje e o que conversamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, que bom que o menino botou um pouco de juízo naquela cabecinha e veio se desculpar, "sá" Stella. Já estava mesmo na hora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, e ele veio e me mostrou um lenço branco e tudo, propondo paz&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estranhou aquilo. Franziu a testa olhando fixo para mim. Disse que Arthur mostrando um lenço branco para mim nada tinha a ver com uma proposta de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, "sá" Stella, ele na verdade queria dizer que não veio para lhe agredir fisica ou verbalmente, embora isso fosse o que a senhora merecia."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que simpático da parte dele."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se assombrou com a visão que eu tive de Arthur na contraluz. Disse que nunca viu aquele lado dele e que ele não devia parecer assim se veio me pedir desculpas. Eu contei a ele de como ele pediu que eu não fixasse nele o olhar. Ele disse que o menino ainda devia estar furioso comigo mas que admitiu que não tinha o direito de me tratar como me tratou no bar do Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Aí então a senhora viu esse lado agressivo no Arthur quando a sombra formou no rosto dele, que era justamente essa figura de espantalho que eu já tinha lhe falado. Se a gente consegue enxergar na sombra, enxerga o que está oculto ali. O que as pessoas não querem deixar transparecer. Arthur mais provável pediu que a senhora não fixasse o olhar nele porque não queria que ficasse notando que ele ainda estava bem zangado com a senhora. Ou porque não queria assustar, porque acaba dando tudo no mesmo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o senhor diz que nunca viu esse lado agressivo no Arthur."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, graças ao Astro Rei. Porque ver é sinal claro de que as coisas estão malditas em sua casa, pelo menos naquele momento, o que já é ruim o suficiente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor acha então que a minha casa estava maldita naquele momento?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Estava, se a senhora viu o espantalho no Arthur&amp;hellip; Como estava no dia em que o Renan amarrou o cavalo preto dele na coluna do seu alpendre."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se o senhor nunca viu o negócio do espantalho, como pode me descrever? Arthur disse ao senhor como é?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não. Arthur, Bruno ou Guilherme não precisam me dizer nada. Eu sei como o Jardineiro Celeste opera. Sou como a senhora às vezes diz, guardião das tradições do mitraísmo local."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele foi em frente, me descrevendo mais ou menos o que os dois que o antecederam já tinham me dito. Eu o questionei como questionei a Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Destino é fazer as coisas mais loucas e aleatórias porque eu quis assim sem poder controlar? Porque eu quis sem querer? Não há uma vontade própria em ninguém, todos fazem as coisas que fazem  porque eu quero assim?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou pensativo. Achou que as coisas se precipitavam de uma maneira caótica e nesse pensamento ele tinha a ver comigo. Tudo era além da compreensão, todos compareciam com saídas que não eram saídas para lugar nenhum. Mas o fato de que fosse caótico não provava que eu o manipulava mesmo sem saber. Talvez eu tivesse "apenas" posto a roda para girar (o que já não era pouco).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu lhe disse, a senhora poderia ter evitado tudo isso, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, ele tinha um ar sombrio. Não gosto de ver "sêo" Danilo assim. Por momentos, ele é a única luz que me guia nesse labirinto de loucuras que Taurinos é. Ver "sêo" Danilo assim é me ver no escuro, sem direito à remissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ir pra que lado, homem? E se eu voltasse praquela carcaça arrebentada, morresse e mesmo assim tudo isso acontecesse de qualquer maneira? Esse é o Grande Mistério até para você que é o guardião das tradições do mitraísmo local. O mitraísmo local não é  uma religião de mistérios, como um dia me disse Duílio? Pois eu acho que esse é o Grande Mistério da Criação para a Sociedade Antiga dos Taurinos decifrar. Se é que um dia vai conseguir decifrar algo assim tão sem provas. Porque crença em si não resolve nada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já lhe disse que não existem crenças em Taurinos. Apenas criações. Mas a senhora tem razão, não há como saber se teria sido diferente. Entre nós circula a idéia de que a senhora cria essas situações, mas não consegue controlar. Mas como a senhora mesma diz, não há um meio de provar ou controlar isso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É como no mundo de onde eu vim, "sêo" Danilo. Ninguém sabe se o que faz é por vontade própria ou se por ato de alguma divindade ou por obra do destino. Acho que eu andei, andei e caí na mesma merda eu mesma. A única diferença é que aqui já sabemos que foi criação e não evolução."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio. Lá no alpendre, as mariposas e outras criaturinhas noturnas continuavam encostadas na parede do alpendre atraídas pela luz, lançando sombras esquisitas e tortuosas por cima da parede. A noite seguia, e com ela a conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-6412170374238621539?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/6412170374238621539/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/ano-zero.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6412170374238621539'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6412170374238621539'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/ano-zero.html' title='Ano zero'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-761547223141668466</id><published>2009-08-02T20:58:00.005-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.312-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Babilônia</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;a cidade, com Duílio, Adriano, Aparecida, Andrés e "sêo" Danilo. Parando no Zé das Profundezas para almoçar (e rezando para que ele tivesse almoço). Duílio comentou que não sabia como o Zé ainda mantinha as portas abertas se nunca tinha nada para servir, afora o que ele servia aos pinguços habituais de Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E parece que todo mundo se encontra no Zé. Pois não é que a família Feletti teve a mesma ideia? Não há tantos lugares assim para se ir em Taurinos, não há como evitar encontrar amigos ou desafetos nas ruas da cidade. Quando os Feletti perceberam que todo o clã Conselheiro estava reunido, mais a santista mal-educada que recusava presentes de aniversário, já era tarde demais para disfarçar e sair do bar. E era tarde até para eles escolherem uma mesa do lado de fora. Simone, a caçulinha do clã Feletti, adorava Adriano e "sêo" Danilo e veio direto para nossa mesa. Adriano se derretia todo com a menininha minúscula e graciosa. Arthur cumprimentou Adriano, Andrés, Aparecida, Duílio e "sêo" Danilo. Duílio ia se manifestar sobre a minha presença e eu chutei a canela dele por debaixo da mesa. Seguiu-se um silêncio constrangedor, com o homenzarrão me olhando feio e esfregando sua canela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vem pra cá, Simone"&lt;/em&gt;, chamou o irmão mais velho, contrariado, &lt;em&gt;"não fique incomodando as pessoas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Incomoda não, "sêo" Arthur"&lt;/em&gt;, garantiu o velho sertanejo, &lt;em&gt;"ela é tranquila."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, senta aí com a gente, cara. Chama teus pais, faz uma mesa só"&lt;/em&gt;, convidou Adriano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur nem procurou disfarçar um olhar para mim antes de recusar o convite. D. Carolina e "sêo" Horácio cumprimentaram a todos tão contrariados quanto seu filho. Escolheram uma mesa mais distante. De lá, Arthur lançava olhares mal-humorados para a nossa mesa, onde Simone insistia em ficar apesar dos chamados do irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoçamos. Foi um silêncio mortal dentro do bar. Já estava eu dizendo a mim mesma que preferia ter almoçado em casa quando o tédio da refeição dominical transformou-se em ação, só que do tipo indesejável. Depois de chamar a irmãzinha pela centésima vez para almoçar na mesa da sua família, Arthur perdeu a paciência e veio à nossa mesa buscar a menina à força. Andrés e "sêo" Danilo olharam para mim sem muita simpatia pelo que estava acontecendo. Os dois casais se entreolharam, presos no mesmo sentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, deixa a menina, cara. Ela não está incomodando nem um pouco, pode acreditar"&lt;/em&gt;, tentou Adriano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vamos pra lá, Simone. Tem uma pessoa nessa mesa que é muito mal-agradecida e não tem educação"&lt;/em&gt;, e ele puxava a menina, que começou a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era claro que o problema na mesa era eu. Precisava parar de vir ao Zé das Profundezas já que sempre que vinha aqui acontecia uma dessas. Da última vez que vim, era o Anderson com a tromba (e ainda por cima saímos do bar sem comer). Agora ele passava a tromba para o Arthur. O cenário é que nunca mudava. O pai de Arthur interviu, zangado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, relaxa aí. Isso não é jeito de tratar os mais velhos!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É isso mesmo, mal-agradecida e sem educação!"&lt;/em&gt;, e ele olhou enfurecido para mim de modo que chegava a assustar. Mais um ursinho para me provocar pesadelos à noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo que ele falou em seguida, depreendi que outras pessoas na cidade sabiam que ele iria colocar um jardim em minha casa. Foi aquele inferno, os pais tentando acalmar o zangão (e a menininha agora chorando sem parar). Entendi tudo. Estavam infernizando o menino na cidade por causa da promessa que não se realizou. Felizmente (para mim) a notícia da recusa se espalhou tão rápido quanto a do jardim ou eu teria romarias vindo visitar minha casa e seus jardins, nem suspensos, nem da Babilônia. Foi quando tive a certeza de que recusar o jardim foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-761547223141668466?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/761547223141668466/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/babilonia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/761547223141668466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/761547223141668466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/babilonia.html' title='Babilônia'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7300764252765970510</id><published>2009-08-01T01:47:00.008-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.312-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>À leste do Éden</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ithraeum. Última reunião sobre a demanda, convocada pelo Jardineiro Celeste. Tentei me aproximar de Arthur e Guilherme e conversar com eles antes da reunião, mas Andrés me puxou para o lado dele, &lt;em&gt;"dá um tempo pros moleques agora, D. Stella; a senhora pode se machucar se tentar chegar neles assim."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei ao lado de "sêo" Danilo, Andrés e Renan. Os dois meninos já pareciam bem melhores, embora os rostos fossem ainda abatidos e cansados, o que não era muito de se admirar. Do outro lado, Arthur e Guilherme me lançavam olhares nada amistosos, mesmo carnívoros em minha direção. Estavam simplesmente mordidos. Adriano e Anderson sentaram-se no meio do caminho entre nós e os "meninos de lá".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma reunião não muito longa para os padrões da Sociedade. Bruno era o Oficiante para a reunião de hoje. Ele abriu os trabalhos e disse que a demanda tinha sido oficialmente encerrada por mim. Que a demanda não exigia que eu tivesse um jardim em minha casa e que eles entendiam meus motivos para não querer ter o  jardim. Mas que ter recusado o presente tinha sido um erro grave de minha parte. Disse que não havia segundas intenções nos presentes que foram dados. Que eles foram dados simplesmente porque aquele era o dia de meu aniversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora estragou uma tentativa séria de diálogo do Jardineiro Celeste com a comunidade de Taurinos quando recusou o jardim"&lt;/em&gt;, o Oficiante declarou, &lt;em&gt;"normalmente em Taurinos já é ofensa grave recusar um presente, quanto mais um presente como esse. O Jardineiro Celeste não entende pessoas como a senhora, povo urbano recusando uma maravilha como aquela e preferindo contar só com o saibro como paisagem em torno da casa. Mas ele entende também que a casa é sua, e que a senhora tem direito de usar seu espaço como bem entender. O Jardineiro Celeste não tem o direito de manter um jardim ali se a senhora não deseja. Só que isso também tornou o diálogo mais difícil, justamente quando já estávamos conseguindo fazer algum progresso com a comunidade."&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur olhava fixo para mim. Era um olhar gelado, mas especialmente um olhar de alguém que não se conformava, por mais que tentasse. O olhar de Guilherme era igualmente cortante. Se olhasse mais atentamente, eu veria seu lábio inferior tremendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O Jardineiro Celeste quer agora deixar claro para todos aqui, especialmente Renan e Andrés, que uma próxima violação das regras vai ser entendida como declaração de guerra por ele"&lt;/em&gt;, continuou o Oficiante, &lt;em&gt;"e aí não vai ficar só entre os membros do Conselho. Se houver guerra, desta vez &lt;b&gt;toda&lt;/b&gt; a comunidade vai perder com isso. E muito. Esperamos que toda essa história tenha servido de lição para os dois e para qualquer um que pense em se aventurar"&lt;/em&gt;, e depois de uma pausa ele concluiu, &lt;em&gt;"se não houver ninguém disposto a fazer uma declaração que ainda não tenha sido colocada pelo presente Oficiante, declaro a reunião encerrada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;m casa, com Renan, Andrés e "sêo" Danilo. A pele dos dois ainda está marcada dos mosquitos que os atormentaram durante a totalidade da estadia deles no Santuário. Tomamos café mais para nos manter ocupados. O silêncio de todos à mesa me incomodava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vocês também vão dizer que eu estava errada em recusar o jardim"&lt;/em&gt;, eu disse para quebrar o gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não acho que a senhora esteja errada. Se não queria o jardim, que se vai fazer?"&lt;/em&gt;, declarou Andrés, mortiço como uma vela prestes a se apagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora recusou por causa da gente?"&lt;/em&gt;, perguntou Renan, curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Também"&lt;/em&gt;, respondi, &lt;em&gt;"um dos motivos foi ficar me lembrando de vocês no meio da floresta."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descontraí um pouco a conversa, lembrando dos momentos com "sêo" Danilo e as aparições do Caipora, só para descobrir que Renan também tinha medo de "assombração". Eu, Andrés e "sêo" Danilo acabamos dando boas risadas. Não tinha sobrado muito o que fazer depois dessa ressaca de vinte dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o senhor voltou a fumar, "sêo" Danilo?"&lt;/em&gt;, inquiriu Andrés, querendo saber mais sobre o ritual dos cigarros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nem que eu quisesse. Ele levou foi bem embora o meu Souza Paiol"&lt;/em&gt; e o sertanejo, seu amigo de infância, o policial e eu rimos como doidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E ele nunca mais voltou em sua casa?"&lt;/em&gt;, perguntei, fazendo Renan se admirar, &lt;em&gt;"mas ele foi na sua casa também?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não mais, mas ele até volta. Só que agora está sossegado depois que nós fumamos juntos na mata. O maço que ele levou vai durar muito, muito tempo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei que tanto eu quanto "sêo" Danilo tínhamos passado por experiências parecidas em termos sido expulsos de lugares belíssimos por entidades que governavam o lugar. Estávamos os dois vivendo à leste do Éden, como na Bíblia e no livro de John Steinbeck. Ele não entendeu à referência a Steinbeck, mas entendia perfeitamente o que eu dizia sob o ponto de vista bíblico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a voz cansada, Andrés disse que houve uma divisão profunda entre as porções urbana e rural em Taurinos. Minha atitude só fez exacerbar essa divisão. E eu perguntei a ele porque iniciar tudo aquilo, coisa que havia muito eu queria perguntar. O que fez com que ele me levasse a um lugar que ele sabia que eu não poderia pisar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já lhe expliquei, eu achava que&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não mente pra mim, Andrés Silva Conselheiro. Você sabe que isso não é justificativa. Tanto não foi que deu no que deu. Renan foi de bobo alegre na brincadeira, de puro moleque. E você? Que necessidade você tinha de fazer isso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan não gostou e ia dizer algo em sua defesa, mas "sêo" Danilo sinalizou que ele ouvisse. Andrés ficou embaraçado e desconfortável com a pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que causou a tal divisão profunda?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso faz muito tempo, D. Stella. Foi no início da cidade, quando eu deixei de ser&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, e ele parou, como que com medo de recordar aqueles tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Deixou ser touro?"&lt;/em&gt;, atalhou Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Porra, Renan!"&lt;/em&gt;, Andrés olhou sem-graça para mim e "sêo" Danilo como se Renan tivesse lhe arrancado as calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Porra, Renan o que? Para com isso, Andrés; aqui todo mundo já sabe que você um dia já andou de quatro e pastou por esses campos por aí. Não aconteceu só contigo não, aconteceu comigo, com o teu irmão, o Anderson, Bruno&amp;hellip; Você é um ex-touro!"&lt;/em&gt;, e o policial minúsculo riu da própria piada idiota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, tá bom, Renan; tá bom, tá bom, tá bom. Então, foi no início da cidade. O Jardineiro Celeste já sabia o que ia ser desde o começo e não queria que os touros começassem a retornar como gente. Eu disse não pra ideia dele e a briga começou daí. Renan veio logo depois e se juntou comigo. Depois vieram o Adriano, Anderson, Arthur, Bruno e o Guilherme, mas ele "pegou" os três últimos. Desdaí ele tenta conversar com a gente através do Arthur, Bruno e o Guilherme. O princípio do Jardineiro Celeste teve que incorporar neles pra poder falar a nossa língua de gente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que você fez foi motivado por uma rixa ancestral com o Jardineiro?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi idiotice minha."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É óbvio que foi idiotice sua, garoto. O que você fez foi motivado por essa rixa?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi, ué."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan ouvia em silêncio, provavelmente lembrando dos tempos em que andava de quatro e pastava por esses campos por aí. "Sêo" Danilo estava em silêncio total, apenas tentando juntar as peças que Andrés espalhava mais ainda ao invés de encaixar. Andrés declarou que essa tinha sido sua última provocação ao Jardineiro Celeste. Ele parecia se referir ao Jardineiro Celeste como um mal necessário, tão desejável quanto o &lt;a target="_blank" href="http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/02/esperando-pelo-grande-um.html"&gt;Grande Um&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo afirmou que a rixa dos meninos era a mesma briga da natureza com o progresso e que Andrés era mais ou menos um símbolo dessa urbanização de Taurinos. Era alguém que queria uma vida diferente das cavernas e de outros acidentes geográficos naturais. Alguém que não aceitava mais viver pura e simplesmente da natureza, mas que precisava modificar certos aspectos dela para criar uma outra sociedade. Que terminou sendo o que Taurinos é hoje. A rixa do Jardineiro Celeste com ele foi porque o Jardineiro o considerava um traidor, mas também porque ele obrigou o Jardineiro a tomar a mesma forma humana que Andrés usou para "traí-lo" para deixar isso claro para ele. Renan ouviu com atenção, mas não se manifestou. Andrés não refutou uma única palavra do que o sertanejo disse sobre ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por isso o Bruno não convidou nem você nem o Renan para seu aniversário. Vocês tinham uma rixa ancestral com eles."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Temos, D. Stella"&lt;/em&gt;, corrigiu Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por isso o Andrés levou a senhora no Santuário"&lt;/em&gt;, acrescentou Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Capaz! Pela primeira e última vez, juro"&lt;/em&gt;, o gordinho de óculos parecia apavorado ao lembrar de seus dias na floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso me dava uma dimensão do sofrimento que foi para os dois pequenos urbanóides a estadia no Santuário. A recordação de seu passado natural. Os medos ancestrais do escuro, da noite, da floresta e de suas entidades revividos ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora simplesmente conseguiu evitar que a cidade voltasse aos tempos dos touros atacando as pessoas, no começo de tudo. Uma guerra entre o Jardineiro Celeste e Taurinos com certeza levaria a cidade de volta a esses tempos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez foi "sêo" Danilo quem ouviu Andrés sem refutar uma única palavra. Entendi a profundidade da confusão. Fiquei contente por todos estarmos bem no final das contas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7300764252765970510?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7300764252765970510/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/leste-do-eden.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7300764252765970510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7300764252765970510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/08/leste-do-eden.html' title='À leste do Éden'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-2361670136906221332</id><published>2009-07-24T00:53:00.009-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.312-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Compaixão</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u soube por Duílio que Andrés e Renan ficariam por pelo menos uma semana no hospital em Varginha. Aparecida tinha ficado no hospital com Andrés e Donana com Renan. Na volta, uma dieta rica em feijão e beterraba feitos em panelas de ferro para combater a anemia. Duílio estava indo à fazenda Teixeira e eu lhe pedi carona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar na casa principal da fazenda Teixeira, ouvi uma porta bater no andar de cima. Alguém em casa parecia zangado. "Sêo" Octávio apareceu da cozinha e percebi que tinha sido Guilherme batendo a porta lá em cima, provavelmente a do seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, o menino tá meio zangado com essa história do jardim&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu vim mesmo saber do Renan, "sêo" Octávio"&lt;/em&gt;, eu expliquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, o Renan e o Conselheiro vão ficar uma semana de molho."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Posso conversar com o Guilherme?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Guilherme está muito zangado e desapontado com a senhora. A gente passou na volta, ele procurou o jardim na sua casa e nada; a senhora já estava até dormindo essa hora, estava tudo apagado. Hoje, ele soube pelo Bruno que a senhora tinha mandado o Arthur tirar o jardim de sua casa. Ele ligou pro Arthur e ele nem quis atender, diz a D. Carolina que ele está triste, nervoso e chorando desde ontem. Guilherme também está com uma tromba enorme desde então, e com o Renan no hospital as coisas por aqui estão um pouco perturbadas no momento."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu imagino"&lt;/em&gt;, eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Octávio não expressou isso em palavras, mas também não parecia muito contente pela minha decisão de recusar o jardim. Disse que sentia muito não poder nos dispensar mais atenção e nos pusemos a caminho de volta para a fazenda Taurinos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duílio nada dizia ao volante, mas era evidente que não entendia chongas de minha decisão de recusar um presente tão lindo. Eu pedi a ele que me levasse até a fazenda Feletti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, eu vou direto pra casa"&lt;/em&gt;, ele disse, &lt;em&gt;"deixe o menino lá quieto no canto dele, D. Stella; se for mexer agora vai ser pior. Se nem o Guilherme quis lhe ver, quanto mais o Arthur! Não sei nem se a família deixa a senhora entrar lá depois do que aconteceu."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me conformei e me calei. Duílio tinha razão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u disse a "sêo" Danilo que entendia o transe pelo qual Arthur tinha passado. Estraguei a surpresa dele, o que ele havia preparado, um gran finale, uma moral da história. Todos se arrebentaram no final, cada um de seu jeito. Ninguém venceu e todos perderam. Mas achei que, independente de conseguir que eu mantivesse seu jardim, o Jardineiro Celeste tinha demonstrado o que queria: que o Santuário tinha de ser algo digno desse nome. Foi o Jardineiro Celeste quem menos arranhado na história saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele queria tão desesperadamente que eu aceitasse o jardim para que ele ficasse como símbolo desse reconhecimento de que há lugares na cidade que não podem ser pisados por estrangeiros. E que melhor lugar para fincar um símbolo como esse do que a casa de um estrangeiro, mesmo tendo esse estrangeiro criado a cidade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez essa fosse apenas uma das razões pelas quais recusei o presente. Talvez porque eu não o visse como um presente. Talvez porque eu o visse como um lembrete do poder que poderia se abater sobre mim ou quem mais se atrevesse a violar as regras do Jardineiro Celeste. Se tanta magia e beleza foi construída assim, o que seria experimentar seu lado terrível? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já me bastava a lembrança dessas duas semanas estranhas que tinha passado. Ninguém iria colocar marcos em meu terreno. Preferia a aridez do saibro em volta da casa a um Jardim do Éden com gosto eterno de demonstração de força e castigo. O jardim seria a testemunha viva do poder com o qual eu estava me metendo. Eu devia me sentir feliz por ter passado nos seus testes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo declarou que concordava com tudo o que eu tinha dito, mas que eu levei a história toda de um modo muito emocional, quase materno por me preocupar com todos os meninos, não apenas com uma parte deles. Isso era bom em sua opinião, mas também favorecia a que eu agisse com raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas por outro lado, ele viu também que a senhora agia movida por compaixão e por gostar dele. Viu que também se importava com ele a ponto de socorrer o menino com o próprio sacrifício das costas por quilômetros. Acho que por isso ele respeitou sua decisão de não ter o jardim. Ou talvez porque ele não possa manter o jardim ali contra a sua vontade de qualquer maneira."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a chorar lembrando do dia em que ele ficou olhando a mesa do café com tudo aquilo que ele podia ver mas não podia comer e me arrependi tanto daquilo. Provavelmente ele estava sem comer, como no dia em que desmaiou. Era culpa dele, eu sabia, mas me arrependi tanto de ter negado o café para ele. O olhar dele de cachorrinho faminto olhando a mesa ainda iria me perseguir por um bom tempo. "Sêo" Danilo apenas me olhava perplexo, sem saber o que dizer para me confortar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-2361670136906221332?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/2361670136906221332/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/compaixao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2361670136906221332'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2361670136906221332'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/compaixao.html' title='Compaixão'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4014898745944512708</id><published>2009-07-23T17:43:00.009-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.313-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Éden</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;cordei com batidas na aldrava lá embaixo. Eram sete horas da manhã, nem mais, nem menos. Era Guilherme, pedindo que eu me vestisse e viesse com ele. Eu o fiz, e a família Teixeira me levou até a trilha que conduzia ao Santuário. Guilherme pediu que eu esperasse na estrada com seus pais e desapareceu para dentro da trilha. Houve um silêncio mortal entre os três adultos. Um som de motor se ouviu e eram os Conselheiros descendo a estrada nessa direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles pararam perto e perguntaram como iam as coisas, ansiosos. Aí, juntou mais gente. Anderson, Bruno, "sêo" Danilo. Depois de uma meia-hora, Guilherme emergiu da floresta amparando o irmão. Andrés parecia melhor mas não muito. Nós ajudamos a colocar os dois nos carros. Eles foram embora direto para Varginha, &lt;em&gt;"tô vendo que a nossa vida vai ser levar essas crianças para hospitais pela Eternidade"&lt;/em&gt;, disse um Duílio soturno olhando pela janela aberta do carro para mim enquanto passava da ré para a primeira para seguir viagem. Eu simplesmente não acreditava no estado em que eles se encontravam. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, e outras. Ali eu senti o quanto de apego eu tinha por aquelas criaturinhas em conflito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me dei conta, estávamos eu e "sêo" Danilo na estrada de terra. Fomos caminhando para minha casa, ele conduzindo o cavalo pela rédea. De longe, ao lado do meu portão, víamos Anderson e Bruno e mais um terceiro cavalo amarrado à cerca. Quando chegamos, não tive como reconhecer minha casa. Nós dois paramos em frente ao portão, assombrados. A visão mais aproximada era a do Jardim do Éden. Pequenos saltos, lagos, paisagens de sonho, pequenas pontes, quase que como um jardim zen japonês. Flores maravilhosas se abriam, oferecendo cores luxuriantes onde beija-flores vinham se banquetear. Vida, vida e mais vida. Anderson e Bruno tinham se apeado dos cavalos e parado em frente ao portão. Nós dois observávamos maravilhados tudo aquilo quando Arthur saiu de trás de uma moita em sua jardineira azul celeste e nos saudou com aquele sorriso luminoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"As sementes não eram tão ruins assim, D. Stella"&lt;/em&gt;, ele falou ainda sorrindo, &lt;em&gt;"elas eram o meu presente para a senhora. Espero que a senhora goste deste pequeno pedaço do paraíso. Criei com muito carinho porque sabia que a senhora iria se importar e resolver o problema no Santuário. Agora eu espero que possa abrir os presentes do Bruno e do Guilherme também, eles levaram um tempão pra escolher e achar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur finalmente parou de falar. Eu não disse nada. Ficou uma pausa gigantesca. Eu não sabia o que dizer a ele. Ele ficou em suspense, olhando para os outros, sem entender o que acontecia, sem saber o que esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ficou mais alguma coisa por fazer, que a senhora precise?"&lt;/em&gt;, ele atalhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu preciso que você tire esse jardim daqui, Arthur."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como???"&lt;/em&gt;, eu relanceei os olhos em volta e só vi expressões de espanto. Estava vivendo um momento delicado. Anderson veio com um deixa-disso e eu disse a ele que não tornasse mais difícil ainda fazer aquilo; que já estava sendo difícil o bastante para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino me ouvia estarrecido. Lívido, sem cor nas faces, &lt;em&gt;"mas eu lhe dou um presente maravilhoso assim e a senhora quer que&amp;hellip; quer que&amp;hellip; quer que eu tire???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O jardim é maravilhoso, Arthur. Em qualquer outra circunstância seria um sonho para mim receber um presente desses. Eu me sentiria escolhida pelos deuses e isso seria o paraíso para mim. Mas eu sei o que aconteceu para que esse jardim pudesse florescer aqui e longe de me lembrar o quanto valeu a experiência só vai me lembrar do sofrimento dos dois."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson, "sêo" Danilo e Bruno me olhavam aturdidos. Arthur olhava para eles, e eles devolviam o olhar assustados, como que não acreditando. Ia ter de sentir o quanto é duro recusar um presente por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não posso aceitar o jardim da forma como ele foi dado para mim. Se fosse a mesma situação com você e você saísse do Santuário&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles cavaram aquilo pra eles, D. Stella! Eles! E ainda arrastaram a senhora pra encrenca!!!"&lt;/em&gt;, Arthur arregalou os olhos para mim como se estivesse prestes a se transformar num bicho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu sei. Fui a favor do Jardineiro Celeste, achei justa a demanda, mas não concordo com o modo como isolaram os meninos de mim. Com a pressão psicológica que me fizeram ao me fazer achar que a minha casa estava ameaçada de ruir junto com as de duas famílias que conheci de perto por aqui. Não quero ter um jardim que vai me lembrar tudo isso. Quero a minha casa de volta como ela era antes de toda essa confusão, Arthur. Me dói me desfazer de toda essa maravilha, da tua criação, mas esse jardim tem que sair daqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur se sentou no chão e enterrou a cabeça entre as mãos. O corpo dele começou a se sacudir. Fiz menção de me abaixar e tentar confortá-lo de algum modo, mas senti um puxão nos dois braços e eram "sêo" Danilo e Anderson me puxando apavorados. Olhei para eles confusa e quando olhei de novo, o jardim não estava mais lá. Nem a cerca espinhosa, nada. Nem Arthur, nem Bruno. Apenas Anderson e "sêo" Danilo ainda me segurando pelos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se vocês dois quiserem me largar, já podem."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;m casa, tarde da noite, abri os presentes do Bruno e do Guilherme. As caixas eram estranhamente leves hoje, nem de longe tinham o mesmo peso que senti no dia de meu aniversário. Ao desfazer os embrulhos, foi fácil ver porque: as duas caixas de presente estavam vazias. Joguei as caixas e os papéis no lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;eire apareceu no MSN e me desejou feliz ano novo sem lembrar que o tempo aqui já não era mais o mesmo. Pela webcam, me mostrou os fogos que saudavam o ano de 2011 pela janela de sua casa. Olhei no meu computador. Era dia 23 de julho de 2009. Comecei a chorar sem ter porque. Foi uma noite de merda de um dia de merda. Me despedi e desconectei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;evia ser quase meia-noite quando ouvi um som de carro lá fora, parando em frente à minha casa. Achei que era Duílio e que vinha me trazer notícias. Sem acender a luz do quarto, fui até a janela e olhei lá fora, protegida pelas cortinas da janela. Não eram os Conselheiros. Era o carro dos Teixeiras. De dentro saltou Guilherme, que fez menção de abrir o portão, mas deu com a casa toda às escuras e não foi além. De fora ele ficou olhando perplexo para a minha casa, a cerca e tudo em volta, sem nada entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas você não disse que o Arthur ia por um jardim aí?"&lt;/em&gt;, era "sêo" Octávio falando de dentro do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas ele ia! Juro que ia, pai&amp;hellip; A gente combinou isso!"&lt;/em&gt;, o pequeno estava aturdido, olhando para todo canto. Entrou, pareceu dar a volta na casa e voltou tão perplexo quanto antes, &lt;em&gt;"mas o que aconteceu aqui???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Guilherme, vamos embora que já está tarde"&lt;/em&gt;, o pai parecia estar ficando bem impaciente, além da frustração de não ver o jardim prometido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti pena do menino confuso e desolado lá embaixo. Mas ele saberia o que aconteceu pelos outros de qualquer modo. Não dei a conhecer a eles que estava acordada. O menino voltou ao carro tão confuso quanto estava ao sair e eu voltei a dormir, ainda incerta sobre se a Polícia iria fazer a ronda hoje por aqui e me acordar novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4014898745944512708?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4014898745944512708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/eden.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4014898745944512708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4014898745944512708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/eden.html' title='Éden'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7410707697152096039</id><published>2009-07-22T00:18:00.010-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.313-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Ferdinando</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;bri os olhos. A primeira coisa que vi foi o tampo da mesa, semi-obscurecido pelas sombras dos meus braços cruzados. Ao tentar erguer a cabeça, senti um ligeiro puxão nos cabelos. Puxei os cabelos de volta e ergui a cabeça para olhar. Tinham ficado presos na planta quando caí com a cabeça no tempo da mesa de tanto olhar para a desgraçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao olhar para a planta novamente, tudo pareceu se esclarecer como seu eu tivesse nascido sabendo. As visitas do Caipora, seus elogios aos meus cabelos, seus conselhos para que eu os prendesse, as estranhas visitas de Anderson, sua pergunta por uma constelação que ninguém mais teria encontrado. De repente, do nada, tudo fazia sentido. Lembrei do Arthur como Oficiante de uma das reuniões no Mithraeum me dizendo que eu estudasse a planta até cair com a cabeça na mesa. Como ele poderia saber a distância exata entre minha cabeça e a planta para que eu caísse com a cabeça na mesa e meus cabelos ficassem presos nela eu nunca vou descobrir. E nem sei se me interessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei para a casa dos Feletti. A mãe de Arthur, D. Carolina, atendeu; ele tinha ido a Varginha com o pai. Liguei para Bruno e Guilherme, mas se não estavam em Varginha também, nem por isso se encontravam em casa. Eu estava ansiosa por ver Renan e Andrés livres do Santuário e não podia esperar. Mas achei que infelizmente teria de esperar. Se os "meninos de lá" demorassem a voltar para casa, os dois só sairiam mesmo no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei em ir à casa de "sêo" Danilo. Era longe, mas melhor que ficar aqui em casa sozinha, remoendo isso. Mas um rumor de cavalo ao longe chamou minha atenção. Era um crescendo, o que indicava que iria passar por minha casa. A uma hora daquelas, se não fosse a Polícia era "sêo" Danilo. Abria porta e fui ao portão olhar na estrada. De longe, eu via o cavaleiro refletindo a luz das estrelas. Os sons da natureza cessaram: era o tempo. Um calafrio percorrendo meu corpo inteiro me avisou que não se tratava de "sêo" Danilo e que se eu continuasse onde estava iria me arrepender. Entrei rapidamente, apagando a luz do alpendre; fechei a porta e os olhos enquanto Anderson passava num galope cerrado, inundando tudo de uma atmosfera baça e terrificante. O galope já ia longe quando reabri os olhos. Voltei ao alpendre. Um outro som de cavalo se fez ouvir. Desta vez era "sêo" Danilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nó nem vi que tinha ronda hoje, tive que sair da estradinha pra dentro do mato pra não passar pela Polícia, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, ele disse ao se apear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu e mudou de assunto, dizendo que não precisava muito esforço para ler pela minha expressão que eu tinha finalmente entendido tudo. Eu o abracei, feliz por ter terminado toda essa tortura e ele pareceu encabulado. Achei um amorzinho da parte dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como a gente tira os meninos de lá?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Amanhã liga pro Arthur"&lt;/em&gt;, o sertanejo respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Só amanhã??? Por que não hoje?"&lt;/em&gt;, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não sei se podemos tirar eles de lá. Se eu posso, quero dizer. Não vamos arriscar dar mais problemas agora que tudo está resolvido."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha ansiedade por um momento me impediu de ver o quanto ele estava sendo razoável. Sim, mas ele não era o guardião das tradições?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Conheço as tradições"&lt;/em&gt;, ele redarguiu, &lt;em&gt;"mas o Jardineiro Celeste tem os seus critérios. Eu me adapto a eles para lhe descrever essas tradições. Não são as tradições que se adaptam à descrição que eu faço delas. Muita coisa do que lhe falei sobre a Polícia Obscura, por exemplo, mudou completamente em poucas semanas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"As forças pegam as crianças sempre em grupos? Isso também é uma tradição?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não entendeu minha pergunta. Expliquei que tanto a Polícia Obscura quanto o Jardineiro Celeste eram grupos dentro do grupo "geral" dos sete meninos. Foram tradições que se incorporaram a eles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, simplesmente aconteceu assim. Aconteceu porque aconteceu. E porque cada um tinha um temperamento voltado pra alguma coisa que tinha relação com isso. As forças da natureza de Taurinos utilizam essas crianças para se manifestar e conversar fisicamente com a comunidade. Agora, se é em grupo sempre, não sei. Pelo menos por enquanto, eu não sei."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falei de como Anderson tinha visto a si mesmo e ele disse que eu já tinha lhe contado isso. Perguntei se contei também que ele tinha vindo aqui me dizer que se viu armado e vinha tendo pesadelos com isso. O sertanejo me olhou, os olhos cheios de assombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Creio em Deus padre"&lt;/em&gt;, e ele se persignou, &lt;em&gt;"armado ainda por cima?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não o vi armado na Cachoeira dos Chifres, "sêo" Danilo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sorte sua, sô!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, quero dizer que me pareceu estranho que ele se visse armado ali e eu não."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou pensativo por um momento. Falei a ele de Anderson ter vindo à noite e de como ficamos olhando o céu e dele ter perguntado por uma constelação que tinha cabelos no nome e como tudo era relacionado e direcionado para o assunto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Anderson não parecia saber que motivo havia em olhar para o céu, "sêo" Danilo. O senhor não acha isso estranho nas pessoas daqui?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não. As pessoas em Taurinos estão preocupadas em continuar existindo amanhã e talvez até semana que vem. Os mineiros daqui não são como os outros. Não se deixam envolver pela natureza do lugar. Como touros, olhando para o chão, atrás daquilo que pastam. Não são como o touro Ferdinando, contemplando a beleza das coisas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tive pena do menino por uns momentos. Lembrei de Renan, ele mesmo sem ideia do porque daquele céu sobre a sua cabeça. Pobres crianças estranhas desta cidade tão estranha quanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso acontece com "os meninos de lá"?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não entendo o que a senhora quer dizer com "os meninos de lá"."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É como Aparecida chama o Arthur, o Guilherme e o Bruno."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso acontece com todos eles. Eles são uma coisa, as energias que eles direcionam são outra. Embora num aspecto dele que é a Polícia Obscura, esse aspecto carrega toda a energia do Anderson, por exemplo, a energia das emoções dele e da personalidade dele, Anderson Nascimento Caldeira que é brasileiro, mineiro e nativo de Taurinos. De modos que não dá pra separar muito a coisa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan um dia me disse algo parecido."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, "sêo" Renan é meio estouvado, mas do jeito dele, sabe muito."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Som de um cavalo ao longe, vindo nessa direção. "Sêo" Danilo disse que provavelmente era a Polícia. Eu já me preparava para entrar e apagar a luz do alpendre quando "sêo" Danilo se deitou no chão e postou o ouvido próximo ao solo sem encostar; me disse que Anderson não estava armado. O som do galope cresceu e o cavalo entrou em nosso campo de visão. Era Anderson, ainda de preto, mas felizmente desarmado. Ele chegou e se apeou do cavalo, sorrindo e nos cumprimentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Noite, D. Stella! Noite, "sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse que a noite passada olhando as estrelas fez bem a ele. Não teve nenhum pesadelo depois da contemplação do espaço. Disse que nunca tinha parado para apreciar toda aquela beleza e que se sentia bem como nunca tinha se sentido. Fiquei feliz por ele e disse que eu também tinha resolvido um problema. Ele me deu um abraço espontâneo, parecendo feliz por eu ter encontrado a solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você também sabia o que era, Anderson?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que até o prefeito já estava sabendo, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É como eu lhe disse, "sá" Stella, era a senhora quem tinha de descobrir. Podia até o povo de Varginha e região saber, mas só a senhora podia destrancar essa história."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7410707697152096039?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7410707697152096039/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ferdinando.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7410707697152096039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7410707697152096039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ferdinando.html' title='Ferdinando'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-5344959039970809516</id><published>2009-07-21T15:33:00.002-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.313-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Cabeleira de Berenice</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;nderson apareceu à noite. Pelo menos não estava de preto. Quem conhece Anderson e Renan geralmente não gosta de ver nenhum dos dois à noite. E não dá para culpar as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu estou tendo pesadelos com aquela hora na Cachoeira dos Chifres, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que você viu era realmente você?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu estava armado"&lt;/em&gt;, e ele empalideceu como na Cachoeira dos Chifres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso era o meu medo. Quando se diz que um Agente está armado, ele está vestindo uma armadura preta inteiriça com algo semelhante a um bico de pato onde devia ser a cabeça. A visão é horripilante o suficiente para te atirar longe. Literalmente, como se fosse uma pedra vindo de uma atiradeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não te vi armado, estava normal"&lt;/em&gt;, eu disse, &lt;em&gt;"aliás, se te visse armado teria voado longe dali muito antes."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele concordou, com um sorrisinho minúsculo que logo desapareceu do seu rostinho preocupado. Perguntei a ele se queria se sentar sob as estrelas por uns instantes. Puxei duas cadeiras de lá de dentro e nos sentamos na frente da casa, tal como com "sêo" Danilo na noite anterior. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É isso que vocês ficam fazendo nos descampados, a senhora, o Andrés e o Renan?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Simplesmente isso. Olhando o céu."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que tem de tão legal nisso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Engraçado, Renan me fez a mesma pergunta um dia desses. Mas, respondendo, quem sabe mesmo é você."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sou eu?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, como saber se algo é legal se nunca fez? Nunca parou para olhar o céu noturno?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu geralmente tenho outras coisas para fazer."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como por exemplo&amp;hellip;?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como por exemplo, dormir cedo para acordar no dia seguinte e ir trabalhar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Trabalho é bom, mas ele sozinho não preenche uma vida. Tem que se ter tempo para fazer nada de vez em quando. E olhar o céu não é simplesmente fazer nada. A beleza do Universo alimenta o espírito. Pode parecer papo de hippie velho, mas é essencial para a saúde mental."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou olhando o céu comigo. Perguntou sobre as constelações. Indiquei as que eu conhecia. Ele disse que o Black Sabbath tinha uma canção chamada "O Sinal Do Cruzeiro Do Sul" e ficou contente de ligar os pontos pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do nada, ele me perguntou que estrelas eram aquelas bem a oeste. Eram três estrelas formando um triângulo incompleto virado para o lado. Verifiquei um mapa celeste que eu tinha comigo. Era a Cabeleira de Berenice. Novamente o tema dos cabelos? Me perguntei por que teriam justamente aquelas três estrelas escondidas a oeste chamado a atenção dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-5344959039970809516?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/5344959039970809516/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/cabeleira-de-berenice.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5344959039970809516'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/5344959039970809516'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/cabeleira-de-berenice.html' title='Cabeleira de Berenice'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-8924691319924216271</id><published>2009-07-20T11:08:00.005-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.313-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Terceira visita</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;O&lt;/span&gt;lhando a planta, como de costume. O padrão encaracolado dela me segue por toda a parte, como se fosse um cachorro querendo me mostrar alguma coisa. Não entendo o que ele quer dizer, mas já sei que se não entender vou prolongar indefinidamente a estada dos dois meninos no Santuário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson passou novamente a cavalo e desta vez não me pediu água. Perguntou se eu queria ir com ele até a Cachoeira dos Chifres. Fazia muito tempo que eu não ia até lá. Não me lembrava de ter ido lá depois de minha morte, talvez fosse mesmo a primeira vez desde então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não entendo porque a senhora não deixa os outros meninos entrarem, D. Stella. É porque todos os outros apoiam o Jardineiro Celeste?"&lt;/em&gt;, ele perguntou enquanto caminhávamos até a Cachoeira dos Chifres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu apoio o Jardineiro Celeste"&lt;/em&gt;, eu declarei ao Anderson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Parece mais que a senhora está em guerra com ele."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu sigo pelo que é certo. Acho que ele não tinha o direito de me impedir de falar com eles. No começo, eu não podia nem sonhar em ajudar os dois. Agora sou a única que pode ajudar os dois. E, mesmo sendo a única que pode ajudar os dois, não posso contatar nenhum dos dois diretamente porque não posso entrar no Santuário. Não é palhaçada?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A natureza afeta quem estiver no caminho"&lt;/em&gt;, ele deu de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A natureza e eu"&lt;/em&gt;, rebati.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos em silêncio o resto do caminho. Anderson não parecia querer dar um passeio. Assim, do nada? Era como se tivesse algo a me dizer que não dizia. Quis perguntar isso a ele, mas me contive. Sentamos lá em silêncio em meio ao barulho da cachoeira por um momento. O momento se tornou uma hora. Nem eu nem ele diziam palavra. Foi quando ouvimos a voz de Anderson gritando no meio do mato, &lt;em&gt;""sêo" Danilo! Oh, "sêo" Danilo, está perdido ainda?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para o ferreiro e o ferreiro olhou para mim. Ele arregalou os olhos para mim e fez menção de se levantar. Eu o puxei para a pedra e ele viu ele mesmo aparecer na nossa frente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Caipora ficou embaraçado ao ver que era o menino quem estava presente em vez de "sêo" Danilo. Procurou em volta, me deu umas folhas e disse que eu esfregasse nos olhos do menino quando ele se fosse. Me disse novamente que meus cabelos ficariam bonitos presos. E se foi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson continuava com os olhos arregalados na mesma direção em que o Caipora estava. Esfreguei nos olhos dele as folhas que o Caipora tinha me dado. Anderson voltou a si e seus olhos voltaram ao tamanho normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que aconteceu aqui, D. Stella?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nada&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, tentei, mas não fui casual o bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que quer dizer com nada? Ouvi minha voz no meio do mato, chamando o "sêo" Danilo, depois me vi na frente da gente falando com a gente. Era isso o seu nada?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você quer mesmo saber o que aconteceu?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quero, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você tem certeza de que você quer mesmo saber o que aconteceu?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tenho, D. Stella"&lt;/em&gt;, ele estava ficando impaciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O Caipora usou a sua voz e sua imagem para nos contatar. Fez isso comigo e "sêo" Danilo ontem no mato."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei tudo a ele, do pacto com os cigarros e tudo e de como "sêo" Danilo fumou com a entidade dentro da mata. Anderson empalideceu e parecia gelado enquanto me ouvia. Ele estremeceu, tomado por calafrios. Bem que "sêo" Danilo me advertiu contra contar a história, principalmente ao Anderson, mas no caso não tive muita alternativa. A criatura acabou escancarando o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, quis porque quis saber, é isso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toquei em Anderson. Ele estava gelado como um lagarto. Estremecia de cima a baixo. Levou uma hora ou mais para que ele pudesse se recuperar. Quando ele parecia melhor, eu o levei até em casa. Acabei oferecendo água, mas desta vez foi ele quem não quis. Ele se foi em seu cavalo, olhando para trás, como se temesse estar sendo seguido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;Q&lt;/span&gt;uando à noite eu contei ao "sêo" Danilo o que aconteceu, ele pôs as mãos na cabeça, &lt;em&gt;"mas ele parecia melhor quando foi embora?"&lt;/em&gt;, e eu disse que sim. Ele pareceu mais tranquilo quando eu disse isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não teve jeito de esconder, "sêo" Danilo, o menino viu tudo na frente dele como cinema."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu sei que não foi sua culpa, "sá" Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi como se na verdade ele não estivesse procurando o senhor de fato. Como se ele tivesse passado por ali só para me dizer que meus cabelos ficam mais bonitos presos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele lhe disse isso outra vez, foi?"&lt;/em&gt;, ele se quedou pensativo, &lt;em&gt;"a senhora recebeu isso duas vezes dele em dois dias diferentes. Ou ele está com uma vontade danada de lhe ajudar ou ele está recebendo instruções de alguém mais para lhe procurar nas matas e lhe dizer isso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E quem poderia ser?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Poderia ser alguém que a senhora ajudou recentemente"&lt;/em&gt;, tornou ele, &lt;em&gt;"pense bem nisso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite estava bonita lá fora. Coloquei café na garrafa térmica e convidei "sêo" Danilo para ir olhar o céu. Nos sentamos na frente da casa e ficamos em silêncio olhando as estrelas. Eu pensava em toda essa história da entidade agora cismar com meus cabelos. O que quer que ele estivesse me dizendo vinha parecendo repetitivo demais para não ser simbólico. Lembrei que eu mesma tinha até comparado aquela planta a um cacho de cabelos. Era comum comparar-se a estrutura dos cabelos com aquela da vegetação. O que havia? Seria esse o simbolismo? "Sêo" Danilo me ouvia sério e pouco comentava meu fluxo de pensamentos. A noite seguia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-8924691319924216271?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/8924691319924216271/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/terceira-visita.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/8924691319924216271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/8924691319924216271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/terceira-visita.html' title='Terceira visita'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4421589568838037484</id><published>2009-07-19T15:24:00.006-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.313-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Caipora</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;B&lt;/span&gt;riguei com Arthur na porta de casa hoje. Perguntei como ele ousava proibir as pessoas de festejarem um aniversário. Ele respondeu que aquilo tinha de ser castigo, não piquenique. Eu o repreendi severamente, nos moldes de "sêo" Danilo e disse que ele estava abusando de sua autoridade. Ele nada respondeu, mas ficou me olhando emburrado enquanto eu me afastava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao voltar, encontrei Arthur caído no sol, ao lado da cerca. Corri até ele e tentei reanimar o menino, mas ele não parecia responder. Eu o levei até em casa, e ele acabou voltando a si no sofá. Estava confuso e desorientado e tentou levantar. Eu o sentei de volta no sofá e lhe trouxe água. Perguntei se ele tinha saído de casa sem comer. Ele disse que sim. Perguntei por que ele tinha saído de casa sem comer. Ele disse que queria desmaiar e ver se eu o socorria e como eu o iria socorrer. Era apenas uma pestinha nojenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o levei até a mesa da cozinha e dei café da manhã a ele. Não que ele merecesse, mas eu vinha sendo bem dura com ele. O suor frio do menino era algo como hipoglicemia ou pressão baixa. Às vezes tenho essas coisas e sei que frequentemente se precisa de ajuda uma hora dessas. Ele mordia e mastigava as broas de milho e os pães de queijo até ficar ofegante, completamente sem fôlego. Eu o fiz comer mais devagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pareceu não ter palavras para agradecer quando guardou a tesoura e montou em seu cavalo. Desapareceu pela estradinha e me deixou com a certeza de que tinha passado por mais um teste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;C&lt;/span&gt;ontei a história de Arthur a "sêo" Danilo e ele apenas sorriu. Disse que os extremos a que os meninos podiam chegar de vez em quando eram realmente extremos, e acabou rindo. Fez um paralelo com a história de Arthur sendo jogado para fora do cavalo, paralelo com o qual eu tive de concordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi um volume no bolso de sua camisa e perguntei a ele se tinha realmente comprado os cigarros. Ele sorriu e me mostrou o maço de Souza Paiol que ele tinha comprado no Souza. Mineiro até a última, brinquei. Souza Paiol eram cigarros de palha mineiros manufaturados em fábrica, com dois anéis que seguravam a palha enrolada. Perguntei a ele se estava indo para a floresta para tentar o contato. Ele disse que sim. Perguntei se poderia ir junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E a senhora não tem medo não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tenho, mas a curiosidade é maior."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu e disse que eu poderia ir se quisesse. Mas disse que se eu fosse teria de seguir para a floresta agora, &lt;em&gt;"o Sol não demora a encostar no horizonte, se vai, vamos agora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;O&lt;/span&gt; Sol ia bem baixo quando retornamos àquele ponto da mata, seguindo pela trilha que nos trazia desde a estrada de terra lá fora. Paramos no mesmo lugar e nos sentamos. Ele tirou do bolso o maço de Souza Paiol, tirou de dentro um cigarro e o acendeu. Ficamos em silêncio, enquanto ele fumava. Ele não tinha fumado mais que a metade quando um assobio distante se fez ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Lá vem ele"&lt;/em&gt;, disse o sertanejo calmamente entre um trago e outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Preciso fechar os olhos ou coisa assim?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não. A senhora provavelmente conhece quem vem vindo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu conheço?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, é ele, mas usando uma forma que a senhora conhece bem."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo! Tá perdido aqui de novo?"&lt;/em&gt;, era a voz de Anderson novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Perdido eu vou ficar se seguir a sua voz"&lt;/em&gt;, respondeu "sêo" Danilo, piscando para mim como se falasse à distância com um velho amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mato vinha estalando. O estalido crescia mais e mais vindo para a clareira. Quando ele surgiu em nosso campo de visão, era o próprio Anderson, em suas roupas de passeio. Ele olhou para mim e para "sêo" Danilo e se sentou no chão junto conosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Resolveu trazer cigarro?"&lt;/em&gt;, e ele sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo tirou um cigarro do maço e ofereceu a ele. Ele acendeu na brasa do cigarro de "sêo" Danilo e fumou com ele. "Sêo" Danilo já estava em seu terceiro cigarro. Houve uma pausa. "Anderson" olhou para mim e me reverenciou como a Criadora de Taurinos e de todo o seu entorno. Fiquei embaraçada, mas aproveitei a oportunidade para falar com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora tem poder que desconhece. A senhora ficaria bonita de cabelos presos."&lt;/em&gt;, foram as duas únicas coisas que ele me disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se foi e levou o maço embora. "Sêo" Danilo e eu ainda nos deixamos ficar ali mais um pouco. Estávamos em silêncio, mas compreendendo tudo ao redor. Ou quase tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que acha que ele me disse isso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que ele tem boas dicas para dar. E se uma criatura da floresta como ele deu essa dica, a senhora deve aproveitar. Pense a respeito do que ele disse."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4421589568838037484?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4421589568838037484/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/caipora.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4421589568838037484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4421589568838037484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/caipora.html' title='Caipora'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4595090847770268939</id><published>2009-07-18T21:50:00.007-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.314-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Demanda</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;nderson passou hoje em casa a cavalo. Perguntou como estavam Andrés e Renan e eu disse a ele que ele tinha batido na casa errada. Eu o direcionei para a fazenda Taurinos onde o Conselheiro morava antes do início desta confusão, onde poderia ter informações mais detalhadas; ele parecia um forasteiro que estivesse entrando na cidade pela primeira vez em sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora me arranja um copo d'água?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, já disse que enquanto seu parceiro e Andrés não puderem entrar, nenhum dos meninos entra, bebe água ou o que quer que seja em minha casa. E não vou ficar repetindo isso, porque não sou gravador."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas D. Stella, não tenho nada a ver com essa estória&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nem eu, e olhe o que fizeram comigo e com a minha casa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ais à tarde, a clássica visita de "sêo" Danilo e eu queria saber sobre a festinha no meio do mato. Ele disse que os meninos ficaram contentes em receber a visita de todos, mas que estavam em condições cada vez piores. Renan chegava a ter sangue tirado por mosquitos. A abertura era tão grande que deixava escorrer um filete de sangue de dentro da ferida. Não bem recuperado do incidente com o sino que drenou muito de sua energia, agora era isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se a senhora não conseguir descobrir rápido o que aconteceu lá no Santuário, não sei&amp;hellip; Nossa, dá dó ver os dois daquele jeito&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até "sêo" Danilo, a seu modo, me pressionava. Uma sombra passou rapidamente por mim, de puro desalento. Ele me contou que tinha estado de manhã na fazenda Taurinos. Duílio tinha ido à cidade. Arthur passou por lá e tentou repreender Aparecida e a ele por terem ido comemorar o aniversário de Andrés na mata. Como fiel depositário das tradições daqui, ele disse ao Arthur que ele não tinha qualquer direito de impedir a família de celebrar o aniversário de um de seus membros. Fiquei revoltada com a atitude de Arthur e parabenizei "sêo" Danilo pela sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele teve sorte de "sêo" Duílio não estar lá. Ia dar pano pra manga."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor tem muita temperança; se eu estivesse lá, eu tinha gritado com ele. Aliás, quando eu o vir aqui, ele vai ter que ter uma boa conversa comigo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas vá devagar, "sá" Stella, não vamos complicar ainda mais as coisas&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E homem que pede cigarros? Apareceu novamente?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu e disse que não, pelo menos não naquela noite e não no Santuário. Perguntei se ele entrava no Santuário. Ele disse que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor já pensou em voltar até aquele trecho da mata e levar um maço de cigarros para ele?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele empalideceu. Eu nunca o tinha visto pálido assim antes. Perguntei a ele o que havia de assustador na ideia. Ele disse que se fizesse isso, voltaria a fumar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Assim, automaticamente?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Talvez."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me falou que teria de ficar naquele trecho de mata e fumar pelo menos três cigarros; o homem apareceria e ele lhe ofereceria os cigarros e fumaria e conversaria com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas não é melhor voltar a fumar e tentar manter um consumo mínimo do que ficar sendo assombrado na mata e até em casa?"&lt;/em&gt;, eu tentava analisar a relação custo-benefício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parou por um longo tempo, em que só se ouviam os sons da tarde, os mugidos e latidos ao longe, as galinhas e galos distantes, pássaros em suas eternas &lt;em&gt;jam sessions&lt;/em&gt;, o todo. Finalmente, ele declarou que não queria mesmo voltar a fumar. Achei que estava fazendo mal a ele aconselhando-o a voltar a fumar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E se só fumar os cigarros do ritual?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, não sei, tenho medo de gostar de novo e voltar a fumar que nem louco outra vez. Aí é que está."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu afirmei que se havia pelo menos uma chance disso não acontecer, que valeria a pena tentar. Ele teve de concordar. Nosso olhar se voltou sobre a planta. O meu porque eu tinha de estudar a planta até cair, o dele por ter sido atraído pelo meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não aguento mais olhar essa planta. Não entendo em que ela possa resolver isso, "sêo" Danilo, simplesmente não entendo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu andava numa pilha de nervos só. A notícia de Arthur tentando repreender o pessoal da Taurinos e "sêo" Danilo me deixava ainda mais nervosa e zangada, se somando a toda a frustração por tudo o que vinha acontecendo e o estado dos meninos lá no Santuário. O sertanejo sorriu bondosamente como um sábio chinês. Falou que certas coisas levavam tempo, mesmo estando debaixo de nosso nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu já sei o que aconteceu no Santuário"&lt;/em&gt;, ele declarou, me deixando atônita, &lt;em&gt;"refiz seus passos mesmo no escuro, passei por ali de vários modos e vi que o que lhe aconteceu lá me aconteceu também. Mostrei aos meninos e às famílias o que era."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, o que foi???"&lt;/em&gt;, eu não podia esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não posso lhe dizer ou eu anulo a demanda. O Jardineiro Celeste criaria outra demanda, muito pior. Só a senhora tem o poder de resolver a demanda sem anular. Se a senhora disser tem validade e a demanda deixa de existir. Se eu ou qualquer outra pessoa disser, a demanda vai ser anulada e vai se tornar outra. Creio em Deus padre."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas como eles saberiam que o senhor me deu a solução?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Saberiam porque veriam que a demanda foi anulada, D. Stella. Não iam me ver dando a solução para a senhora, mas os sinais de que a demanda foi anulada seriam claros para eles. Há até o perigo dos meninos ficarem para sempre no Santuário."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que coisa horrível!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo urgia algo dentro de mim. Um senso de responsabilidade extrema por dois meninos que eu nem conhecia no início do ano. Agora todos sabiam o que era, menos eu. Recordei novamente quando me fizeram tentar lembrar da cerimônia em março. Sem dúvida, a situação era a mesma. E eu recordo o quanto tempo levei para lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo disse que ia embora. Que ia até a cidade comprar cigarros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4595090847770268939?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4595090847770268939/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/demanda.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4595090847770268939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4595090847770268939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/demanda.html' title='Demanda'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-2754223152399334349</id><published>2009-07-17T12:41:00.005-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.314-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Queria que estivesses aqui</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;eu jardineiro e sua (leia-se minha) tesoura de grama estavam em ação no meu jardim. Se é que posso chamar esse deserto em torno de minha casa de jardim. Estava pegando neurose desse barulho, mesmo de longe. Entrava pela janela, mesmo com ela fechada, vinha varando tudo e me enchendo muito o saco. Ele tinha dito que vinha três vezes por semana, mas acho que reviu suas metas. Pior para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhei com Renan e Andrés esta noite. Brigaram até no meu sonho os pestinhas. Ainda procurava compreender a linha que separa o sonho da realidade aqui em Taurinos. Os meninos e "sêo" Danilo tentavam em vão me convencer de que esta linha simplesmente não existia. Não que eu estivesse em posição de não acreditar ou discordar. Mas era incompreensível para mim. Se eu fosse como uma dessas criaturinhas seria mais fácil. Mas as criaturinhas mesmo não dão mole. Às vezes penso que eles não têm as palavras para explicar. Mas, pensando bem, quem tem afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E essa planta em minha frente, a esfinge perfeita. Sonho com ela nos intervalos de outros sonhos, suas espirais, como cachos de cabelos. O que há nessa planta, afinal? Ou no local onde ela fica? Qual o grande mistério por trás de toda essa loucura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;À&lt;/span&gt; tardinha, "sêo" Danilo apareceu para um café e para variar, me encontrou imersa na contemplação da planta. Ele relatou encontros estranhos durante a noite. Perguntei se o homem tinha ido até a casa dele pedir cigarros. Ele disse que tinha ido, mas não para pedir cigarros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Meu Deus, o que foi que ele fez?"&lt;/em&gt;, fiquei assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ficou só de longe, me chamando com a sua voz."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A minha voz???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, ele usa uma que a gente conheça, de preferência de um amigo nosso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por isso usou a voz do Anderson quando nos encontrou na mata ontem."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Exatamente. Se ele usasse a dele, a senhora provavelmente morreria de susto ou no mínimo não ia entender nada do que ele disse. Parecia estar chamando de algum ponto da estrada, o que a senhora jamais faria. Outro ponto é que se algo lhe chama para fora de onde está é porque não pode entrar, então o remédio é simplesmente não sair."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas será que ele vai ficar aparecendo? A Polícia&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A Polícia não tem nada a ver com isso, só lida com os forasteiros, com os basiliscos. Essa entidade é daqui, não pode ser tocada pela Polícia. Talvez até por isso tivesse usado a voz do Anderson. Parece ser uma entidade bastante gaiata. Mas, respondendo a sua pergunta, não sei se apareceu o bastante ou se vai continuar a aparecer. Pensei que estava livre dele, mas não volto mais naquela parte da floresta."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comentei como tudo o que nos cercava no momento estava tão impregnado de natureza, seres da natureza, todo o esquema da planta, matas, o Jardineiro Celeste. "Sêo" Danilo pediu que eu não comentasse com o Anderson que a entidade tinha usado a voz dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Porque o Anderson tem medo dessas coisas, pode achar que está vindo pra cima dele também."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor só pode estar brincando, o Anderson ter medo dessas coisas, logo o único membro da Polícia Obscura atuante no momento???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pois é. Uma assombraçãozinha com medo de uma assombraçãozona. Mas que assombraçãozinha também, eh?"&lt;/em&gt;, e ele riu de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou sério e perguntou se eu tinha passado na Taurinos. Disse que era aniversário de Andrés hoje. A família tinha pensado em comemorar, mas isso antes do incidente; agora comemorar o que, com o menino preso dentro do Santuário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos até a Taurinos e encontramos o casal abraçado. Adriano estava sentado na sala também, olhos fixos na janela, distantes. Aparecida chorava, &lt;em&gt;"eu queria tanto que ele estivesse aqui. Ia fazer um bolo de morango que é o favorito dele. Meu Astro Rei, ele está com aquela outra criança no meio do mato a essas horas&amp;hellip; Sabe Mitra quando vão poder sair de lá. A senhora precisa ajudar, D. Stella&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me abraçou desesperada e eu me senti em dívida com aquela pobre mulher. Me senti culpada por simplesmente estar ali quando deveria estar fanaticamente olhando aquela planta bonita e imbecil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles me disseram que estavam saindo com os Teixeiras para levar a eles algumas coisas que os dois mais gostassem de comer e fazer uma festinha de aniversário em meio ao mato à noite. Eles não podiam acampar no Santuário como os dois, mas podiam ficar quanto tempo quisessem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;m casa outra vez, eu e "sêo" Danilo ficamos conversando sobre o que eu já tinha observado. "Sêo" Danilo concordou que Arthur tinha me colocado numa posição delicada diante das pessoas mais próximas de mim na cidade: Aparecida, Duílio, Donana e "sêo" Octávio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele pagou o bem com o mal"&lt;/em&gt;, eu disse e ele me comentou que essa era a &lt;b&gt;minha&lt;/b&gt; ideia de bem e de mal e poderia não ser necessariamente a do Jardineiro Celeste. Mas que reconhecia que a ajuda dele tinha causado mais prejuízo a mim que a minha a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse que estava triste pelo fato de ver uma família ir para o meio da floresta para celebrar o aniversário de alguém que não pode sair de lá. Ele disse que podia ser triste, mas era bonito ver os pais se mobilizarem para levar um pouco de conforto aos filhos numa situação crítica como essa. Tive que concordar. Ele disse que sairia dentro de mais alguns minutos para ir à festinha. Eu fiquei contente ao saber e o encorajei a ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-2754223152399334349?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/2754223152399334349/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/queria-que-estivesses-aqui.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2754223152399334349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2754223152399334349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/queria-que-estivesses-aqui.html' title='Queria que estivesses aqui'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-413549552870937713</id><published>2009-07-16T13:33:00.006-03:00</published><updated>2011-02-04T20:16:36.314-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Cigarros</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u levo a planta para todos os lugares que vou dentro de casa. Sempre havia um lugar separado para que eu pudesse por a planta e me perder em seus mistérios. A bola estava comigo. Os meninos dependiam de mim. A ajuda que prestei ao Arthur anteontem foi revertida em responsabilidade para mim. Eu, que entrei de gaiata nessa história. Os meninos nunca mais me levariam a lugar nenhum sem que eu perguntasse antes ao "sêo" Danilo se era seguro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som da tesoura de grama lá fora me distrai da contemplação da planta. Olho pela janela e lá está meu jardineiro que tenho de aturar até o fim dessa merda toda. Tomei café tranquila hoje, nada de meninos em jardineiras azuis me pedindo isso ou aquilo. Arthur já tinha percebido que não adiantaria me pedir nada a não ser a tesoura de grama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei por ele indo para a Taurinos e ele me deu bom-dia com aquele sorriso luminoso que parecia final de anúncio de pasta de dente. Não lhe dei confiança. Me afastei enquanto o som da tesoura de grama ia sumindo na distância de um quilômetro e mais que me separava da fazenda Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;parecida me disse que a temporada no Santuário mal começou e os dois já brigaram. De olho roxo e tudo. Ela achava que talvez fosse o estresse. Eu achava que talvez fosse uma rixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Fui lá levar comida para eles, estamos revezando, nós e os Teixeiras"&lt;/em&gt;, ela explicava, &lt;em&gt;"Andrés disse que o Renan chora a noite inteira quase, que judiação&amp;hellip; Eu fico com o coração apertado, mas o que fazer? Eles são duas pestinhas mesmo, tem como ficar livres dessas encrencas?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duílio disse que eles já estão bexiguentos de tanta marca de mosquito e ficam ainda mais estressados com isso. Lembro deles terem dito que por causa do sino todos os animais estavam buscando refúgio ali. Isso incluía mosquitos, moscas, lagartos e cobras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os dois perguntaram como a senhora está, D. Stella. Contei o que eu sei que tem acontecido por aqui e eles já sabem que a senhora tem que se lembrar do que aconteceu. Andrés até lembrou da vez em que a senhora não conseguia lembrar da sua parte na cerimônia e ele ficou desanimado que só. Me deu uma pena danada do meu caçulinha, mas também me deu uma vontade danada de tirar sangue dele com a cinta."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fosse ele o bom e velho Duílio e suas propostas para uma educação melhor. Vou recomendar Duílio como pedagogo numa escola Waldorf. Seria um grande avanço para ele, mas com certeza um tremendo retrocesso para a pobre Waldorf (que inclusive nem tem nada a ver com isso).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duílio disse que estranhou que o mesmo efeito que se produziu em nossas casas não se reproduzia em todos os lugares. Segundo ele, tudo estava calmo, não havia uma atmosfera geral de conflito dentro da cidade, como no tempo do Grande Um na Lei dos Touros, ou o problema de Tinnitus ou mesmo a minha volta para Taurinos, verdadeiro marco zero para a cidade. Era como se o problema estivesse restrito ao Conselho desta vez. Ouviam-se comentários na rua, mas não era nem de longe frequente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que ele tinha razão. Não que eu estivesse indo muito à cidade ultimamente, mas realmente não se sentia a mesma atmosfera estranha em todos os lugares. Os lugares por onde passei na noite em que ajudei Arthur não pareciam ter nada diferente do que normalmente tinham. O conflito parecia estranhamente ser mais regional do que geral, embora a questão da reserva biológica fosse séria e passível de afetar a toda a comunidade taurinense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Fico me perguntando qual a do Bruno nessa história. Essa questão do aniversário dele. Outra pergunta daquelas que vão ficar sem resposta?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu fazia esses questionamentos na frente deles, nunca sabia o quanto o casal conhecia do organograma das instituições locais. Aparecida fazia salgadinhos e guloseimas para reuniões da turma da Câmara Externa da Sociedade Antiga dos Taurinos, que era nada mais que um clube social afeito a torneios de tranca e de truco, como se fosse um Rotary Club local. No entanto, ignorava a multiplicidade de instâncias, instituições dentro da Sociedade. Ela fazia o sinal-da-cruz quando ouvia falar na Polícia Obscura (bom, até aí morreu o Neves) e coisas do gênero. Sempre me achou completamente louca, sei que gosta de mim como amiga, mas sempre me achou louca varrida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt; "sêo" Danilo apareceu à tarde. Eu estava estudando aquela maldita planta quando ele pediu licença e entrou. Ficamos tomando café, comendo pão de queijo e olhando a planta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não larga essa planta desde a reunião do Conselho. Precisa sair um pouco. Ar livre é bom também, faz pensar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu tenho que olhar a planta, "sêo" Danilo, não dá pra ficar pensando em sair com os dois presos dentro do Santuário. Agora, a bomba toda ficou na minha mão, como quando eu tive que me lembrar daquela cerimônia na Lei dos Touros, não?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas precisa relaxar um pouco, de cabeça quente não se pensa nada direito, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, ele insistiu, &lt;em&gt;"conheço um lugar bonito que nem o Santuário, e que não tem problema nenhum de ir."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei que Aparecida tinha mesmo me dito que ele conhecia muitos lugares bonitos aqui. Mas eu me via obrigada a olhar aquela planta idiota até que minha memória começasse a doer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É só uma volta, depois a senhora olha mais um pouco. De vez em quando tem que parar, senão que adianta, perde toda a atenção. Vai ver como pelo menos vai estar mais relaxada quando voltar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;e longe, se ouvia o ruído do curso d'água passando por dentro da mata. Caminhamos um bom trecho para chegar até aqui. Esse curso, segundo "sêo" Danilo vinha de lá do Santuário que era a origem de toda a água da cidade. Toda a água saía das torneiras de Taurinos vinda de lá, sem cloro ou outras porcarias modernas de tratamento. Água pura da montanha em seu estágio mais puro e virginal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por isso eu não posso deixar de dar razão ao Jardineiro Celeste, se deixar essa água se contaminar, que vai ser de nós aqui?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei em silêncio, pensando que eu era a própria fonte de contaminação da cidade. A sensação de se ser um ser sujo. Um elemento contaminante de alta letalidade. Afastei o pensamento que me atormentava e que talvez me fizesse alguém muito diferente do que eu era quando cheguei a Taurinos. Me pego pensando, que como na canção mineira, nada seria como antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar era mesmo deslumbrante, quase como o Santuário, mas sem toda aquela majestade. As libélulas eram curiosas como da outra vez, suas cores tão vibrantes quanto. As borboletas passavam em voos graciosos e cores inimagináveis. Flores maravilhosas, orquídeas, bromélias, toda uma riqueza natural que custava a crer num lugar tão dominado pelo cerrado, ambiente mais rústico, mas igualmente belo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos sentamos e ficamos conversando. Ele disse que achava que a proposta do Jardineiro Celeste visava despistar. Se somente eu poderia ajudar os dois, isso visava fazer com que eles parassem de procurar e aguardassem até que eu dissesse onde estava? Ou eles acabariam procurando também e com isso ganhariam tempo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não queria nem pensar nisso. Apenas em que eu tinha o abacaxi nas mãos para descascar. Ficamos em silêncio por algum tempo, até que os sons da mata foram se acalmando de uma forma gradual e inesperada. Eu ia fazer um comentário a respeito, mas "sêo" Danilo me pediu que eu ficasse quieta e escutasse com atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um assobio. Agudíssimo, distante, mas dentro da mata. Depois, o silêncio. Nada. O sertanejo olhou para mim e novamente pediu silêncio. Um outro assobio, mais próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que pássaro é esse?"&lt;/em&gt;, perguntei, encafifada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso não é pássaro, "sá" Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que pode ser então?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Muita coisa e nada muito interessante"&lt;/em&gt;, ele disse, apurando o ouvido e olhando em torno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro assobio mais próximo se fez ouvir. Parecia indicar uma direção. Comecei a procurar a origem do som. Me afastei de "sêo" Danilo e comecei a andar em volta. Ele me disse que talvez fosse melhor que fossemos embora ou para um outro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, a gente poderia ir ver o que é. O senhor tem certeza de que não é um pássaro? Então é um saci assobiando? Curupira?"&lt;/em&gt;, eu ri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou sério. Não gosto quando ele olha assim. Dá impressão de encrenca por perto. Ele disse que esses eram nomes que o povo dava para uma série de entidades que viviam na floresta. E que eles apareciam conforme as pessoas imaginavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Curupira quando aparece nas matas é um menino de pés virados para trás. Então quem segue o rastro dele está na direção oposta a dele e fatalmente vai se perder na floresta. Às vezes, aparece montado num veado segurando uma vara de japecanga, que é uma planta medicinal depurativa do sangue e diurética&amp;hellip; Escute!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro assobio mais próximo ainda se fez ouvir. Ele sugeriu que começássemos a voltar quando ouvimos a voz de Anderson dentro da mata, &lt;em&gt;""sêo" Danilo! Tá perdido aí?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei aliviada. Era apenas o Anderson. Como teria nos encontrado aqui? Ele saberia da predileção de "sêo" Danilo pelo lugar? O próprio "sêo" Danilo me respondeu a pergunta, &lt;em&gt;"como é que o Anderson sabia que a gente ia estar aqui? E o que é que quer o Anderson pra esse lado de Taurinos? Hoje é quinta-feira, Anderson tá trabalhando a essas horas na loja dele, "sá" Stella!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo! Tá perdido aí? Por aqui, "sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;, a voz gritava na distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora consegue distinguir de que lado está vindo a voz?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava nervosa. Não tinha parado para pensar que até isso poderia acontecer. Coisa que se esquece nas aulas do primário sobre folclore, peças que você achava pertencerem a um museu da cultura popular de repente ganham vida no meio de uma mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Dali. Não foi dali que viemos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não sei mais, "sá" Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas o senhor é mateiro, como pode ter esquecido de que lado viemos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A mata fechou em círculo, "sá" Stella. Como eu disse que aconteceria se os meninos tentassem fugir do Santuário, lembra? Está acontecendo com a gente agora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo! Por aqui, "sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;, a voz gritava agora mais próxima. Achei que vinha de trás de nós e disse isso a ele. Ele então me puxou para que fossemos os dois na direção oposta a do som. Outro assobio fortíssimo se fez ouvir. O silêncio era angustiante, só era quebrado pelo som de nossa voz, da outra, pelos assobios e pelos nossos passos sobre as folhas secas no caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que reconheço essa árvore&amp;hellip; já não passamos por aqui?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, me pareceu que era a segunda vez que passávamos por ali. Ele tinha razão. estávamos andando em círculos. Comecei a querer entrar em pânico. O medo ancestral de se estar perdido em uma floresta me dominou. "Sêo" Danilo me disse que nós tínhamos de pensar com a cabeça, não com nosso medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo! Por aqui, "sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;, a voz gritava agora mais próxima e agora parecia vir da frente. Meu Deus, parecia vir de qualquer lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo pediu que nós nos sentássemos e rezássemos. Perguntei a ele que perigo tão grande poderia se aproximar e nos por rezando no meio de uma floresta. Ele disse que a reza afastava as más influências desde que a ajudássemos com a força da imaginação. Imaginar por exemplo que as vozes e assobios cessam e que o caminho se abre para sair da floresta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que rezávamos a voz de Anderson chamava, cada vez mais perto, alternando com os assobios. Em dado momento, o assobio e a voz pareciam vir de direções opostas, mas em comum se aproximavam cada vez mais, vindo diretamente para a clareira onde nos encontrávamos. A reza não pareceu adiantar. O sertanejo então disse que eu fechasse os olhos e não olhasse, e não deixasse à vista as minhas unhas, não importava o que acontecesse. Disse que não era como na Polícia Obscura, que eu não tentasse olhar de jeito nenhum. Assim ficamos enquanto a voz e o assobio se aproximavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso levou uma eternidade angustiante. Tentei dizer algo, mas "sêo" Danilo chiou, me impedindo de falar. Ouvimos o som do mato estalando na trilha que vinha para cá. Fosse o que fosse, já estava em cima. Não poder ver me angustiava mais que tudo. A ignorância das trevas momentâneas dos meus olhos cerrados. Os passos pararam do nosso lado. Houve um silêncio mortal, quase que um minuto dele enquanto estávamos sentados ali, de olhos fechados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo, "sêo" Danilo&amp;hellip; Passeando. Fazendo uma higiene mental, não é? De olhos bem fechados&amp;hellip; Pois é, o senhor é que sabe das coisas. Sabe que tem que ficar de olhos bem fechados porque senão eu assusto. O senhor sabe bem o quanto de coisa tem nessas florestas daqui. O senhor sabe. Agora o senhor espera mais um pouco e abre seus olhos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso levou mais uma eternidade angustiante. Houve um outro silêncio mortal, até que os sons da mata começaram a voltar ao nosso campo de audição, mas como que vindos de uma direção diferente. A luz começou a aumentar e uma sensação de calor também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Abre os olhos, "sá" Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já posso?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pode, não tenha medo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri os olhos e estávamos sentados na estrada de terra principal, em frente à trilha que levava ao trecho de floresta onde tínhamos estado poucos instantes atrás. Que viagem para uma tarde. "Sêo" Danilo se ergueu e me ajudou a fazer o mesmo. Pareceu disposto a sair dali o mais rapidamente possível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"No inverno"&lt;/em&gt;, ele explicou, &lt;em&gt;"os dias são curtos, a noite pode nos surpreender ainda aqui nessa região e aí a gente nunca sabe."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto caminhávamos, perguntei a ele sobre o incidente. Ele pediu que esperássemos até que nos pudéssemos estar um pouco mais distantes dali. Noto que, como Renan, ele não parecia disposto a comentar as coisas acontecidas quando acabavam de acontecer, como se houvesse radiação ainda ali, com potencial para causar dano ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito tempo depois quando já não estávamos muito longe de minha casa, ele me contou que muito tempo atrás ele fumava e que estava naquele trecho de mata fumando um cigarro de palha, quando um homem que ele nunca tinha visto na cidade entrou na clareira e lhe pediu um cigarro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse que sabia quem era o homem, mesmo sem nunca tê-lo visto antes. Sabia o que a aparição dele ali do nada no meio da mata e o pedido de cigarro significavam. Ele disse que não tinha o cigarro, só o que estava fumando. Ofereceu uns tragos ao homem, mas quando olhou novamente era uma coisa tão medonha que o deixou cego por uns minutos. O homem mandou que ele fosse embora daquela mata e não aparecesse por muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele sabia seu nome direitinho, "sêo" Danilo, era ele ali na mata?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Era"&lt;/em&gt;, o sertanejo confirmou quando chegávamos ao alpendre de minha casa. Fiz café e conversamos um pouco mais. Fui até a sala acender a luz do alpendre. A noite caía com sua manta de breu lá fora. A planta estava ali na cozinha, quieta como sempre, prenhe de mistérios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quando foi que isso lhe aconteceu?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que aconteceu?"&lt;/em&gt;, ele tentou recapitular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A história do cigarro."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, sim, eu tinha uns trinta e poucos anos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nossa, e ele tem uma memória, eh? Tantos anos e não esqueceu."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou em silêncio. E eu o segui. Houve uma pausa enorme, só os sons da noite em volta da casa se ouviam. Fiquei olhando a planta e o mundo de coisas que ela sugeria. Eu estava pensando mais do que tudo em que olhar essa planta ajudaria no que quer que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-413549552870937713?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/413549552870937713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/cigarros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/413549552870937713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/413549552870937713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/cigarros.html' title='Cigarros'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-454259435220002728</id><published>2009-07-15T16:30:00.004-03:00</published><updated>2010-12-23T18:20:30.363-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Ajuda</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ithraeum. Arthur era o Oficiante do dia. Adriano foi um dos que mais falou durante a reunião. Falou demais e não disse nada. "Sêo" Danilo não disse uma palavra, mas trazia principalmente Bruno no olho todo o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu peço aos irmãos que não prolonguem a reunião desnecessariamente"&lt;/em&gt;, disse o Oficiante, com a cara de quem estava ficando entediado, &lt;em&gt;"se um ou dois de vocês puder retirar sua inscrição para falar, os trabalhos pode ser concluídos mais rapidamente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano se acanhou e retirou sua inscrição. Anderson e Guilherme também. O Oficiante então se dirigiu a mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora quer fazer alguma pergunta?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quero perguntar ao Bruno qual o som da voz dele quando ele fala"&lt;/em&gt;, brinquei, fazendo o menino me fulminar discretamente com os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora tem de se manter no tema que está sendo discutido. O Mithraeum hoje não é lugar para conversa informal. A senhora tem alguma coisa a dizer sobre o tema?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nada a dizer, sr. Oficiante."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele prosseguiu, falando para todos os membros da Sociedade Antiga dos Taurinos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ontem, como é do conhecimento de todos, tive um acidente com o cavalo num ermo próximo à cidade. Quero deixar registrado que se não fosse por D. Stella eu ia estar até agora jogado naquela estrada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor não está também fora do tema?"&lt;/em&gt;, eu cutucava o Oficiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sua permissão para falar se esgotou para o momento, D. Stella. Aguarde que uma nova permissão seja concedida, por favor"&lt;/em&gt;, e ele prosseguiu, &lt;em&gt;"todos sabem que o Jardineiro Celeste proibiu D. Stella de ajudar os irmãos Andrés e Renan em qualquer coisa, mesmo sendo dar a eles um copo d'água que seja. Até o momento, ela estava procedendo igualmente para com o Jardineiro Celeste e todos os membros deste Conselho. A única exceção tinha sido "sêo" Danilo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sertanejo olhou para mim e sinalizou levemente para que eu não aceitasse provocações ou coisas do tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ontem ela provou para este Oficiante que sua disposição de pagar ao Jardineiro Celeste na mesma moeda não é tão firme quanto ela quer fazer parecer."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quase me levantei, enfurecida. Vi o sertanejo me sinalizando novamente, nervoso, de onde ele estava. Vi o Bruno observando o movimento dele com atenção. Decidi esperar e ouvir até o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ela andou comigo nas costas por uma légua tirana. Admirei a energia dela; assim como vocês, não sou leve. O cansaço dela me tornou muito mais pesado, tenho certeza disso. Não muita gente faria o que ela fez principalmente depois de saber que a gente pode num estalar de dedos transformar em entulho a casa dela com tudo o que foi construído, por fora e por dentro. Sinto ter estragado o seu passeio, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parecia realmente sentido ao dizer isso. Anderson olhava para mim, todos os outros olhavam para mim, gerando o desconforto de estar no centro da roda. O Oficiante continuou num tom mais tranquilo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E como a senhora me ajudou num momento difícil, o Jardineiro Celeste vai ajudar a senhora também. Ele sabe que a senhora quer mais que tudo ver os dois meninos de volta para casa. Nós queremos também. Também detestamos a ideia de fazer isso com eles, mas eles têm de aprender que existem coisas que não são brinquedo e não estão à disposição dos caprichos deles. Se eles soubessem isso de saída, não precisaríamos estar aqui hoje discutindo esse tema."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fez uma pausa. Silêncio geral. Ninguém se inscreveu para falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles jamais poderiam encontrar o que a senhora deixou lá dentro sem sua ajuda. E é assim que o Jardineiro Celeste vai ajudar a senhora. Por isso eu insisti que o presente tinha de ser aberto. Não somente por ser uma planta. Mas porque o meu presente para a senhora é a solução desse problema todo. Porque é olhando para a planta com atenção que a senhora vai resolver esse problema todo e fazer com que a cidade volte ao normal."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me inscrevi e obtive do sr. Oficiante nova permissão para falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor quer dizer que a solução está na planta?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quero dizer que a solução está na senhora. Observe a planta com atenção, até cair de sono na frente dela, e com certeza vai descobrir. A senhora é inteligente e vai descobrir. Só uma pessoa inteligente e estudada criaria tanta maravilha numa cidade só. Só a senhora pode tirar os dois meninos do Santuário agora. Nós sabemos o que aconteceu e sabemos onde está o que a senhora deixou lá. Mas não somos faxineiros de ninguém. Nada contra os faxineiros, uma profissão honesta e nobre, só que não é esse o nosso ramo. Renan e Andrés criaram essa confusão e só eles, que agora vão poder contar com a sua ajuda, vão poder dar jeito nisso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Oficiante prosseguiu dizendo que assim que eu encontrasse a solução, poderia mandar qualquer pessoa avisar aos dois o que procurar e onde. Os dois trariam o que foi deixado lá eles mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u e "sêo" Danilo ficamos sentados por mais de duas horas em frente à planta. Ele disse que já tinha me falado uma vez que era fácil de localizar aquela planta. Que ela ficava no meio do caminho, quase já no Santuário. Que ele poderia até ir ver o local e até mesmo descobrir o que eu tinha deixado lá, mas que não poderia me dizer, porque era eu quem tinha de descobrir o que tinha acontecido lá dentro. Se ele o dissesse, anularia toda a demanda e talvez desencadeasse coisa pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nó, "sá" Stella, os meninos já estão muito irritados com a senhora; agora a gente vai ter que obedecer o Jardineiro Celeste cegamente"&lt;/em&gt;, disse "sêo" Danilo quase à meia voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas o Renan e o Andrés não podem simplesmente sair de lá?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E eles iam ficar devendo pra comunidade deles? Não, eis têm brio, pode dizer muita coisa dos meninos, mas eis têm brio. A senhora sabe que têm. Outra coisa é que ninguém ia se atrever a guiar eis pra fora e eis mesmos, se tentassem sair sozinhos, iam ficar andando em círculo eternamente tentando sair sem resolver o assunto."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E essa minha fraqueza agora? Sei que o problema foi criado por eles. Mas onde está o meu brio se não os ajudo agora? Pedi desculpas e disse que estava nervosa com tudo aquilo e com o peso que tinha sido colocado em minhas costas. "Sêo" Danilo aproveitou para desenvolver o tema um pouco mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que aconteceu ontem na estrada foi um acidente, mas ao mesmo tempo foi simbólico. Ele fez a senhora carregar ele nas costas por quilômetros para lhe mostrar a responsabilidade que ia ser colocada em suas costas. Quando a senhora aceitou carregar ele, aceitou essa responsabilidade."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas então ele forjou o acidente"&lt;/em&gt;, eu fiquei atônita co a explicação dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim e não"&lt;/em&gt;, ele contestou, &lt;em&gt;"ei intencionou criar uma situação que a obrigasse a ajudar ei, mas acho que não esperava que o cavalo fosse jogar ei na estrada. Agora se parar pra pensar que eis dominam os animais, não sei. Mas tem muito simbolismo nessa noite que a senhora passou carregando ei. Arthur torceu o tornozelo quando caiu, vai ficar um tempinho sem conseguir andar direito. Se era um teste, era um bem real e a senhora fez a única coisa que poderia fazer. Acho até que ei mesmo deve ter percebido que se a senhora visse aquilo como um teste e deixasse  lá, não havia como ninguém saber onde ei estava até que pais dei aparecessem em sua casa procurando ei de verdade e a senhora percebesse que era real."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Citei a história do menino que gritava lobo e ele disse que conhecia como a do menino que gritava cobra. Que eram muitas variantes, mas que a história era sempre a mesma: alarmes falsos provocando uma fatalidade verdadeira mais dia menos dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A planta me fascinava. Achei que era o tipo de coisa que fascinaria um artesão. Era como artesanato surgido espontaneamente no meio da mata. O sertanejo olhava a planta sem muito detalhe; sua familiaridade com as plantas da região explicaria o desinteresse: não era a planta em si que representava algo. Mas algo que havia acontecido no lugar onde ela fica. A planta me fascinava, mas eu precisava tirar aqueles dois do inferno verde ou eles iam voltar mais comidos de mosquitos que o &lt;a target="_blank" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Johan_Dalgas_Frisch" title="Wikipedia, trabalhando para você viver melhor."&gt;Johan Dalgas Frisch&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora se lembra de algo diferente que aconteceu quando vocês estavam passando por ali?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Lembro que o Andrés foi picado por uma formiga preta daquelas doloridas."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sei que tipo é, cabeçuda"&lt;/em&gt;, ele disse, &lt;em&gt;"mas não sei se isso é importante, pelo menos não parece. Que mais a senhora lembra do passeio?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei o passeio a ele e ele ouviu com atenção, mas não abstraiu nada que pudesse ser útil. Chegamos à conclusão de que a solução do problema estava em eu pensar na solução do problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-454259435220002728?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/454259435220002728/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ajuda.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/454259435220002728'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/454259435220002728'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ajuda.html' title='Ajuda'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7834338140016219379</id><published>2009-07-14T02:54:00.016-03:00</published><updated>2010-12-23T18:20:30.363-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Noite de São Cristóvão</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;G&lt;/span&gt;uilherme dirigiu hoje os trabalhos no Mithraeum. Era o Oficiante de hoje, por parte do Jardineiro Celeste. Primeira reunião em que Renan e Andrés estão ausentes. Ficariam no Santuário até que conseguissem achar o que deixei lá, fosse o que fosse. Não era, no entanto, a primeira reunião sem que todos estivessem presentes. Houve a famosa reunião sobre a Polícia Obscura, verdadeira queda-de-braço dos vigilantes daqui, sem a presença de Adriano, ferido em combate com a tenebrosa Polícia encontradiça em Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo já tinha me prevenido que havia chumbo em reserva para mim, especialmente da parte de Arthur. Fiquei olhando para o Bruno, sentado à certa distância, tentando ler o silêncio dele, enquanto o sertanejo falava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele vai reclamar do tratamento que a senhora está dando a ele. Pode ser que ele até guarde isso para si, que eu esteja muito enganado, mas eu acho que ele vai reclamar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não reclamou. Me trouxe no olho a reunião inteira, mas não reclamou. O Oficiante me perguntou se em algum momento algum dos dois tentou avisar de que se tratava de um território interditado para forasteiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não. Eles me levaram até para que eu conhecesse o lugar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Oficiante me perguntou por que eu levei tanto tempo para abrir um presente já tendo avisada de que se tratava de uma planta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur não foi convincente o suficiente no começo"&lt;/em&gt;, respondi displicentemente e sustentei o olhar na direção do Oficiante mesmo com os raios fulminantes que ele me enviou. Arthur também mostrava os dentes. Somente Bruno, enigmática esfinge, permanecia em silêncio. Impassível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, vá com calma, creio em Deus padre"&lt;/em&gt;, sussurrou "sêo" Danilo em meu ouvido. O Oficiante advertiu o sertanejo contra conversas paralelas e ameaçou nos trocar de lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;T&lt;/span&gt;arde ia caindo e eu ainda estava muito longe de casa. Saí, fui andar sem destino pelas estradas de terra depois da reunião no Mithraeum. Andei tanto que praticamente não reconhecia mais o entorno. A luz ainda era boa, mas eu tencionava chegar em casa antes que escurecesse. Não conhecia nada em Taurinos, já tinha até pisado em lugares onde não poderia ter pisado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio daquela tarde era magnífico. Envolvia toda a maravilha do Sol poente como a mais perfeita das trilhas sonoras. Não sentia nem a falta do mp3, o som do começo da noite me absorvia e fascinava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Súbito, ouvi o som de algo caindo e de um cavalo disparando depois da curva que eu tinha à frente. Parei, sem saber o que esperar, depois comecei a avançar mais devagar. Não pude conter meu espanto ao virar a curva: ninguém menos que meu novo jardineiro estava caído na estrada. A julgar pelo som que ouvi, ele caiu do cavalo, que saiu em disparada. Algo que o assustou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive que reanimar o menino, que tinha desmaiado. Ele se abraçou em mim e reclamou que sua perna direita estava doendo muito. Pensei: pronto, quebrou a perna no meio deste ermo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tá doendo demais da conta"&lt;/em&gt;, ele tinha lágrimas de dor nos olhos, &lt;em&gt;"me ajuda, por favor, D. Stella&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se aquilo era um outro teste e ele queria me comover, estava fazendo um trabalho brilhante. Lembrei do celular. Tudo o que tinha a fazer era ligar para os pais dele, descobrir se ele estava em casa e direcioná-los para cá se ele não estivesse. Mas onde estava meu celular quando eu mais precisava dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Merda. Eu o tinha deixado em casa, em minha bolsa. &lt;em&gt;"Nunca mais saio sem ela"&lt;/em&gt;, pensei, frustrada e já sem saber o que fazer. Me soltei do abraço dele e fiquei olhando aquela coisinha rechonchuda caída no chão. Não vestia a jardineira azul, era mais como algo casual. Ele fechava os olhos e as lágrimas rolavam sem controle. Aquilo não podia ser uma farsa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não vai me deixar aqui, vai?"&lt;/em&gt;, a voz era chorosa, desalentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As últimas luzes da tarde já se adiantavam, escorrendo para o horizonte como água que escorre para o ralo do tempo. Eu pensava que minha intenção de chegar em casa antes do escurecer tinha sofrido um abalo. Sem o celular, não teria como avisar ninguém de onde estávamos. Sem um carro e com o menino sem poder caminhar, eu imaginava que um por-do-sol de penitência estava a caminho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi não perder mais tempo. Ajudei Arthur a se levantar a muito custo e o coloquei nas costas. Fui andando com ele nas costas pela estrada. A luz já escasseava. Em breve, ficaria ruim até para distinguir os contornos da estrada. Eu caminhava na esperança de uma carona de alguém que estivesse retornando para Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que você fazia aqui, Arthur, tão longe de casa?"&lt;/em&gt;, perguntei enquanto seguia a estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vim dar uma volta a cavalo&amp;hellip; Quando estava voltando, correu um bicho de dentro do mato, teiú, sei lá o que foi&amp;hellip; O cavalo empinou e eu não estava esperando&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso tudo entrecortado de soluços de cortar o coração. Ele perguntou o que eu fazia ali. Respondi que o mesmo que ele, só que sem um cavalo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não cansa de andar a pé?"&lt;/em&gt;, ele quis saber, com a voz bem no meu ouvido, enquanto ele se segurava em minhas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se eu posso te carregar nas costas agora é porque gosto de andar a pé."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se calou. Ficamos um tempão assim, sem conversa, sem nada. O escuro já dominava tudo. Eu ia trôpega de tanto peso, já perdia a noção dos limites da estrada e por duas vezes quase caí no meio da braquiária que margeava o caminho. Foi quando vi um dos espetáculos mais bonitos que a noite daqui tem para oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miríades de vagalumes começaram a me seguir, piscando suas luzinhas minúsculas e pousando nas margens da estrada, marcando exatamente os limites da estrada que eu não conseguia mais enxergar, como luzes de uma pista de pouso. À minha passagem, os vagalumes que tinham ficado para trás levantavam voo e vinham pousar mais à frente, numa corrente sem fim de luminosidade vital para que eu pudesse andar com segurança com o pequeno jardineiro nas costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que a cada passo que eu dava, o pequeno ficava mais e mais pesado. Como na história de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas, então chamado Réprobo, que tencionou servir ao mais poderoso dos líderes. Após servir a um rei e ao Diabo os abandonou, porque havia coisas que eles temiam: um temia ao próprio Diabo e o outro temia a presença da cruz. Aceitou servir a Cristo atravessando pessoas num rio caudaloso e perigoso para travessia e acabou um dia atravessando um menino para o outro lado. A cada passo que dava, o sentia mais pesado. Era o próprio, de quem até o Diabo tinha medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur! Você está dormindo. Acorda, fica pesado carregar assim&amp;hellip; Arthur! Acorda!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não acordou. Quando finalmente cheguei ao portão de minha casa com ele, já não aguentava mais em pé. Abri o portão a custo, me desvencilhando das malditas plantas espinhosas que nem pareciam ter sido podadas e ao entrar em casa coloquei o pequeno no sofá. Ele então acordou e tinha o rosto ainda raiado de lágrimas. Me agradeceu e pediu água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Desculpe, esqueci que a senhora não quer me dar água"&lt;/em&gt; e ele ficou quieto, olhando para o teto. Dei água a ele e os olhos dele lampejaram de satisfação. Trouxe a jarra, ele parecia ter passado quarenta dias no deserto. Ele me agradeceu novamente e ficamos em silêncio um tempo. Perguntei o número do pai e ele me deu o número do celular de "sêo" Horácio. Liguei e disse que ele viesse buscar o filho. Ele estava nas estradas procurando Arthur. Disse que o cavalo dele foi encontrado vagando sozinho e que ele e a esposa já estavam desesperados atrás do menino. Já tinham ido à Taurinos, vindo à minha casa, nem sinal. Fiquei pensando o que poderia ser se eu o tivesse abandonado na estrada, achando ser aquilo mais um teste. Tremi só de pensar que poderia ter abandonado a criança ali à míngua, jogada na estrada. Perguntei algumas coisas a ele enquanto esperávamos seus pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que você estava fazendo na minha casa e na sua ao mesmo tempo anteontem?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu tenho um lado palhaço que é bom pra convencer as pessoas. Os moleques da Polícia Obscura chamam de aspecto, nós chamamos de lado. Mas lado não quer dizer que não seja eu. A senhora não tem um lado escritora? A diferença é que a senhora não pode estar em um lugar e o seu lado escritora em outro. Olha, eu sou bom com as palhaçadas. É que quando eu começo a ficar impaciente, as palhaçadas vão ficando mais sérias, sabe. A senhora fez o que tinha que fazer: abrir o pacote com a planta."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que são os outros presentes, Arthur?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu, maliciosamente ingênuo como o moleque de interior que era, &lt;em&gt;"quer saber? Abre!"&lt;/em&gt;, eu sorri e disse que ele era um amador. Ele sorriu também e encerramos as comunicações para o dia quando um motor de carro se fez ouvir lá fora. Eram os pais dele. Senti uma certa pressa deles em levar o menino para casa, como se as notícias sobre o corte na água e no cafezinho aqui em casa já tivessem chegado à fazenda Feletti de velhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7834338140016219379?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7834338140016219379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/noite-de-sao-cristovao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7834338140016219379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7834338140016219379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/noite-de-sao-cristovao.html' title='Noite de São Cristóvão'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-2624778091845475013</id><published>2009-07-13T14:45:00.006-03:00</published><updated>2010-12-23T18:20:30.363-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>O estrangeiro</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;S&lt;/span&gt;ete horas da manhã, acordei com o som de uma tesoura de grama em meio aos sons dos pássaros que pousam nas árvores ao lado da casa. Abri a janela do quarto e dei com o meu "novo jardineiro" lá embaixo podando as plantas espinhosas da cerca da minha casa. Desci e fui ter com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que está fazendo? Está tirando as plantas da minha cerca afinal?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur sorriu e disse que não. Que só estava podando, porque elas cresciam muito rápido e em breve ninguém mais entraria em minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu tenho que vir umas três vezes por semana"&lt;/em&gt;, ele disse ainda sorrindo. Depois, ele me encarou sério e perguntou se eu tinha café, &lt;em&gt;"eu saí cedo hoje e não tive tempo de tomar café e nem comer, a senhora acredita, D. Stella? Olha, eu não preciso entrar, posso tomar aqui fora mesmo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não tenho café"&lt;/em&gt;, eu disse a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah&amp;hellip; Tudo joia então, pensei que tinha um pouco de café"&lt;/em&gt;, e Arthur continuou trabalhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso demora muito pra fazer?"&lt;/em&gt; Eu queria me livrar dele logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, demora um pouco; mas nó, tá calor hoje, né, pra julho"&lt;/em&gt;, ele limpou o suor da testa com as costas da mão e olhou para mim, &lt;em&gt;"a senhora não teria pelo menos um copo d'água pra me dar? Trabalhar nesse sol dá muita sede&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei olhando para ele enquanto ele me testava. Eu disse que não. Ele ficou em silêncio e continuou trabalhando. Dei as costas para ele e voltei para casa. Fiz café e enquanto estava tomando, Arthur apareceu na janela da cozinha e perguntou se eu queria que aparasse outras plantas. Eu disse que não. Não procurei disfarçar que estava tomando café. Ele ficou olhando a mesa posta, a comida, o café o leite e a carinha dele olhando tudo aquilo me encheu de pena. &lt;em&gt;"Meu Deus, é uma criança com fome"&lt;/em&gt;, pensei. Por uns instantes, fiquei balançada. Mas decidi que eu não ia dar nada a ele. Ele não queria que eu desse nada ao Renan ou ao Andrés, então não iria dar nada a ele. Nem água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora fez café, que bom! Posso então tomar um pouquinho?"&lt;/em&gt;, ele tentou uma última vez, sorrindo aquele sorriso luminoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, se você já terminou o que veio fazer, gostaria que você fosse embora. Se quer vir podar essa porcaria que vocês puseram na minha cerca, venha, mas não me encha o saco."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desanimou, guardou a tesoura nos fundos da minha casa, montou em seu cavalo e foi embora, sem dizer mais nada. "Sêo" Danilo cruzou com ele na estrada, vindo em minha direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Jardineiro novo, eh, "sá" Stella?"&lt;/em&gt;, ele perguntou ao apear-se, sorrindo, &lt;em&gt;"o mocinho parecia um cadim zangado, nem me cumprimentou; a senhora brigou com ele?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei a ele a primeira manhã como o "novo jardineiro" e "sêo" Danilo perguntou se eu sabia o que estava fazendo negando até mesmo água para Arthur.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele estava me testando"&lt;/em&gt;, eu disse, &lt;em&gt;"não era uma precisão real."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como a senhora sabe?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parei. Sim, como eu poderia saber? Eu tinha forte suspeita de que estava sendo testada. Por que ele sairia de casa sem tomar café tão cedo para vir podar espinheiras? Quanto à água, fui mesmo radical. Mas ele estava sendo tão radical quanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sêo" Danilo mudou de assunto sem sair do tema principal. Disse que Andrés e Renan já estavam acampados no Santuário. Eles decidiram a questão com o Jardineiro Celeste fora do Conselho, amigavelmente. Iriam ficar acampados no Santuário até encontrar algo que eu deixei lá. Eu não dei pela falta de nada meu, fiquei me perguntando o que teria acontecido. Fiquei com pena dos dois meninos. Não deveria, mas fiquei. A figura de Renan me voltava à memória, me era difícil esquecer o garoto. Afastei o pensamento e disse a "sêo" Danilo que não foi algo em que pensamos ontem, mas que uma hora da noite, os pais de Arthur fatalmente iriam dar pela falta dele e vir buscá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Era só questão de tempo, "sêo" Danilo"&lt;/em&gt;, eu concluí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não era não, "sá" Stella. Os pais do Arthur nunca iam aparecer."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor acha que não se incomodam? É isso que quer dizer?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se incomodam até demais. Mas eles não tinham porque se incomodar"&lt;/em&gt;, ele declarou, me fazendo franzir a testa, &lt;em&gt;"mas por que o senhor acha isso?"&lt;/em&gt;, eu estava atônita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Porque naquela hora os pais do Arthur estavam com ele e a irmãzinha dele em casa, assistindo televisão e se preparando para jantar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei alarmada. Se Arthur estava em sua casa naquela hora&amp;hellip;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então o que era aquilo que estava na frente da minha casa??? O senhor sabia disso desde aquela hora e não me disse nada?"&lt;/em&gt;, eu estava aflita, porque "aquilo" acabava de sair da minha casa e prometera vir três vezes por semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se eu dissesse que o Arthur estava em casa, assistindo televisão naquela hora a senhora ia ter um treco. Só de saber que era o bom e velho Arthur já foi complicado, que dirá uma coisa assim."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que era aquilo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Era um outro aspecto do Arthur, assim como a senhora conheceu outros aspectos do Renan e do Anderson. Então era o Arthur, mas um aspecto dele que corresponde a essa situação e ao que tem que ser feito dentro dela. Por isso era tão diferente do Arthur que a senhora conhece"&lt;/em&gt; e ele continuou, &lt;em&gt;"se a senhora está negando água a "ele" está negando água ao próprio Arthur, porque "ele" não é mais que o Arthur em outro aspecto. A senhora é diferente se divertindo num clube, por exemplo, do que é atendendo seus pacientes, mas não deixa de ser a senhora mesma, são só aspectos diferentes para situações diferentes. Por exemplo, a senhora já viu o Arthur alguma vez de jardineira azul-celeste com aquelas ferramentas no bolso? Claro que não, porque ele não anda assim. Jardineira, azul-celeste, isso não lhe diz algo? Então, os meninos fazem de um jeito que seja mais fácil compreender. A senhora está acostumada com crianças, por isso o Jardineiro Celeste aparece como criança. Seria muito complicado se a senhora o visse como ele é. A senhora mesma poderia nem estar preparada para o que iria ver."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continuou dizendo que era complicado eu negar até mesmo água para Arthur, porque os meninos estavam me analisando no dia-a-dia. Ele disse que imaginava que era um teste deles, mas que era complicado assim mesmo. Então eu o questionei, dizendo que se ele imaginava que era um teste, o que me impedia de imaginar também que aquilo era um teste? O que impedia os meninos de saber que eu também imaginava que aquilo era um teste? E nesse caso, que validade aquilo tinha como teste, se eles sabiam que eu imaginava que tudo era um teste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não tinha parado para pensar nisso, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, e "sêo" Danilo coçou a cabeça, confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que "sêo" Danilo me disse a respeito de Arthur ter estado tranquilamente assistindo televisão em casa me aliviou um pouco de certa forma. Agora eu tinha certeza que os pedidos de café, água e outros eram parte de um teste. Não iria passar no teste, se fosse um teste de generosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mais nenhuma notícia dos meninos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu devo ir visitar os dois no Santuário hoje e lhe trago notícias."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;G&lt;/span&gt;uilherme apareceu a cavalo mais tarde. Estava curioso para saber se eu tinha aberto os presentes, especialmente o dele. Pensei que era impossível que ele não tivesse se inteirado do dia de ontem pelo Arthur. Guilherme ficou contente em saber que eu tinha aberto a planta, mas ficou desapontado ao saber que eu não tinha aberto todos os presentes. Mais desapontado ficou ao descobrir que não poderia entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Já avisei a todos os meninos, enquanto seu irmão e Andrés não puderem entrar, nenhum de vocês entra aqui."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino não disse mais nada e nem nada mais lhe foi perguntado. Montou no cavalo e ganhou a estrada. Fui até a Taurinos, passando pelas plantas espinhosas na saída da estrada, espinhos horrorosos que furavam até as solas dos meus sapatos. Isso não é vida. Literalmente, isso não é vida. Em outro momento, talvez tivesse até dado risada da minha bobagem. Mas hoje eu não quis saber. Meu pensamento estava com os dois dentro do Santuário. Era para lá que ia meu pensamento quando eu o deixava vagar. Pensei em como poderíamos estar indo contemplar as estrelas, todos os meninos juntos. Por que tanta separação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt;u ouvi por alto Aparecida comentar que dia 5 de julho foi aniversário do Bruno. Por estranho que parecesse, somente Adriano, Guilherme, Anderson e Arthur foram convidados. Achei aquilo bem estranho. Bruno não parecia ter um relacionamento ruim com Andrés ou Renan. Durante a fase de Tinnitus, Bruno foi até acusado de não estar se esforçando para ajudar na resolução do problema, mas foi &lt;b&gt;Guilherme&lt;/b&gt; quem disse isso para ele. Não foi Andrés nem Renan. Tinha sido Guilherme, do próprio grupo dele. Então, o motivo não poderia ser esse desentendimento (que nem foi nada tão sério assim, diga-se de passagem).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Lembro que o Adriano nem foi então, não foi isso? Ficamos aqui praticamente o dia inteiro, depois ainda teve aquela história do Anderson armado na praça que você e Duílio viram, lembra?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela lembrava perfeitamente. Lembrei que Renan estava triste com uma história que o Andrés contou a respeito de Anderson quando havia algo mais nele que o fazia agir de modo muito estranho. Que Adriano o consolava e que Andrés veio conversar com ele, tentar levantar seu astral. Quando tudo parecia resolvido com o sino, os dois me levam até um lugar proibido para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Me sinto um pedaço de lixo poluindo a praia de alguém"&lt;/em&gt;, eu disse a ela, &lt;em&gt;"nunca imaginei que a minha presença num lugar tão bonito pudesse causar tanto problema. O pior é saber que nunca mais vou poder por meus pés num lugar tão maravilhoso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aparecida pareceu entender pelo menos uma parte do meu dilema. Ela disse que havia muitos lugares belíssimos em Taurinos nos quais não haveria nenhum problema em minha presença. Que "sêo" Danilo conhecia todos esses lugares e muitos mais. Mas eu disse que isso não era o problema real, era eu ser como o estrangeiro que tenta se mesclar à sociedade em que vive, mas é organicamente rechaçado por ela. Me sentia suja, poluindo a natureza do lugar. Mais um pouco, iria começar a lavar as mãos a cada dez segundos, essas coisas saudáveis que fazem de um obsessivo-compulsivo um verdadeiro obsessivo-compulsivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pelo amor de Mitra, D. Stella, não comece com isso! Não vai ser bom para a senhora&amp;hellip; Que ideia!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela disse que estava preocupada. Que Arthur estava trabalhando em minha cerca e que passou pela Taurinos para pedir água. Ele explicou a ela que ele estava morto de sede e que eu não tinha café e nem mesmo água para dar para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella, não é errado a senhora negar água para uma criança? Na sua festa, os meninos de lá disseram que a senhora pôs eles três pra correr e que eles tinham posto a fatiota de domingo pra ir lhe levar umas prendas. É pelo que eles estão fazendo com o Andrés e o Renan?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não queria responder. Não queria admitir. Mas e se fosse? Seria menos pelo que o Jardineiro Celeste está fazendo com eles do que por ele ter me impedido de dar até água aos dois, foi o que eu disse a ela. Ela entendeu ou pareceu entender. Ficou um tempo em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Esses meninos nunca vieram à minha casa. Vieram à Taurinos por força das reuniões da Câmara Interna da Sociedade Antiga dos Taurinos, se bem me lembro. Não me entenda mal, não é o problema deles nunca terem vindo. Mas terem vindo agora, quando acontece esse problema. Você não acha isso estranho? Agora vem você me dizer que de todos os meninos só Andrés e Renan não foram convidados. Será que eles me levaram ao Santuário de vingança por não terem sido convidados?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ficou mais um tempo em silêncio. Não dizia se concordava ou discordava da afirmação. Duílio apareceu na cozinha e disse que vinha do Santuário, &lt;em&gt;"nó quero ver quando as nuvens de mosquitos começarem a descer ali dentro, espero que as barracas ajudem. Mas é bem feito para não fazerem o que não devem."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que nunca chegarei a esgotar o assunto de como Duílio sempre conseguia me deixar desconfortável com suas noções medievais sobre castigo e recompensa. A vida para ele é um eterno filme de Spielberg: mocinhos aqui, vilões ali. Mas ele achou estranha a história sobre o aniversário do Bruno, &lt;em&gt;"eles moleques ficam com essas briguinhas e a gente no meio dessa confusão de merda."&lt;/em&gt; Em que pese que ele sintetizava a situação como um todo, isso em nada ajudava a descobrir a solução do problema com o Jardineiro Celeste. Contei a eles a história do presente e o que era. Aparecida pareceu curiosa ao saber que era uma planta e que vinha do Santuário. Contei como foi desde que Arthur chegou à minha casa até o momento de eu abrir o presente. Eles se pasmaram. Aparecida me contou que Arthur tinha estado em mais lugares que somente a minha casa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele ligou aqui em casa no começo da noite, nessa mesma hora em que a senhora diz que ele estava em sua casa. Sei que ele estava na casa dele, porque eu ouvia a Simone, irmãzinha dele falando no fundo, televisão, essas coisas. Ele queria falar com o Adriano."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo batia completamente com o que "sêo" Danilo me disse mais cedo. Eu tive a certeza do que tinha sido encarar aquele aspecto brincalhão de Arthur. Expliquei a ela o que sabia dos aspectos e ela pareceu mais confusa ainda. Tive um trabalhão para fazer a mulher entender aquilo. Não posso culpar ninguém por não entender dessa joça, apanhados de surpresa que fomos nesse intenso, doloroso e insano rebosteio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-2624778091845475013?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/2624778091845475013/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/o-estrangeiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2624778091845475013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/2624778091845475013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/o-estrangeiro.html' title='O estrangeiro'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4948375991925728991</id><published>2009-07-12T00:29:00.009-03:00</published><updated>2010-12-23T18:20:30.364-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Sítio do picapau amarelo</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt; a primeira a vir me visitar, umas nove horas da manhã, foi Aparecida. Eu a fiz entrar, fomos até a cozinha. Comecei a fazer o café sem muita convicção e ela demorou um pouco a entrar no assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu soube que o Renan voltou pra casa. Vi isso quando eu vi o menino junto da família de novo. Foi então que eu entendi porque a senhora não foi na sua própria festa. A senhora se apegou muito com o menino, não foi? Eu sinto muito, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu quero me desculpar por não ter ido. Senti que era uma desfeita principalmente com você, que ajudou a preparar tudo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, imagina! Acho que a senhora fez o que achou certo naquela hora. Que adianta estar numa festa sem o prazer de estar? Mais toda essa complicação que o meu filho e o Renan arrumaram com os meninos de lá"&lt;/em&gt;, que era como Aparecida chamava Guilherme, Bruno e Arthur, &lt;em&gt;"eu ando morta de preocupação com isso. E se eles põem essas árvores pra crescer em volta das nossas casas?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os meninos de lá, como você diz, me trouxeram presentes ontem. Pareciam os Três Reis Magos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas a senhora não recusou não, foi?"&lt;/em&gt;, ela pareceu alarmada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, eu aceitei os presentes."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi que ela pareceu respirar aliviada. Deve ser a derradeira ofensa recusar presentes por aqui, coisa que em nada me espanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ais tarde, apareceu "sêo" Danilo. ressabiado, como era bem o seu jeito, como se temesse incomodar. Ofereci café ainda quente da térmica e ficamos conversando na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que aconteceu na festa ontem? Todos devem estar me odiando, não é, "sêo" Danilo?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele levou um tempo para responder como se compilasse suas observações da noite. Me disse que tinha ficado quase até o fim porque ele queria observar o movimento. Perguntei por Renan e ele me disse que o menino chorou bastante durante a festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Foi a festa mais estranha que já vi. Mas olhe, as pessoas não ficaram zangadas da senhora não ter ido, "sá" Stella. Foi mesmo mais preocupação, todo mundo sabia que a senhora não estava bem. O Arthur disse que a senhora estava desse jeito por ter se apegado ao Renan e foi uma das vezes que eu vi ele chorar, antes dele ir embora com a família."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Qual é a do Arthur, hein? Já faz um tempo que eu estou me perguntando qual é a dele, "sêo" Danilo. O senhor soube, ele fez descer uns passarinhos&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele parece que está lhe testando, "sá" Stella"&lt;/em&gt;, o sertanejo tinha um tom preocupado na voz, &lt;em&gt;"ele talvez queira saber se a senhora vai sentir raiva dele pelo que está acontecendo. Se a senhora está levando pro lado pessoal, e parece que está."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse a ele que Arthur, o Bruno e o Guilherme me trouxeram presentes ontem. Ele pareceu surpreso e perguntou se podia perguntar o que eram os presentes. Respondi que só abriria os presentes depois dessa nova confusão. Vi que ele pareceu estranhar alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas foram assim, só deram os presentes e foram embora? Não disseram nada, o que era?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mencionei Arthur tentando me dizer alguma coisa sobre um dos presentes e eu mandando o trio caminhar. O sertanejo caiu em si. Disse que eu deveria pelo menos ter ouvido o que o menino tinha a dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como eles estavam vestidos, a senhora lembra?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É importante, "sá" Stella. Tente lembrar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não consigo, "sêo" Danilo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Lembra se eles estavam com roupas dessas de roça ou se&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ah, sim eles esperavam uma festa, sabe. Aquele tipo de roupa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, a senhora fez mesmo mal em não ter ouvido o menino. Eles puseram a melhor roupa deles pra ir lhe levar os presentes, "sá" Stella. A senhora estava com raiva e enxotou os três daqui. Eu entendo a sua reação, eles também, mas se continuar levando pro lado pessoal, as coisas podem se complicar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que o senhor sabe sobre esse tal Jardineiro Celeste?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O Jardineiro Celeste é uma espécie de associação entre os três meninos que vieram lhe visitar ontem. O Jardineiro Celeste é um dos dois, Arthur ou Bruno, ninguém sabe qual dos dois. O outro dos dois utiliza a energia do irmão do Renan, o Guilherme. O outro, que é o próprio Jardineiro Celeste, não precisa da energia do Guilherme."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que o Guilherme faz, então?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele cede a energia dele. Guilherme é um acólito do Jardineiro Celeste."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acólito? Guilherme?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, como um coroinha&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sei o que é um acólito, "sêo" Danilo, estava só surpresa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, é um acólito, a função dele é gerar energia para o que usa a energia dele. Eles combinam as duas e juntos eles são como o outro que não precisa do Guilherme. Mas ele em si nada faz ou decide, só gera a energia pro outro que sem ele (ou sem o próprio Jardineiro) também não consegue nada."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse ponto, a conversa foi interrompida por um cavalo se aproximando da casa. Olhei pela janela da cozinha e era Arthur se aproximando. "Sêo" Danilo se colocou em alerta e me recomendou que deixasse o menino falar antes de dizer qualquer coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperamos por um tempo que pareceu uma eternidade, até que ouvimos as batidas na porta. Abri e lá estava ele, de jardineira azul e com as ferramentas enterradas nos bolsos como no dia em que semeou em torno da minha casa. A lembrança da semeadura me deixou um gosto amargo que a presença dele naquelas roupas só fazia reforçar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Fique tranquila, não vou perder seu tempo perguntando se a senhora vai me convidar pra entrar, D. Stella"&lt;/em&gt;, ele disse sorrindo, e discretamente olhando algum ponto atrás de mim, tentando espiar dentro da casa como fez ontem, &lt;em&gt;"mas ontem a senhora nos expulsou daqui antes que eu pudesse falar sobre um dos presentes. Eu preciso muito falar com a senhora sobre isso, sabe&amp;hellip; Ah, oi "sêo" Danilo, boa tarde, desculpe, eu não tinha visto o senhor&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O excesso de educação incomodava. Como se o pequeno tentasse nos provar sua infinita boa vontade. Eu cortei a onda, dizendo a ele que falasse sobre o presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Dos três presentes que a senhora ganhou, um deles é especial. Eu sei que a senhora só quer abrir os presentes quando tudo estiver em paz. E vou lhe falar: acho a ideia muito boa. Mas o presente que eu trouxe, a senhora precisa abrir. Os outros presentes pode abrir quando quiser, mas o que eu lhe trouxe é preciso abrir agora. É uma planta e não pode ficar sem a luz do sol. E ninguém mais pode abrir o presente. Só a senhora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que planta é essa?"&lt;/em&gt;, eu estava desconfiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Uma planta que tem dentro do Santuário"&lt;/em&gt;, ele disse, &lt;em&gt;"muito bonita. A senhora vai gostar quando vir."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para "sêo" Danilo e ele parecia tão aturdido quanto eu. Achei que aquilo era uma armadilha. Primeiro semeou as tais plantas de raízes agressivas, depois me trouxe uma planta de presente? Peguei o embrulho que me lembrava tê-lo visto segurando. Ele tinha realmente a forma de algo como um vaso por baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Essa é a sua planta?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu um sorriso radiante ao me ver com o embrulho na mão. Fez que sim com a cabeça mas não era necessário. Disse que eu só tinha de abrir e colocar num lugar onde ela pudesse receber sol e sombra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então&amp;hellip; Não vai abrir?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era todo suspense e expectativa. Olhei para "sêo" Danilo em expectativa eu também. Ele não me disse nada, nem sua expressão se alterou; ele só tinha olhos para a atitude do menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sinto muito, Arthur. Não vou abrir."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele pareceu ligeiramente alterado, &lt;em&gt;"mas eu lhe disse que é uma planta, está viva e não pode ficar sem luz e a senhora não vai abrir?!?!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei nervosa para "sêo" Danilo e ele estava mais nervoso que eu. Ele media o menino o tempo todo e pela sua cara não via com bons olhos a alteração de humor dele. Ele fechou a porta e me puxou para dentro da casa. Arthur apareceu na janela e nos fitou, me causando uma pequena onda de pânico que consegui dominar em tempo. A cara de cada vez menos amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, acho que é daqui pra pior se a senhora não abrir o presente. Mas a decisão é sua&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella! Não saio daqui enquanto a senhora não abrir meu presente!"&lt;/em&gt;, a voz dele berrava lá fora, &lt;em&gt;"vou montar minha barraca no seu terreno e só saio daqui quando a senhora abrir o presente que eu lhe dei, ouviu? Até a senhora abrir o presente eu vou ficar fazendo palhaçada na porta da sua casa e gritando o seu nome. Ouviu, D. Stella?"&lt;/em&gt;, e ele abriu uma mochila presa ao cavalo, tirou uma barraca de dentro e começou a montar a barraca sem a menor pressa em meu terreno, bem em frente à casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, ele não vai arredar pé não"&lt;/em&gt;, o sertanejo parecia alarmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Nada, uma hora se cansa, fica com fome e volta para casa&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Engano, "sá" Stella. Ele vai velar a sua casa sem comer e sem dormir até a senhora ceder. Acredite no que estou lhe dizendo, essa força está além dele. E se ele diz que vai ficar fazendo palhaçada na porta da sua casa, quanto mais tempo ele ficar fazendo isso, menos engraçada e mais esquisita a palhaçada vai ficando, se é que me entende&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda tentava me iludir com inúteis e vãs esperanças. Não conhecia essa faceta de Arthur. Mas achei que teria tempo de sobra de conhecer todas afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, D. Stella? Abre meu presente, que eu quero ir pra casa! Estou esperando!"&lt;/em&gt;, a voz dele lá fora era insistente e irritante, &lt;em&gt;"eu não posso entrar na sua casa, mas a senhora também não pode sair sem me encontrar aqui fora!"&lt;/em&gt; "Sêo" Danilo ficou assustado, &lt;em&gt;"se não for abrir o presente dele, é melhor não sair de casa, "sá" Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que o senhor acha que ele vai fazer comigo se eu sair?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele vai assombrar a senhora de alguma forma. A senhora sai e vê um espantalho horroroso e enorme vindo dançando na sua direção com olhos e um sorriso luminoso e a senhora é pisoteada pela coisa, não sei. Não me pergunte qual porque não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Mas eu vejo que até que a senhora abra esse presente vai ser parecido com &lt;a target="_blank" href="http://radiouniversal2.blogspot.com/2010/04/noite-de-chumbo.html" title="Voltar no tempo e ler o diário la atrás."&gt;aquela noite com a Polícia dentro da sua casa&lt;/a&gt;."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me disseram um dia que o inferno astral de uma pessoa se encerra no dia de seu aniversário. No meu caso, provou ser um pouco mais resistente, talvez um de boa fabricação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sá" Stella, eu tenho de ir embora. A senhora faça como achar melhor, mas ele vai chamar meu nome lá fora daqui a pouco e eu vou ter que ir embora."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;, gritou a voz lá fora, &lt;em&gt;"bom descanso!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olhaí, eu tenho que ir. Não se esqueça, se não abrir o presente, não saia lá fora, nem que ele lhe chame pelo nome. Ele vai chamar. Vai lhe infernizar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele vai tentar entrar aqui?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, porque a senhora não deixa. Mas ele pode aparecer como um espantalho na janela e aí não olhe nos olhos dele. Mas também, pra chegar a esse ponto&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;""Sêo" Danilo!"&lt;/em&gt;, gritou novamente a voz lá fora, mais alto, &lt;em&gt;"bom descanso!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que ele vai fazer com o senhor?"&lt;/em&gt;, eu estava terrificada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vai me dar boa-noite quando eu passar por ele."&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele se foi e eu vi o menino me olhando de longe, em frente à sua barraca. "Sêo" Danilo passou por ele a cavalo e ele lhe deu boa-noite exatamente como "sêo" Danilo me tinha dito. Arthur subitamente virou para a porta de minha casa aberta e começou a correr na minha direção. Agora era comigo. Eu sentia ondas de pânico que vinham varrendo o jardim da frente à medida que ele se aproximava até que num espasmo instintivo, arremessei a porta contra o batente. Ouvi os passos surdos dele morrendo por sobre o alpendre, próximos à porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio mortal. Nada nem mesmo dos sons noturnos ao redor, eu agora notava o silêncio morto dessa noite que se aproximava. Silêncio mortal. Estou parada em frente à porta por mais de um minuto. Nada. De súbito, pancadas na aldrava, bem ao lado do meu ouvido direito, fazendo meu coração disparar. Tem uma assombração batendo na minha porta. Meu inferno astral não terminou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella!!! Abre o meu presente, não faz isso comigo! Me deixa ir pra casa, D. Stella!!! Me deixa ir pra casa, D. Stella!!!"&lt;/em&gt;, a voz do menino era lamentosa agora, as pancadas na aldrava não paravam. Eu não iria poder chamar ninguém. Se fosse essa a solução, já o teria feito. Não teria essa alma penada gritando meu nome aí fora. Eu desisti. Não iria fazer um teste com o pequeno, mesmo tendo sido coagida como estou sendo por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur! Eu vou abrir seu presente. Você venceu!"&lt;/em&gt;, eu não iria passar por aquilo de novo, não num espaço tão curto de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio mortal. Nada dos sons noturnos ao redor, nem os de Arthur. Tudo era expectativa. Dele e de mim. Tomei o embrulho na mão e rasguei o papel que envolvia o presente. A planta estava ali e, como Arthur tinha prometido, era muito bonita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Arthur, eu vou sair e a gente vai conversar sobre a planta. Posso sair?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio mortal. Não se ouvia nada a não ser o som dos grilos e da orquestra percussiva de sapos característica de Taurinos. Eu abri a porta e chamei por ele. Não havia nada lá fora. Nem cavalo, nem barraca. Nem Arthur. Ouvi um trote crescendo e olhei na direção. Era "sêo" Danilo, de volta, &lt;em&gt;"eu não iria pra casa com uma situação dessas, "sá" Stella e até o menino sabia disso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor não viu para que lado ele foi?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, a senhora abriu o presente e ele voltou pra casa. Bonita, a planta?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mostrei a ele a planta. Parecia algo retorcido como um cipó, com um formato belíssimo. Ele admirou a planta, disse que a localizava facilmente no Santuário por ser no caminho para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que ele me daria uma planta do Santuário?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não sei "sá" Stella, ainda mais um cipó, mas acho que tem a ver com a sua estada lá."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças daqui e suas tiradas herméticas. Um padrão, desde as mensagens crípticas no sino de Anderson ao comportamento do novo jardineiro da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tem que deixar meio sol meio sombra como os cipós"&lt;/em&gt;, ele me disse antes de se despedir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei parada no alpendre da minha casa, a lâmpada atraindo toda a sorte de bichos que as vezes projetavam sombras horrendas e assustadoras na parede do alpendre. Pensando que se aquilo era um tipo de Sítio do Picapau Amarelo particular, então era um Sítio do Picapau Amarelo de horror. Monteiro Lobato me mataria por isso. Resolvi fechar a casa e tentar dormir. Pensava naquela hora que de brinde o Agente Anderson ainda poderia aparecer de ronda dentro da noite e aí ninguém merece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4948375991925728991?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4948375991925728991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/sitio-do-picapau-amarelo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4948375991925728991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4948375991925728991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/sitio-do-picapau-amarelo.html' title='Sítio do picapau amarelo'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-6632683312804878810</id><published>2009-07-11T01:24:00.006-03:00</published><updated>2010-12-19T20:36:23.771-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Três reis magos</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;E&lt;/span&gt; o que era impossível se tornou inevitável. Os Teixeiras vieram aqui para buscar Renan. Foi um momento bonito de reconciliação entre "sêo" Octávio e o filho caçula. Via-se muito claramente que o pai não aguentaria muito mais tempo sem a minúscula coisinha redonda. Ele abraçou o pai, a mãe, e eles ficaram chorando juntos. Mil pedidos de perdão de todos os lados. Eu estava feliz em ver que pelo menos aquela história acabava bem, mesmo no meio de mais esse problemaço arranjado pela cidade e pela polícia. Mas havia uma tristeza em mim que eu não entendia ou não queria entender. Renan então veio e me abraçou em despedida e, embora sempre fôssemos nos ver (quem sairia de Taurinos afinal?) senti aquilo como uma despedida verdadeira. Isso gerou em mim uma tristeza verdadeira. Das grandes, que não vê saída. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, lágrima que não tive o tempo nem a vontade de segurar. Eles provavelmente a interpretaram como a emoção de ver um tal reencontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eles já tinham ido, fiquei pensando que se eles não se reconciliassem, Renan ficaria sem um teto. Ou pelo menos durante o tempo que durasse essa pendenga com o Jardineiro Celeste. Eu não poderia ajudar Renan em hipótese alguma ou perderia a minha casa e ele ficaria sem um teto de qualquer maneira. Sobraria a ele se abrigar na fazenda Taurinos, onde ele não é necessariamente o xodó do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma emoção funda ficou batendo na minha cabeça, teimosa, sem dar sinais de querer parar. Durante um mês e mais experimentei, mesmo que remotamente, a sensação de ter um filho. Em todas as suas facetas, da mais bizarra à mais normal, que toda e qualquer mãe sente. Eu e Paulo nunca pudemos ter filhos, e não por causa dele. O problema sempre foi meu e me foi evidente a frustração que ele sentiu ao saber que eu jamais poderia lhe dar um filho. Hoje penso se não foi por isso que meu casamento acabou, como se fosse uma bolha de sabão encontrando um obstáculo à frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pensamento acabou me trazendo mais tristeza. Eu só via em minha frente a carinha de ursinho do Renan, aquele sorriso maroto de mineirinho brincando no rosto dele, as coisas que passamos desde que ele veio morar aqui. &lt;em&gt;"É só saudade"&lt;/em&gt;, pensei, procurando afastar os maus pensamentos. Não consegui e comecei a chorar, num desalento que fazia tempo não se abatia sobre mim. Meus olhos foram se congestionando, inchando ligeiramente. Eu não conseguia parar de chorar. Levei horas para parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já tinha conseguido me controlar um pouco, ouvi o som de cavalos lá fora, o galope se desfazendo num trote até que finalmente pararam em meu terreno. Não esperei que viessem bater à porta. &lt;em&gt;"Seja quem for, vou dispensar"&lt;/em&gt;, pensei. Eu não seria uma boa companhia para quem quer que fosse, afinal. Mas eu não estava preparada para a surpresa de abrir a porta e descobrir que eram Arthur, Bruno e Guilherme, todos em suas roupas de domingo, cada um com um embrulho de presente na mão. Eles estranharam a casa escura por dentro. Dos três, Bruno nada dizia. Apenas olhava parecendo se inteirar da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não vai convidar a gente pra entrar? Não vai ter festa?"&lt;/em&gt;, Arthur perguntava mansamente, tentando olhar por trás de mim para dentro da casa com movimentos de pescoço suaves; a voz tão diferente da que usou ontem para tantas perguntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Festa de que?"&lt;/em&gt;, eu mal lembrava em que dia estávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não se lembra, D. Stella? Hoje é seu aniversário!"&lt;/em&gt;, disse Guilherme alegremente, como se fosse um gerente anunciando a um funcionário um aumento de salário, &lt;em&gt;"a gente viu tem uns dois dias no seu perfil no Facebook, pegamos a sua atualização de aniversário na nossa conta."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus. Nem me lembrava mais que eu fazia aniversário. Não fosse pelo Facebook, nem saberia, teria passado em brancas nuvens esse ano. Lembro de que eu estaria fazendo hoje 52 anos. Que belo presente de aniversário para meus cinquenta e poucos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora não vai convidar a gente pra entrar?"&lt;/em&gt;, Arthur tentou novamente. Bruno apenas olhava, sem dizer palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não"&lt;/em&gt;, eu respondi e eles ficaram se entreolhando confusos, os presentes na mão, sem saber o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas por que não?"&lt;/em&gt;, perguntou Arthur, perplexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Olhem, não é nada com vocês, eu simplesmente não estou muito contente com nada hoje. Renan acaba de voltar para casa e eu quero ficar sozinha."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora sabe que não pode ajudar o Renan agora, D. Stella. Eu lhe disse isso ontem. Não é sua culpa, mas ele tinha mesmo que sair. Mesmo o Andrés, nem ele pode vir aqui pra dentro, nem um copo d'água que seja a senhora pode dar a eles, nem mesmo conversar. Eu sinto muito a senhora ter se apegado assim ao Renan"&lt;/em&gt;, declarou Arthur num tom que senti ligeiramente contrariado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não sente dez por cento do que eu sinto, pode dormir com essa certeza. Agora se vocês me derem licença&amp;hellip; Hoje estou mesmo uma péssima companhia."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles se entreolharam mais uma vez, confusos, cansados de segurar os presentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella, é que nós trouxemos uns presentes para a senhora, sabe"&lt;/em&gt;, Guilherme estava atônito, quase apavorado, &lt;em&gt;"a senhora não vai fazer essa desfeita com a gente, vai?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, não vou não"&lt;/em&gt;, eu disse e apanhei os presentes dos Três Reis Magos, &lt;em&gt;"vou ficar com eles e abro quando toda essa confusão terminar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É que tem umas coisas sobre um dos presentes&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, tentou Arthur, apressadamente; ele ainda tentou ser simpático, mas já era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu quero que vocês vão embora, por favor. Não quero ver mais ninguém hoje. Eu estou pedindo com educação. Vocês nunca vieram aqui de qualquer jeito. Jamais vieram me dar a honra de sua presença. E não vai ser hoje que vão vir"&lt;/em&gt;, eu começava a ficar irritada com toda aquela merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Deixa, Arthur, ela quer ficar sozinha"&lt;/em&gt;, tornou Guilherme desapontado, &lt;em&gt;"desculpa se a gente veio numa hora ruim, D. Stella. A gente não tinha intenção de incomodar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruno já estava montando seu cavalo e subindo para a estrada. Como veio se foi, completamente calado. Parecia ter feito das tripas coração para vir até aqui. Os outros dois se viraram para ir embora e não esperei até que montassem para fechar a porta. Joguei as porcarias que eles trouxeram num canto e me sentei no sofá, desalentada. Não tenho paz um minuto. Renan foi embora. Minha casa está prestes a desmoronar. Hoje é meu aniversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duílio apareceu no final da tarde e disse que eu precisava ir até a fazenda Taurinos ver uma coisa ou seja lá o que fosse e eu o mandei de volta sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;oite silenciosa, mas que não esconde um murmúrio distante que se junta aos sons noturnos de grilos, a eterna orquestra percussiva de sapos. E batidas na aldrava da porta lá fora. Parecia que eu não ia ter mesmo paz nem durante a noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era Adriano, me pedindo para ir à Taurinos olhar o laptop dele, que tinha dado um problema. Perguntei se não tinha passado por sua cabeça a ideia de trazer o laptop para cá. Ele sorriu amarelo e eu disse que não ia sair. Aí ele teve de entregar, &lt;em&gt;"é uma festa que a gente fez pro aniversário da senhora, a Sociedade em peso está lá. Era pra ser surpresa, mas a senhora não veio com o pai, agora não vai comigo, eu tenho que falar, né. Bom, agora vamos?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu não vou a lugar nenhum, Adriano. Eu não quero ver ninguém hoje. Não sei o que a Sociedade faz toda junta e reunida na sua casa do jeito que as coisas estão, mas eu sei que eu não quero ver ninguém hoje."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então, a senhora tá levando tudo pro lado pessoal, não é nada disso&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, ele parecia nervoso e desorientado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Lado pessoal? Não está lá a tua casa, rodeada de plantas que podem virar árvores em minutos e levar os alicerces e a casa inteira junto com elas? Não é toda a tua vida e a dos teus ancestrais que está lá? Isso não é pessoal? Isso é o que, então, Adriano? Mesmo que se explique que a tua família e do Renan tem que pagar, que tenho eu a ver com essa porra toda?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Às vezes, a pessoa não tem nada a ver com isso, mas se está perto&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Besteira da grossa! Eu nem sabia aonde eles estavam me levando!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu comecei a chorar. Me deixei cair no sofá. Em outros tempos, o fato de ter minha casa sitiada não me causaria sentimentos assim. Mas estou com raiva de todos. De Andrés e Renan por terem feito o que fizeram. Dos Teixeira, por terem levado Renan daqui. Dos outros meninos, parecendo justiceiros implacáveis. Tudo me irritava. Tudo ali me irritava, todas as circunstâncias, todos os modos, todas as opiniões, todos os pareceres. Adriano me olhava perplexo, sem saber como ajudar, sem saber o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vai embora, Adriano. Por favor, diga à cidade de Taurinos que hoje, e apenas hoje, eu quero ficar sozinha."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas, D. Stella, pelo amor de Mitra, como é que a gente comemora o seu aniversário sem a senhora presente?"&lt;/em&gt;, ele se desesperou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;í também acabou. Ninguém mais apareceu. Também não consegui dormir. O murmúrio da festa na fazenda Taurinos levou horas para se dissipar. Pensei na disposição festiva do brasileiro mesmo na ausência do aniversariante e quase cheguei a esboçar um leve sorriso. Não podia conversar com Andrés e Renan. Não queria conversar com nenhum dos outros meninos. O que eu iria fazer na festa afinal? Sabia que o dia seguinte não me reservava nenhuma disposição festiva da comunidade ao redor depois dessa desfeita. Passei um inferno, o dia inteiro dispensando pessoas que vieram me desejar um feliz aniversário. Acho que o meu foi tão infeliz quanto o de Renan. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-6632683312804878810?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/6632683312804878810/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/tres-reis-magos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6632683312804878810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6632683312804878810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/tres-reis-magos.html' title='Três reis magos'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-6094611685298166538</id><published>2009-07-10T00:31:00.011-03:00</published><updated>2010-12-19T20:36:23.772-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Ficus</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;C&lt;/span&gt;hamei Renan para fora. A cerca de minha casa estava coberta de plantas espinhosas. Ele veio e ficou assombrado. Ficou me olhando com os olhos apavorados, o que me apavorou por sua vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"De onde veio isso???"&lt;/em&gt;, ele estava perplexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, você era a minha única esperança de explicação&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ih&amp;hellip; O Santuário&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, o menininho pôs as mãos na cabeça, &lt;em&gt;"o Jardineiro Celeste começou cedo&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Você quer dizer que o morador lá do Santuário está se vingando da gente? É isso que quer dizer?"&lt;/em&gt;, eu já estava apavorada com a perspectiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É isso o que eu quero dizer."&lt;/em&gt;, ele me olhava com medo da reprimenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan Augusto Giacomin Teixeira, você e o Grão Vizir me meteram nessa enrascada. Isso aqui na cerca é só o começo, o que vai vir depois? Por que isso? Para que me levaram naquele lugar? Será que não dá pra gente ter um minuto de paz nessa merda dessa cidade?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan ficou calado. A confusão, eu sabia, estava apenas começando. Poderíamos ter mais um mês de graça para descansarmos da loucura que foi o problema com Tinnitus. Mas isto é Taurinos e aqui não se descansa. Os meninos providenciam para que não haja um único minuto de descanso por aqui. Os mesmos que temiam que a cidade fosse ficar sem-graça já que tudo (ou quase tudo) por aqui se congelou no tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés foi o outro que apareceu logo depois. A notícia da invasão já chegou lá na Taurinos, Andrés já apanhou gostoso de cinta de seu pai, o ainda durão inflexível e medieval Duílio, e veio ter conosco. As plantas espinhosas cercavam a casa da fazenda e o alpendre onde costumo ficar quando fico lá. Perguntei a eles se sabiam o que fazer agora. Em que confusão tinham me metido. Os dois não sabiam o que dizer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse a eles que se eles sabiam que uma pessoa de fora não poderia entrar no Santuário, estavam cometendo sacrilégio conscientemente. Eles juraram não saber que mesmo tendo criado a cidade inteira e todo o seu entorno eu não poderia entrar lá. Se agarraram na teoria de que eu tinha o direito de entrar lá por ter criado a cidade. Eu disse a eles que muitos fundadores de cidade só fizeram destruir as localidades onde as fundavam. Que isso era perfeitamente esperável de situações como essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O Jardineiro Celeste está punindo a gente. Que merda de ideia ter ido até lá com D. Stella&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, disse Renan, tristonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Agora não adianta ficar triste, Renan. Temos é que ver como é que vamos sair dessa confusão."&lt;/em&gt;, afirmou Andrés olhando timidamente para mim por trás dos óculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Agora que a cagada está feita, não, Sr. Andrés Silva Conselheiro?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Desculpa a gente, D. Stella&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, ele tentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se fosse esse todo o problema&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;rthur apareceu lá para umas onze horas. Vinha de jardineira, com ferramentas agrícolas pequenas aparecendo semienterradas nos bolsos. Para mim, ele pareceu o próprio Jardineiro Celeste. Arthur jamais apareceu por aqui. Ele desceu do cavalo e veio ter conosco no alpendre onde nos protegíamos do Sol causticante das onze horas da manhã. Ele não nos cumprimentou; a cara não era de muitos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"De quem foi a brilhante ideia de levar D. Stella ao Santuário?"&lt;/em&gt;, ele perguntou seco e incisivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan ia responder quando Andrés nos surpreendeu a todos, mandando o policial se calar e assumindo a confusão sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A ideia foi minha, Arthur. Renan nem pensava em caminhar do jeito que estava, veio porque não queria ficar sozinho em casa, sei lá. Veio porque veio."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que você foi com eles, Renan?"&lt;/em&gt;, Arthur perguntou no mesmo tom seco e incisivo de antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pelo motivo que o Andrés falou."&lt;/em&gt;, Renan estava nervoso, mas prosseguia firme, talvez decidido a mostrar seu lado durão, &lt;em&gt;"é interrogatório do Conselho? Se for, por que não fazer reunião no Mithraeum?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arthur virou para ele, mostrando os dentes, &lt;em&gt;"quer resolver isso no Conselho, Renan? A gente marca reunião, não tem problema quanto a isso. Não prefere resolver aqui amigavelmente? Você calado já está errado, cara."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tinha visto Arthur falando nesse tom. As coisas estão mesmo loucas por aqui. Parecia que o Grão Vizir e o Agente tinham arrumado mesmo encrenca da grossa desta vez. Tentei intervir, mas Arthur não demorou a me mostrar os mesmos dentes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"D. Stella, com toda a consideração que a senhora merece de mim, fique fora disso. Não ajuda eles não, que a senhora acaba indo pelo mesmo caminho."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele disse isso, passarinhos começaram a aparecer de todas as partes e cavar em torno de minha casa, parecendo colocar sementes no chão. Eu e os meninos ficamos olhando sem entender nada, quando Arthur declarou, &lt;em&gt;"isso é só para garantir que a senhora não ajude os dois, D. Stella. A partir de hoje o sabe-tudo vai ficar com as antenas presas na senhora, então preste atenção no que falar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O que foi que os pássaros fizeram?"&lt;/em&gt;, as palavras dele me assustaram e mais ainda me assustaram quando ele explicou que os pássaros tinham deixado sementes ali de plantas do tipo do fícus, santa-bárbara ou primavera, de raízes agressivas para a fundação de uma casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se a senhora não ajudar os dois, as sementes simplesmente não vingam. Se ajudar, seja do jeito que for, elas crescem o máximo delas em quinze minutos. E aí, já viu, adeus casa. O mesmo vale para a casa da sede da Taurinos e da Teixeira. Ah, e não tentem desencavar as sementes. O que vai acontecer se tentarem é bem desagradável, podem ter certeza. Avisem para que ninguém tente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nos tinha assombrados. Eu disse a ele que ele não podia estar falando sério. Andrés e Renan me disseram que ele estava falando sério. Arthur me disse que ele estava falando sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas que loucura é essa? Em que eu poderia ajudar os dois?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora sabe."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, eu não sei, Arthur"&lt;/em&gt;, aquilo estava me deixando nervosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A senhora sabe, sim. Ainda não sabe que sabe ou o que é que sabe, mas sabe."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele montou no cavalo e se foi pela estrada a galope. Que merda. Uma bomba-relógio feita de plantas enterradas em volta da minha casa. O pior é a sensação de que não vai adiantar chamar o Conselho para decidir a querela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ele veio em nome do Jardineiro Celeste"&lt;/em&gt;, disse Andrés depois de um suspiro puxado. Renan, sem querer, o imitou no suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pelo que soube, tirando os dois patetinhas na minha frente, qualquer um que vier falar com vocês, incluindo eu mesma, vai estar vindo em nome do Jardineiro Celeste, Andrés. Olhaí essa merda que vocês fizeram. Vai derrubar minha casa. Vai derrubar a casa de vocês. Vocês não têm consciência?"&lt;/em&gt;, eu estava nervosa e aborrecida com eles. Os dois ficaram me olhando com uma cara de paisagem típica de atores esperando o corte para os intervalos comerciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-6094611685298166538?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/6094611685298166538/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ficus.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6094611685298166538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6094611685298166538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ficus.html' title='Ficus'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-9188130616831432142</id><published>2009-07-09T01:51:00.007-03:00</published><updated>2010-12-19T20:36:23.772-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jardineiro Celeste'/><title type='text'>Sacrilégio</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;C&lt;/span&gt;hurrasco na fazenda Taurinos para comemorar mais uma etapa vencida no processo de sobrevivência da comunidade taurinense. O prefeito, que não faz nada pela cidade, pelo menos dá a festa no final, um gigantesco regabofe para a população. A fazenda escolhida é sempre a Taurinos, pelo espaço, palco de eventos dramáticos quando toda a cidade acampou por aqui, pouco antes de minha volta definitiva para a cidade de Taurinos, deixando o lugar com cara de festival de Woodstock.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através do povaréu que ia e vinha de lá para cá, vi o Bruno sentado sozinho, de costas, a uma certa distância, mirando o horizonte. Não era frequente que ele se isolasse sendo que todos os amigos estavam por perto. Eu caminhei na direção dele e não tinha ainda dado dois passos, quando Andrés me chamou, a voz vinda de trás de mim. Bruno permaneceu impassível, apenas mirando o horizonte. Eu me virei para olhar e Andrés não estava em meu campo de visão nem remotamente próximo a ele. Senti o vento numa rajada e, quando ia continuar a caminhada em direção ao Bruno, nem ele estava mais em meu campo de visão. Tinha sumido. Olhei em volta e ele não poderia estar longe, o lugar era plano e me dava a visão de uma boa distância. Ele não poderia estar longe, mas estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei ao alpendre e encontrei "sêo" Danilo. Ótimo momento para trocarmos impressões sobre toda a loucura dos dias passados, e o que era melhor, sem o zunido de Tinnitus para atormentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não estive no ritual da Polícia. Agora vejo que deveria ter ido"&lt;/em&gt;, o sertanejo me dizia, &lt;em&gt;"tudo o que aconteceu por esses tempos esteve diretamente ligado ao ritual, "sá" Stella. Eu seria um a mais para dar ideias sobre o sino."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O senhor não perdeu nada, "sêo" Danilo, de verdade"&lt;/em&gt;, eu lhe contei em tom confessional a inveja que senti dele em sua casa tomando café enquanto eu tinha de ficar ali naquele horror. Ele riu discretamente, como era de seu estilo comedido. Mas disse que o que eu relatava só fazia aumentar seu pesar por não ter ido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sabe, as suas dúvidas sobre o trabalho da Polícia. Eu não fui ao ritual porque eu tinha as suas mesmas dúvidas até então"&lt;/em&gt;, ele tornou, com o mesmo tom confessional que eu tinha tido, &lt;em&gt;"na Ilha Basilisco, diante do poço, eu vi o que era tudo aquilo. Toda a loucura do mundo aprisionada naquele poço e nas águas daquele lago. Pensamentos, ideias que formam basiliscos a todo momento, que invadem o astral da cidade e transformam o lugar num inferno. Vi tudo isso só de olhar por segundos nas águas daquele poço. Olhasse mais um pouco, estaria naquela água com eles."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei o ritual a ele resumidamente e ele ouviu com atenção. Acostumado às coisas da cidade, mesmo assim ele não deixava de se espantar. Lembrou do momento em que o Sol ficou negro; sabia o que era, fechou todas as portas e janelas da casa e se recolheu. Ele disse que teve sonhos estranhos à noite. Segundo ele, os sonhos eram parte da obrigação dele de ter estado no ritual. O relato dele me espantou bastante. Pensava nele e no ritual como coisas à parte uma da outra, mas me lembrei de Meire, Aparecida e Duílio também relatando terem se sentido estranhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés apareceu todo pimpão e eu o chamei para junto de nós. Perguntei o que ele queria comigo. Ele ficou espantado com a minha pergunta, &lt;em&gt;"eu? Mas eu não chamei a senhora, D. Stella&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei a ele o que aconteceu quando eu ia conversar com o Bruno. Andrés me olhou de forma estranha. "Sêo" Danilo me olhou de forma mais estranha ainda. Detesto quando eles me olham de forma estranha. Quebrei o silêncio da forma que, iria descobrir em seguida, seria a mais devastadora possível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que você e o Renan me levaram para aquele lugar?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que lugar, "sá" Stella?"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo se interessou, já olhando para Andrés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descrevi o lugar e vi o assombro crescendo nos olhos dele. Achei que ele se maravilhava pela descrição do lugar, mas não demorei a descobrir que o motivo do assombro era outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas, "sêo" Andrés, que ideia foi essa de levar "sá" Stella naquele lugar???"&lt;/em&gt;, eu vi Andrés se encolher ligeiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bruno acho que também não gostou da história. Ontem e hoje nem me dirigiu a palavra"&lt;/em&gt;, eu disse, fazendo o sertanejo colocar as mãos na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vamos rezar pra que o Jardineiro não fique zangado, "sêo" Andrés, mas que ideia!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés tentou se defender com o argumento de que eu tinha criado tudo o que existia em Taurinos, mas "sêo" Danilo refutou veemente, &lt;em&gt;"não importa se ela criou tudo por aqui, ela é de outra cidade, o Jardineiro sabe disso, sabe que ela traz coisas pra dentro do Santuário que não são dali. Pelo amor do astro Rei, Andrés, isso é &lt;b&gt;sacrilégio&lt;/b&gt;, sô!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o mais próximo que eu vi de "sêo" Danilo ficar zangado, o que realmente me preocupou. Repreendi Andrés (que já estava de orelhas quentes) e fiquei de conversar com o Renan. Andrés girou nos calcanhares e sumiu. Conversando com "sêo" Danilo, entendi que o Santuário era uma espécie de banco genético da flora e da fauna de Taurinos e me arrepiei toda em imaginar que eu pudesse, com minha entrada no local, ter alterado alguma coisa no delicado equilíbrio ecológico da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson veio e se juntou a nós, coisa impensável nos últimos dias. Me cumprimentou amigavelmente como no começo e se assombrou com as notícias do dia. O sertanejo olhava o menino atentamente, como se avaliasse a diferença dele de um tempo para outro e pareceu assombrado ele mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas o Renan e o Andrés deviam levar uma boa coça, isso sim"&lt;/em&gt;, ele defendeu, &lt;em&gt;"não é culpa sua, D. Stella, a senhora não sabia, mas &lt;b&gt;eles tinham&lt;/b&gt; que saber!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defendi os dois meninos. Achei que eles o fizeram porque achavam que eu tinha me "naturalizado" com a cidade estando aqui por tanto tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Naturalizado, que nada! O material que forma o seu corpo foi criado muito longe daqui. Se um fio de cabelo seu caiu dentro do Santuário, vai ser uma confusão dos infernos aqui"&lt;/em&gt;, o jovem policial disse, com a aprovação silenciosa da cabeça de "sêo" Danilo, &lt;em&gt;"eu não entendo nada de ecologia, sabe, mas de materiais eu conheço um pouco. Se a senhora tivesse criado Taurinos igualzinho a Santos, não tinha problema porque a natureza ia ser a mesma de lá e nós podíamos entrar de qualquer jeito porque a gente ia ser santista e não taurinense."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais confusão à vista. e dessa vez com um Jardineiro que nunca vi, mas que já deve estar furioso comigo logo de saída. Como eu poderia saber? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O Jardineiro Celeste mora ali dentro onde a senhora foi com eles"&lt;/em&gt;, contou Anderson, &lt;em&gt;"ele é a vida selvagem de Taurinos todinha numa pessoa só. Ele é todos os bichos selvagens, todas as plantas, nuvens, chuvas, raios que caem na cidade. Ele faz as plantas crescerem, os bichos mamarem, caçarem, cria todos os ciclos da vida, todas as adaptações para o bicho ou a planta sobreviver no cerrado, nos campos de altitude ou na mata ciliar. Ele é o que vocês na sua terra, em Santos chamam de Natureza. Lá é feminino, aqui é masculino. E ele às vezes fica &lt;b&gt;bem&lt;/b&gt; zangado. Como a mãe Natureza lá pode ficar &lt;b&gt;bem&lt;/b&gt; zangada também."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou para "sêo" Danilo em busca de aprovação e recebeu o sim. O sertanejo disse que não havia um sentimento de desconfiança do povo comigo pelo fato de eu ter entrado simplesmente. Apenas que meu material genético poderia interferir naquele reservatório de vida causando aberrações inexplicáveis. Nunca fui tão estrangeira. Me lembro das tribos indígenas assoladas por vírus trazidos pelos colonizadores e faço comigo mesma essa paralelo. Ao que parece, o Jardineiro Celeste não me aprovou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson, por outro lado, está bem. Ele é novamente o menino que conhecemos, graças ao bom Mitra. O ferreiro e chaveiro brincalhão que gosta de heavy metal e do trabalho com metais. Nem penso em sentar com ele e contar-lhe toda a loucura que foi esse período para todos nós, mas se ele me perguntar não pretendo esconder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O sino é maravilhoso"&lt;/em&gt;, eu dizia a ele, &lt;em&gt;"nunca tinha visto nada igual, a riqueza dos detalhes, as mensagens."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, o que salvou foi que o sino é inteligente. Ele fala meio enrolado, mas até que ele deu bem conta."&lt;/em&gt;, ele acrescentou arrancando risos de mim e de "sêo" Danilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei a ele se tinha visto o Bruno. Ele disse que não, que só no começo da festa. Achou que ele provavelmente já tivesse ido embora, &lt;em&gt;"o Bruno está bem zoado com essa história do Santuário, o Arthur e o Guilherme também. Até o Adriano ficou puto da vida com a história."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meninos em permanente estado de beligerância. A cidade contra a polícia, a polícia contra a natureza e assim por diante. Agora esse Jardineiro Celeste do qual eu nunca tinha ouvido falar. A perspectiva de ter que perguntar a três ou quatro pessoas diferentes de Taurinos se devo ou não ir a determinado lugar da cidade. A perspectiva de ter alterado um banco genético delicado como o do cerrado desta região em particular de Minas Gerais. Poucas e boas perspectivas. Mal saímos da maluquice do sino gigante e já entramos noutra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-9188130616831432142?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/9188130616831432142/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/sacrilegio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/9188130616831432142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/9188130616831432142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/sacrilegio.html' title='Sacrilégio'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-6798972882194415026</id><published>2009-07-08T17:23:00.004-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.483-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Retorno</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;I&lt;/span&gt;lha Basilisco. O vento perpétuo que assolava o lugar mesmo sob o Sol. Todos estavam ali, toda a Sociedade Antiga dos Taurinos: Adriano, Anderson, Andrés, Arthur, Bruno, Guilherme e Renan. Sem esquecer a que vos escreve e "sêo" Danilo. Bruno, quando olhava para mim, Renan ou Andrés, era com a cara amarrada. Eu tentava entender o que se passou ontem na trilha do Santuário, mas não conseguia. O maior mistério de Taurinos era que ela era antes de tudo misteriosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas parecem se tornar dias. O zunido do sino a tudo domina, vai ficando mais e mais grave, descendo as notas musicais uma por uma, parando lenta e angustiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descemos todos as trilhas que levavam ao recinto do sino. E lá estava ele. Arthur e Bruno estavam aturdidos com o tamanho do trambolho. Guilherme parecia nunca se acostumar à visão que tinha dele. Adriano e Andrés olhavam os desenhos, procurando instruções. Anderson se afastou do grupo e se dirigiu para a escada que dava acesso ao topo do arco de sustentação do sino. Já novamente não era mais o lojista que todos conheciam em Taurinos. Eu e "sêo" Danilo o observávamos atentamente. Guilherme também relanceava os olhos para ele. Renan viu o parceiro subindo e foi ter com ele. Alguns passos adiante, sentiu-se como que incomodado e novamente tirou do bolso de trás um saquinho com sal grosso (o mesmo no qual estivera sentado em cima no banco do carro quando visitamos a loja de ferragens) e o deixou comigo para que eu o guardasse. Fiquei pensando, &lt;em&gt;"moleque relaxado, nem pra guardar essas coisas quando chega em casa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos todos olhando para cima enquanto Renan subia penosamente a escada em espiral para o topo. Andrés e "sêo" Danilo começaram a dar a volta no sino, observando seus detalhes atentamente. Guilherme, Arthur e Bruno pareciam ser os que mais prestavam atenção na cena. Quando Renan já ia quase no topo, ouvimos Anderson gritar para ele lá de cima, &lt;em&gt;"vamos, Imortal, eu sei que você consegue!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu olhei para Guilherme e ele olhou para mim. Arthur e Bruno se entreolharam também. Definitivamente já tínhamos ouvido aquilo antes. Mas onde? Ao meu lado, Guilherme cantarolava uma canção de um xará seu nascido em São Paulo. Era "Nave Errante" de Guilherme Arantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Mitra. "Jacques DeMolay" estava de volta. E Renan estava lá em cima. Andrés retornou com "sêo" Danilo e nos disse que encontrou instruções no sino: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;A letra A tem teu nome. Mas o teu nome a letra A não começa.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não é o Anderson lá cima, Andrés"&lt;/em&gt;, Guilherme estava nervoso, &lt;em&gt;"é capaz de ser o último homem que ele matou no ritual, ele foi o único que falou da gente como Imortais, cara!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eles usam sal grosso pra prender esses pestes"&lt;/em&gt;, lembrou Adriano, &lt;em&gt;"lembra dos círculos no chão? Era isso que prendia eles, nada mais."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan me deixou o sal grosso que já estava no bolso dele há dias"&lt;/em&gt;, eu tirei o saquinho do bolso e Guilherme o tascou de minha mão, correu para a escada. Nós, é claro, fomos correndo atrás dele. Lá cima, Anderson ou o que quer que aquilo fosse, já tinha convencido Renan a se pendurar no arco do sino. Guilherme pediu que Adriano fosse na frente até lá ajudar a segurar o irmão. Caminhou por trás de Adriano e encheu a mão com os cristais brancos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano ajudou a segurar Renan apesar dos protestos do ferreiro e, quando nada mais se esperava, Guilherme deu um tapa nele com a mão que segurava os cristais. O ferreiro, ainda apoiado no parapeito, virou para o outro lado e caiu da altura de uma catedral, colidindo com a superfície de ressonância do sino, indo se espatifar lá embaixo na água dura do poço azul de basiliscos. Imediatamente, Anderson começou a nadar às cegas. Renan gritou a direção para ele e ele mesmo assim levou tempo para chegar à borda do poço, com o corpo marcado de mordidas de basiliscos que vimos ao descer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu te falei tanto pra você não olhar nos olhos dele naquele dia, cara. Eu te falei por bosta!"&lt;/em&gt;, ele abraçava e esmurrava o parceiro numa mistura estranha de raiva e alegria que não me era estranha em se tratando de Renan. Anderson retribuiu o carinho fracamente, &lt;em&gt;"nos olhos de quem?"&lt;/em&gt;, sentindo todo o corpo formigar. Começou a juntar o povo da Sociedade Antiga dos Taurinos. Ninguém acreditava no que tinha acabado de presenciar. Um caso autêntico de possessão por forasteiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E a tal entidade?"&lt;/em&gt;, perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"No poço, junto com os outros basiliscos"&lt;/em&gt;, me disse o"sêo" Danilo, &lt;em&gt;"voltou à origem dele."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Os forasteiros, entrantes, o que seja, são basiliscos?"&lt;/em&gt;, eu estava curiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, era o que a senhora não entendia sobre o trabalho da Polícia Obscura. Alguns são mais desenvolvidos, mais complicados e outros são mais simples, mas são todos basiliscos"&lt;/em&gt;, ele informou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A declaração dele, mais o que passei ontem na sala de estar com Renan, me deu bastante o que pensar. A forma humana era o que tornava a atividade dos meninos perturbadora. Ao redor os garotos se empenhavam em suas conversas também e sobre como todos tinham estranhado o modo de Anderson olhar e como a memória da letra de música pareceu revelar tudo. O sino não funcionava porque a energia da Polícia Obscura que o tinha posto para dobrar em movimento perpétuo não estava correta. A interferência era o basilisco complexo que eu chamei de "Jacques DeMolay", usando Anderson como hospedeiro. Lembrei da experiência de Renan ao lhe dizer que nunca os olhasse nos olhos. Lembrei de Andrés me dizendo isso mesmo, se referindo ao Renan, na Santa Casa de Santos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som da nota começou a subir. O movimento do sino se tornou perceptível à visão comum. Estava acelerando. Estaria acelerando demais? Pelo vozerio em redor, percebi que não era só eu com essa dúvida. Anderson explicou que ele iria acelerar por algum tempo para pegar novamente o ritmo da terra e recuperar o tempo perdido. De fato, o sino atingiu um ponto onde o volume do zunido começou a baixar e finalmente desapareceu de nossa audição, quando o sino ficou aparentemente imóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que está funcionando certinho"&lt;/em&gt;, disse Anderson, &lt;em&gt;"mas chegou a dar muito problema com o sino?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu chutei a canela de Andrés para prevenir um ataque de riso que já se formava. Ele, é claro, me mostrou os dentes, mas já não era bem assim um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Teve um probleminha mas já tá tudo joia de novo, "sêo" Anderson"&lt;/em&gt;, assegurou o sertanejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi maravilhoso ouvir a voz de Renan de volta ao seu tom normal, assim como os movimentos dele. Eu já não aguentava mais aquela leseira. Aquele zunido. Toda aquela merda. O momento seguinte foi um momento em que Anderson me olhou de uma forma diferente da forma com que vinha me olhando desde o maldito ritual. Com a expressão que me lembrava de quando o conheci. Era como se um encanto tivesse se quebrado. Era mesmo um encanto se quebrando. Como se ele deixasse alguém em seu lugar e só agora tomasse pé da situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-6798972882194415026?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/6798972882194415026/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/retorno.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6798972882194415026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/6798972882194415026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/retorno.html' title='Retorno'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-3108304771892808850</id><published>2009-07-07T23:46:00.009-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.483-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Santuário</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;onana veio visitar o filho. Abraçou a cria, tomou café da manhã conosco. Era de notar o brilho nos olhos de Renan ao ver novamente a mãe, ao abraçá-la. Ela explicou a ele que seu pai ainda estava muito aborrecido e chocado com tudo o que aconteceu, mas que já dava sinais de querer a volta de Renan para casa. Segundo ela, seria apenas uma questão de tempo. O diálogo me alegrou e estranhamente também me entristeceu um pouco. Por que eu ficaria triste? Muito mais triste fiquei ao vê-lo bater à minha porta, vencido, renegado pela família que deveria protegê-lo e amá-lo. Por que então eu ficaria triste ao saber que ele estava a caminho de casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meire apareceu no MSN. Que saudades. Não nos víamos desde suas aventuras por aqui, desde a Festa da Cidade em fins de maio. Pergunto que dia é no calendário dela e ela me diz que é um domingo, 12 de dezembro de 2010. Meu Deus, como o tempo passou por lá. Por aqui parecia querer parar a qualquer momento e nos separar ainda mais no tempo, se já não estivéssemos distantes no espaço. Ela me mandou um link para uma série de televisão que estava seguindo no canal de ficção científica Sy-Fy, novo nome do antigo Sci-Fi Channel. O link não funcionou. Ela tirou um instantâneo da tela com o &lt;i&gt;print screen&lt;/i&gt; e me enviou como imagem. Era um seriado recente no canal, &lt;a href="http://www.syfy.com/sanctuary/" title="Sanctuary, no Sy-Fy. Imagine mais por muito menos!"&gt;Sanctuary&lt;/a&gt;. O slogan me causou espécie e me atraiu na mesma hora: &lt;em&gt;"até o que nos assusta precisa de proteção."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan passou pelo computador e viu a tela com o nome do seriado. O slogan também o atraiu para a imagem, &lt;em&gt;"de onde a senhora tirou isso?"&lt;/em&gt; e ele ficou me olhando com aquela carinha linda de mineirinho desconfiado, provavelmente achando que fosse alguma brincadeira com ele, &lt;em&gt;"se é alguma piada pra mim, não cola não; não tenho força nem pra parar armado."&lt;/em&gt; A voz dele em rotação cada vez mais lenta começava a me desesperar. Eu expliquei a ele o que era e ele se interessou bastante pelo tema. Lamentou não poder assistir a série. Eu disse a ele que talvez pela internet fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinnitus vem num crescendo aparentemente sem fim. Renan se queixa do som, eu me queixo do som, assim como todos em nossa volta. E como tudo o que não está resolvido em Taurinos, vai daqui para pior. A Polícia Obscura está completamente dividida, com cada um dos meninos vivenciando o problema do sino de forma quase que oposta a do outro. O sino diminuindo seu dobre vem trazendo para a mesma lentidão o policial mais novo, mas que é mais velho no serviço. O policial mais velho e que é mais novo no serviço não sofre qualquer mudança nesse sentido. O que é que está fazendo a diferença afinal? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação. Serão noites inteiras, talvez com medo da escuridão. Ficaremos acordados imaginando alguma solução pra que esse nosso egoísmo não destrua nosso coração. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer? Brigar pra quê se é sem querer? Quem é que vai nos proteger? Será que vamos ter que responder pelos erros a mais, eu e você?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Será&lt;/b&gt;, escrito por &lt;b&gt;Legião Urbana&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Fui até a sala desligar o laptop, mudei de ideia e deixei a música da Legião Urbana tocando. Cada vez que uma música me surpreendia assim, ela parecia carregada de significados para o momento que eu estava vivendo. Fiquei analisando a letra, pensando no que queria dizer se manifestando assim. Porque se iniciava de determinados trechos, quando seu padrão era vir desde o começo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não gosto dessa música"&lt;/em&gt;, Renan me disse de repente, me assustando. Eu não sabia que ele estava ali parado como uma assombração na moldura da porta da cozinha. A imagem dele na passagem me causou arrepios. Eu não sabia porque o fato dele estar parado especificamente ali na passagem da sala para a cozinha havia de me causar arrepios. Mas sabia que era a localização dele que me afetava, mais do que a surpresa de encontrá-lo ali quando achei que estava em seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, você pode vir até aqui?"&lt;/em&gt;, e ele veio e ele ainda estava ali parado na moldura da porta da cozinha. Era isso que me incomodava no fato dele estar parado ali. Expliquei a ele o que via e ele olhou para a moldura da porta. Ele pediu que eu fechasse os olhos e quase no mesmo instante pediu que eu os abrisse. Quando meus olhos se abriram de novo ele estava colocando uma foice no chão, a mesma que usou para matar o entrante em seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Obrigado, até isso vem aqui roubar energia"&lt;/em&gt; e ele sorriu aquele sorrisinho de criança peralta que rouba goiabas no quintal do vizinho antes de explicar que cortou a cabeça do entrante que estava parado na moldura da porta da cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Como você fez isso? Não vi você fazer nada além de me pedir para fechar e reabrir os olhos, nem vi de onde tirou aquela foice."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu peguei a foice lá em cima, uai."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não é possível, Renan. Não ia dar tempo. Você me disse para fechar os olhos e logo em seguida para&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu parei o tempo quando a senhora fechou os olhos, fui lá em cima, peguei a foice e foi uma confusão dos diabos aqui dentro. Fiquei duas horas e meia pra pegar o manhoso porque eu não via ele, mas sentia. Esperei até a confusão terminar de secar e voltei o tempo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Espere, espere, você pode parar o tempo???"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu e o Anderson. E o Adriano também. Como a senhora acha que o Anderson conseguiu amarrar o relho dele no eixo do carro daquele forasteiro tão rápido? Como acha que o Adriano construiu sua casa igualzinha ela era em Santos em uma noite?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei da cena, a estreia de Anderson na Polícia Obscura. O forasteiro puxando a arma, o relho trazendo a arma para Anderson num movimento vertiginoso. Adriano reconstruindo a minha casa em plena Taurinos. Agora eu entendia tudo. A Polícia e seus segredos mortais. Taurinos e seus segredos em arquitetura. Mas o que eles podiam fazer com o tempo não estaria agora afetando o sino e o tempo na cidade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Externei minha preocupação a ele e ele disse que uma coisa nada tinha a ver com a outra. Que ele parava tanto a nossa percepção do tempo quanto a dos entrantes. Mesmo que o entrante atirasse, ele não tinha como alvejar o Agente, que tinha todo o tempo do mundo para se desviar do que quer que fosse. Tamanho poder me fascinou e me assustou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ais tarde, fomos Andrés, Renan e eu até um trecho de mata que entrava por um vale, não muito longe da fazenda Taurinos. Um santuário natural com uma pequena queda d'água cristalina, uma das paisagens de mata mais lindas que já vi. Eles disseram que era um lugar de descanso. Que todos eles paravam ali. Era dali a água que ia formar a lendária Cachoeira dos Chifres, mais para o outro lado do cerrado e da mata ciliar. O mais incrível era que aqui não conseguíamos ouvir o zunido permanente de Tinnitus. A princípio pensei que o zunido tinha parado, mas os meninos me disseram que o santuário o isolava fora. Que muitos bichos estavam migrando para o local para fugir ao ruído do sino. Vindo atrás dos dois, pouco antes de pararmos, senti meus cabelos se emaranharem num cipó, soltei os cabelos e e vim para perto deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É aqui que a gente reverencia o Jardineiro"&lt;/em&gt;, me disse Andrés, sorrindo para (e com) Renan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei que ele estava numa onda bicho-grilo de Arquiteto do Universo. Fiquei calada, observando a beleza natural ao redor, até Andrés ser picado por uma formiga, daquelas pretas de cabeça grande, &lt;em&gt;"nossa, o Jardineiro não deve ter gostado da brincadeira"&lt;/em&gt; e eu tive que perguntar que tanto falavam em um jardineiro. Os dois me olharam como se não soubessem o que eu estava falando e me deixaram confusa. Eles riram e eu não insisti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar me fazia sentir bem. Belíssimas libélulas, de cores vibrantes e voo gracioso passavam por nós como se estivessem curiosas com nossa presença. Borboletas de todas as cores e tamanhos passavam como pequenas bailarinas aéreas e Renan, incrivelmente, não as pegava para arrancar suas asas e torturá-las das maneiras mais bárbaras possíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos no santuário por quase uma hora, mas poderia ser até menos que isso, o tempo parando ilude muito. Como diria &lt;a target="_blank" href="http://www.tecacalazans.com/bresil/index.htm" title="Teca Calazans, trabalhando para você viver melhor."&gt;Teca Calazans&lt;/a&gt;, &lt;em&gt;"o tempo mente muito, mente; fazendo crer que ele seguiu"&lt;/em&gt;. Quando nós saímos de lá, topamos com o Bruno no caminho. E eu que nem sabia que ele vinha por essas bandas mas os meninos tinham mesmo dito que todos eles paravam por ali vez por outra. Bruno passou por nós sem dizer uma palavra. Eu ia cumprimentá-lo, mas Renan sinalizou para que eu não o fizesse. Sem entender nada, fiquei calada. Bruno passou por Andrés e disse a ele, &lt;em&gt;"dessa vez foi só uma formiga, da próxima vez pode ser pior, meu chapa."&lt;/em&gt; Andrés só faltava assobiar em disfarce. Eu, é claro, não entendi absolutamente nada daquela pantomima. Os meninos, é claro, não explicaram absolutamente nada daquela pantomima.&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-3108304771892808850?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/3108304771892808850/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/santuario.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/3108304771892808850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/3108304771892808850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/santuario.html' title='Santuário'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4373680394399167210</id><published>2009-07-06T17:05:00.001-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.483-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Espectros</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;F&lt;/span&gt;omos eu, Andrés e Renan até a loja de ferragens do Anderson. Renan se queixava ainda dentro do carro de um volume incomodando em seu bolso de trás. Tirou e era um saquinho de sal grosso. Fiquei olhando para ele sem entender nada e ele pareceu embaraçado enquanto ficava segurando o saquinho branco cheio de cristais na mão. Entramos na loja e sentimos uma espécie de movimento passando por nós, como alguém correndo, provocando aquele deslocamento de ar, mas um ar frio e carregado que estranhamos bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa que estranhamos bastante foi que Anderson nos atendeu normalmente. Não parecia o mesmo que tinha estado na praça ontem provocando desmaios e convulsões entre populares, segundo eu fiquei sabendo depois. Era o mesmo chaveiro e lojista que todos conheciam em Taurinos. Cada vez que alguém encontrava as crianças daqui, elas estavam num aspecto diferente. A cidade seguia ao sabor desses aspectos. Ou espectros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chaveiro alegou não se lembrar de ter estado armado na praça. Achei que ele estava despistando, mas não notei contradições no que ele disse. &lt;em&gt;"Podia muito bem ser verdade"&lt;/em&gt;, eu disse aos dois meninos quando deixamos a loja. Andrés ficou desconfiado da resposta do ferreiro, mas também impressionado com a diferença de comportamento dele para o comportamento de dias atrás. Renan não disse nada. Ficou o tempo todo fitando o ferreiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;D&lt;/span&gt;e noite, "sêo" Danilo apareceu para uma visita. Ele não tinha aparecido ontem e parecia ansioso para saber notícias. Hoje já consigo perceber "sêo" Danilo mais em linha com os assuntos da cidade. Talvez ele sentisse que não tinha outro remédio a não ser ajudar. Desde o início de tudo envolvido na história, "sêo" Danilo desvendou (e desvenda) muito de Taurinos para mim. Ele perguntou por Renan, que eu tinha deixado dormindo em seu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu fiquei estarrecido com a história do polegar do "sêo" Anderson"&lt;/em&gt;, me disse logo o sertanejo, ainda parecendo alarmado pelo que ouviu na reunião no Mithraeum, &lt;em&gt;"mas isso não é coisa dele, "sá" Stella. "Sêo" Anderson pode ter mil defeitos, mas uma coisa dessas contra o amiguinho dele ele não faria no juízo perfeito, sabe."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse a ele que Adriano e Guilherme e eu mesma compartilhávamos dessa idéia. De que Anderson não estava em si. Eles percebiam o olhar dele e sabiam, como eu sabia, que já o tinham visto antes. Ele se interessou pelo assunto que Guilherme tinha conversado comigo e Adriano na ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Então já tinham visto ele antes assim, "sá" Stella?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O mais incrível é que nenhum de nós se lembra onde viu isso acontecer."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou pensativo. Disse que não haveria muito que ele pudesse oferecer em termos de questionamento pelo menos naquele momento. Que tinha andado distante dos acontecimentos, cavando sua vida aqui e ali. Me disse que a &lt;a target="_blank" href="http://www.cemig.com.br/" title="CEMIG, trabalhando para você pagar melhor."&gt;CEMIG&lt;/a&gt; finalmente instalou o poste; agora sua casa tinha energia elétrica. Ele me convidou para ir lá para um café como nos "velhos tempos", o que naturalmente aceitei, antes que voltássemos ao assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E se não há nada de errado com o Anderson fisicamente, alguma coisa acontece com esse sino que deixa a mente de um confusa e o corpo do outro um caco. Se a gente observar, Anderson está intacto fisicamente, mas um caco mentalmente enquanto que Renan está intacto mentalmente, mas um caco fisicamente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas e a senhora acha que o problema então pode estar no sino?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que sim. Mas isso, se a gente olhar de novo, então é um círculo vicioso. Se não arrumar o sino não tem forças e se não tiver forças não arruma o sino."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Ói, se a senhora for pensar pra trás, eu acho que quando o "sêo" Anderson ainda não tinha entrado pra Polícia, ele não estava assim. Era um menino centrado, mais respeitoso com os mais velhos, prestativo, alegre, sorridente, não é? Creio em Deus padre, nunca mais vi aquele menino sorrindo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, acho que a Polícia Obscura fez muito mal a ele. Acho que muita coisa vem dessa raiva que ele tem por ter sido "forçado" a entrar na Polícia."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Muita coisa, a senhora diz. Mas pode ser que não seja só isso."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, esse para mim é o ponto da questão."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me olhava como se considerasse um outro lado da questão, o que realmente estava acontecendo, &lt;em&gt;"mas agora se olhar pelo lado da Polícia, o ritual deles é escuro, pesado; quando faz com os touros é uma coisa. Mas ali já tem forma de gente, às vezes pode isso impressionar muito o menino. E ele é mais velho que o Renan, devia suportar isso melhor, mas nem sempre é a idade que conta, é mais o temperamento da pessoa, não é?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordei com ele, achei que era uma análise bastante lúcida. Sim, o ritual era o ponto de partida (ou a ocasião precedendo o ritual era).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4373680394399167210?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4373680394399167210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/05/espectros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4373680394399167210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4373680394399167210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/05/espectros.html' title='Espectros'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-8998306384043416567</id><published>2009-07-05T00:23:00.005-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.483-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Eterno por-do-Sol</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;driano estava sentado no alpendre quando eu e Renan chegamos à fazenda Taurinos. Eu pedi a Renan que ficasse no alpendre com Adriano e fui falar com o irmão dele; eu estava irritada com Andrés pelo modo como ele expôs Renan durante a reunião de ontem e disse isso a ele com todas as letras ao encontrá-lo na Internet em seu quarto. Ele se defendeu habilmente dizendo que teria de levar o assunto ao conhecimento de todo o Conselho, ele quisesse ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não interessa. O modo como você expôs o Renan foi estúpido e insensível. Você parece não se importar muito com o que as outras pessoas sentem. Tudo bem, não peço que se importe, mas finja que é gente de vez em quando e, por favor, não coloque as pessoas nessa situação porque você tem uma cidade para consertar."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andrés ficou calado. Sentou na cama de lado, emburrado, e parecia não querer me encarar. Eu o larguei no quarto e desci para o alpendre. No caminho, procurei por Aparecida e Duílio para cumprimentá-los, mas aparentemente eles tinham saído. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos conversando eu, Adriano e Renan, ainda tristonho pelo que tinha sido forçado a ouvir sobre o parceiro de cavalgadas noturnas. Adriano, que tinha ateado fogo à controvérsia ontem, hoje se esmerava em relativizar o acontecido. Estranhamente, não vi uma contradição dele entre ontem e hoje, embora a conduta dele fosse bem diferente. Eu achava que ele tinha em mente realmente observar o comportamento do ferreiro. Era evidente para mim que ele tinha sido cauteloso ao sugerir o exame de seu comportamento, como se concordasse com a avaliação de Guilherme sobre já ter visto aquela expressão nele antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, eu dei essa sugestão porque eu não acho que ele esteja no juízo normal dele. Fica assim não, Renan, é tudo da boca pra fora; não é o Anderson quem está falando."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Iss' mes, Renan"&lt;/em&gt;, disse a voz familiar do caçula Conselheiro depois do tradicional som das molas barulhentas da porta de tela do alpendre se abrindo, &lt;em&gt;"não deixe isso te abalar, ele não está falando como um de nós, cara"&lt;/em&gt;, Andrés relanceava os olhos timidamente para mim talvez a ver se eu aprovava o consolo que ele acabava de propor para a cagada feita no dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu sei disso, Andrés"&lt;/em&gt;, disse Renan, sombrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A gente precisa descobrir o que está havendo com ele. O que é que está causando isso"&lt;/em&gt;, eu atalhei, &lt;em&gt;"precisa voltar para trás, tentar imaginar desde quando isso está acontecendo. Como quando alguém esquece uma coisa e tenta lembrar, voltando ao lugar onde esteve pensando nessa coisa."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu vi aquele modo de olhar antes"&lt;/em&gt;, disse Andrés, &lt;em&gt;"mas agora já não sei se foi antes mes."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano assentiu. Todos nós, menos Renan, parecíamos ter reparado no olhar dele. Algo alucinado, perdido numa contemplação sem fim de algo que nós mesmos não gostaríamos de presenciar pessoalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Preciso reparar nisso"&lt;/em&gt;, disse o pequeno policial, com o olhar abatido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu quero me desculpar com você, Renan"&lt;/em&gt; e Andrés voltou os olhos para mim antes de encarar o amigo, &lt;em&gt;"eu não devia ter contado aquela história com você presente."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan olhou para Andrés e sorriu um sorrisinho minúsculo, do tipo que por vezes brincava no rosto das crianças daqui, um sorriso fugaz, carregado (também) das vibrações pesadas daqui. Disse que Andrés tinha feito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu precisava mes saber quem está rodando comigo à noite, Andrés"&lt;/em&gt;, ele disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O assunto serenou. Um silêncio se fez ouvir, em meio ao zumbido de Tinnitus que mais espaço ocupava na cidade a cada dia. Não quero imaginar o que acontecerá quando ele parar. O Sol descia, já ia bem baixo, somente o clarão dele no horizonte. Um por-do-Sol eterno pelo tanto de tempo que já está acontecendo. Poderíamos ganhar dinheiro com turistas bicho-grilos, a fim de presenciar um por de sol de mais de cinco horas aqui em Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro zumbido se fez ouvir, se sobrepondo ao zumbido de Tinnitus. Eram Aparecida e Duílio chegando da cidade, a julgar pelo caminho que vieram. Disseram que viram a Polícia Obscura armada na cidade. Renan e os irmãos Conselheiro arregalaram os olhos para o casal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas como o Anderson pode tá armado quando a gente não tem energia nem pra ficar em pé???"&lt;/em&gt;, Renan estava perplexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que é só você que não tem energia nem pra ficar em pé, Renan. Seu parceiro nesse ponto parece bem normal, rapazinho"&lt;/em&gt;, afirmou Duílio, &lt;em&gt;"e ele estava lá no meio da praça, armado, olhando para todo lado. Eu e Aparecida tivemos que dar uma volta enorme pelas ruas de trás pra não passar pela praça. Só de ver ele de longe, de quatro ruas mais abaixo, eu quase bati a merda do carro. Nó, como dizem por aí, ninguém merece."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos entreolhávamos enquanto Renan pediu a Duílio para usar o telefone. Ligou para o Souza, perguntou se a Polícia ainda estava na praça. Ele disse que não havia mais nada, nem ninguém na praça. Tivesse ele ficado lá, teríamos de ir desarmar o Agente, o que, no dia de hoje, com esse zumbido que começa a se tornar infernal, nesse novo cenário apocalíptico de Taurinos, equivalia ao prazer que se sente ao se ir a um velório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-8998306384043416567?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/8998306384043416567/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/eterno-por-do-sol.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/8998306384043416567'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/8998306384043416567'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/eterno-por-do-sol.html' title='Eterno por-do-Sol'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4689612300558230107</id><published>2009-07-04T05:41:00.007-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.484-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Método</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;M&lt;/span&gt;ithraeum. Os sete meninos, "sêo" Danilo, eu. Anderson parece cada vez mais isolado do grupo. Por vezes chego a notar uma certa estranheza dele ao lugar, como se ele ali não pertencesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se ali não pertencesse. Não sei porque a frase ficou dando voltas na minha cabeça. Agora Bruno abria a reunião com uma analise simpática das tentativas até o momento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, nós achamos que um músico poderia ajudar, então foi o Guilherme. Só que não funcionou. Alguma outra ideia brilhante?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Alguma ideia brilhante sua, Bruno? Não vejo você envolvido na história, como se quisesse ficar na sombra. Arthur não tem colaborado também, mas pelo menos está calado, sem cobrar ninguém"&lt;/em&gt;, Guilherme pareceu irritado com as críticas do amigo ranzinza da fazenda Pinho. Volvi os olhos para Arthur, que pareceu francamente incomodado com a cobrança velada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Estou à disposição de vocês para ir pra Ilha Basilisco a hora que quiser"&lt;/em&gt;, declarou Arthur, seguido de perto por Bruno. Este último acrescentou, &lt;em&gt;"o que eu quero dizer mesmo é que nada está funcionando. Não queria dizer que vocês não estão ajudando, sei que estão, muito mais que eu, mas será que nada do que a gente faça consegue dar jeito nas coisas? Que merda é essa que sempre acontece que dá tudo errado?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bruno, a gente entende a sua zanga, mas se o povo não se juntar e assuntar junto, não se chega a lugar nenhum. Só a zanga não leva a nada"&lt;/em&gt;, "sêo" Danilo admoestava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Gente, o papo está bom, mas como disse "sêo" Danilo, e quanto à situação?"&lt;/em&gt;, Andrés sentia a conversa saindo fora do eixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não há problema nenhum na fundição do sino"&lt;/em&gt;, adiantou-se Anderson, com aquele ar irritado que eu já tinha me enjoado de ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não há mesmo, Anderson"&lt;/em&gt;, concordou Andrés, &lt;em&gt;"o problema está em você ou Renan ou nos dois juntos."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pausa carregada de significado e pensamentos. Depois, Renan entrou numa defensiva e disse que não havia nenhum problema com ele em si. Sua rotação, como membro da Polícia Obscura vinha caindo junto com o sino, era consequência dele e não causa de seu problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se é assim, por que é a rotação do Anderson não cai?"&lt;/em&gt;, inquiriu Bruno, agora mais atento à matéria de que se tratava ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson virou para ele como que tocado por uma descarga elétrica. Foi nítida a reação brusca que ele teve. Cada vez que era mencionado, um tranco. Tenho de concordar com Renan quando ele diz que está sendo afetado pelo problema do sino ao invés de causá-lo. O problema em questão estava em Anderson. Todos os olhares convergiram para o ferreiro. Ele assumiu uma postura defensiva na própria linguagem de corpo que demostrou. Eu vi Guilherme tirar o diapasão do bolso e percutir a arquibancada com ele. O som minúsculo se propagou no silêncio e nada mais aconteceu. Anderson olhava para ele, como se soubesse que Guilherme o estava testando com aquele garfinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A pergunta é boa"&lt;/em&gt;, ajuntou Arthur, &lt;em&gt;"se o problema afeta a Polícia Obscura, por que só Renan está rodando em velocidade mais baixa enquanto Anderson, que faz tão parte da Polícia Obscura quanto ele está rodando em velocidade normal?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson não soube responder a pergunta dos dois. Era um questionamento válido. O que causava a diferença entre os dois? Anderson mostrava-se abertamente desconfortável com o assunto. Mas Andrés parecia ter uma bomba maior com a história do polegar que foi oferecido a ele pelo ferreiro. A história provocou estranhamentos entre os presentes. Eu vi Renan se encolher e baixar a cabeça, atacado de uma súbita tristeza por aquilo que tinha acabado de ouvir. Eu sentei ao lado dele e ele se agarrou comigo chorando. Todos pareciam chocados com o que tinham ouvido. "Sêo" Danilo olhou para mim embasbacado e eu confirmei a história com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Isso é blasfêmia, irmão Anderson. Você não passou no teste. Viu que não seria difícil obter um método de acabar com o Renan se tivesse um polegar pra oferecer"&lt;/em&gt;, sentenciou Andrés, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anderson perguntou calmamente (ou procurando aparentar calma), &lt;em&gt;"e qual é a punição?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A que o Conselho decidir"&lt;/em&gt;, adiantou Adriano, &lt;em&gt;"vamos examinar a sua conduta, irmão ferreiro, muita gente aqui tem diferença com o Renan, mas querer fazer mal é outra coisa. Ele é do nosso povo, como você, D. Stella, qualquer um aqui dentro."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4689612300558230107?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4689612300558230107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/metodo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4689612300558230107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4689612300558230107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/metodo.html' title='Método'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4200550187268977686</id><published>2009-07-03T23:47:00.010-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.484-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>São João</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;R&lt;/span&gt;enan acordou às quatro da manhã. Se movia pela casa como um elefante minúsculo. O carpete no andar de cima não era suficiente para abafar os passos pesados do pequeno. Claro que acabei perdendo o sono e fui ter com ele, pedir um pouco de silêncio. Fui ao quarto dele, acendi a luz e ele estava dormindo normalmente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os passos no andar de cima não paravam e pela progressão, pareciam vir por trás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Renan, tem alguém aqui dentro"&lt;/em&gt;, eu o sacudi e ele abriu os olhinhos sonados, arregalou os dois de súbito, olhou com uma expressão de terror e alarme que eu nunca tinha visto nele, como se olhasse por trás de mim, não diretamente para mim. Quando dei por mim, eu estava caída no chão do quarto dele. Perto da porta, sangue em todo ponto da parede e do chão, uma poça que refletia a luz do abajur; o corpo de um homem para um lado, a cabeça para outro, cabeça horrenda virada de frente para mim, os olhos arregalados dos estertores de uma morte violenta. Expressão dantesca que nem todos tem o privilégio de ver num cômodo de sua casa às quatro horas da manhã de uma sexta. Aterrorizada, virei os olhos daquela coisa horrível e vi Renan, sentado na cama ainda com uma foice na mão, olhando para mim, sem conseguir se erguer para me ajudar. Via-se que tinha dispendido um exagero de energia para fazer aquilo. Olhei de novo para a porta e não havia nada mais ali. Como se fosse um sonho, mas segundo Renan, não era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não tem nada ali, mas tinha"&lt;/em&gt;, me disse ele com o ar abatido dos últimos tempos, &lt;em&gt;"se eu não empurro a senhora, tinha lhe encostado e lhe tirado toda a energia."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos para fora um pouco; ficamos olhando o céu lá fora, fazendo uma higiene mental. Ele estava com um pouquinho de frio da madrugada e eu sentei atrás dele, um degrau acima, o abracei e ficamos sentados no alpendre, olhando as estrelas. &lt;em&gt;"Estranho como demora a amanhecer"&lt;/em&gt;, pensei algumas horas depois. Engraçado que ele acabou dizendo o mesmo, apenas com outras palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tinnitus está parando o tempo. Os relógios. O giro da Terra em volta de Taurinos, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Quer dizer a Terra toda???"&lt;/em&gt;, eu estava ficando assombrada pelo alcance da coisa. Na hora me lembrei dele matando os dois forasteiros aqui e os dois morrendo de verdade no plano físico em Santos. Será que isso iria afetar a rotação do planeta inteiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não, isso é só aqui no município"&lt;/em&gt;, ele disse a palavra "município" num sotaque montanhês tão engraçadinho que eu tive um ataque de ternura e o beijei na cabecinha. Ele sorriu, mas ficou surpreso como sempre fica. Tentei falar no incidente no quarto dele e o menininho me disse que eu só falasse a respeito quando Mitra saísse de carro, logo ao romper do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que a senhora me beijou?"&lt;/em&gt;, ele sorriu novamente, curioso, &lt;em&gt;"por eu ter matado o entrante no quarto?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E também porque eu acho um amorzinho o jeito de vocês falarem. Muito lindinho"&lt;/em&gt;, e ele deu uma risadinha minúscula ao ouvir isso. De repente, ele me encarou sério, como se aquilo despertasse nele uma pergunta por uma curiosidade que havia muito pensava em satisfazer, mas não tinha ainda achado oportunidade de falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Por que a senhora fez a gente mineiro, D. Stella?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Não sei, Renan, não tenho a mínima ideia. Talvez porque eu goste daqui. Por que? Você não gosta de ser mineiro?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Acho que gosto. Mas também nunca fui paulista, gaúcho, sergipano ou amazonense pra saber se é melhor ou pior"&lt;/em&gt;, respondeu a coisinha redonda e fofinha antes que eu o beijasse novamente em mais um de meus ataques de ternura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;ndrés apareceu junto com o irmão mais velho e ficamos conversando. Comentamos sobre como a falha do sino estava começando a trazer problemas. O zumbido começava a incomodar e se tornar mais alto para todos nós. Adriano foi o primeiro dos dois irmãos a mencionar que o tempo estava passando cada vez mais devagar. Andrés disse que a ideia de Anderson em construir o sino foi perfeita, mas que o que causava o problema que enfrentávamos agora poderia muito bem estar diante de nosso próprio nariz. Contei a eles sobre o incidente no meio da noite e eles disseram que era só o começo. Eles falavam como se ainda estivéssemos na Lei dos Touros em março.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano contou que viu sombras escuras em torno da casa da sede da fazenda Taurinos. Não se animou a ir ver o que era, até porque já sabia do que se tratava. Andrés acrescentou que não tinha como fechar as portas da casa para esse tipo de coisa, sempre acabava entrando, como moscas por uma janela sem uma tela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E o pior é essa canseira e falta de energia. Logo logo, eu e o Anderson não vamos mais ter força pra limpar a cidade desses trastes e aí eu quero ver"&lt;/em&gt;, reclamou Renan, ainda bem abatido da rápida aventura noturna de horror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Vamos lá, gente, nós temos que por as cabeças para funcionar. O que o sino quer dizer com aquelas mensagens? A solução, seja lá qual for, está nelas"&lt;/em&gt;, eu os conclamava a usar a massa cinzenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirei da bolsa uma folha onde eu tinha anotado as instruções do sino em sequência, &lt;em&gt;"primeiro ele disse que Anderson não poderia resolver sozinho, porque não entendia de música. Depois ele disse que Anderson não estava lá; que Renan estava sozinho. Depois disse que Guilherme estava lá e que a nota G tinha o seu dobre. O que isso quer dizer?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Anderson me falou que a nota pra que ele construiu o sino e a nota em que ele devia tocar era a nota que nós Taurinos consagramos ao Sol."&lt;/em&gt;, disse Renan, como se se lembrasse do que Anderson disse só naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A nota é Sol"&lt;/em&gt;, disse Adriano num espasmo de iluminação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri meu laptop. Na internet, procurei artigo sobre notação musical. Eu me lembrava que em alguns países, as notas musicais era referidas por letras e não pelos nomes em latim do antigo hino a São João, que encontrei no site de &lt;a target="_blank" href="http://robertinhomori.sites.uol.com.br/hino_saojoao.htm" title="Robertinho Mori, trabalhando para você viver melhor."&gt;Robertinho Mori&lt;/a&gt; e mostrei a eles, junto com sua tradução:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"&lt;b&gt;Ut&lt;/b&gt; queant laxis               &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Re&lt;/b&gt;sonare fibris             &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Mi&lt;/b&gt;ra gestorum &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Fa&lt;/b&gt;muli tuorum               &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Sol&lt;/b&gt;ve polluti                  &lt;br /&gt;&lt;b&gt;La&lt;/b&gt;bii reatum                  &lt;br /&gt;&lt;b&gt;S&lt;/b&gt;ancte &lt;b&gt;J&lt;/b&gt;oannes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que nós, servos, com nitidez&lt;br /&gt;e língua desimpedida,&lt;br /&gt;o milagre e a força dos teus feitos elogiemos, &lt;br /&gt;tira-nos a grave culpa&lt;br /&gt;da língua manchada&lt;br /&gt;ó São João."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Fiz ver a eles que cada nome de nota musical tinha sido tirado das iniciais de cada um dos versos. Eles se entreolharam como sempre fazem quando topam com algo em que nunca tinham pensado antes. Se interessaram vivamente pelo assunto. Andrés perguntou porque então o primeiro verso não começava com do, já que dali se tirou o nome da primeira nota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Porque o maestro italiano Giovanni Battista Donni, percebendo que &lt;b&gt;"ut"&lt;/b&gt; não era fácil de ser cantado, porque terminava numa consoante, mudou a sílaba para &lt;b&gt;"do"&lt;/b&gt;, usando a primeira sílaba de seu próprio sobrenome. Isso aconteceu no século 17, mais provavelmente em 1640"&lt;/em&gt;, eu expliquei a eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas nem a nota si encaixa, D. Stella"&lt;/em&gt;, ajudou Adriano, &lt;em&gt;"a inicial do último verso é "sa", e não "si"&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Encaixa sim. No último verso, ele tomou as iniciais das duas palavras, Sancte Joannes, &lt;b&gt;SJ&lt;/b&gt;, em vez da primeira sílaba da primeira palavra. Na Europa, em muitos países, especialmente os de língua germânica, como no latim também, o "i" e o "j" são exatamente a mesma letra."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas nó, D. Stella, o "i" e o "j" têm um som &lt;b&gt;muito&lt;/b&gt; diferente"&lt;/em&gt;, estranhou Renan, com aquela vozinha minúscula em rotação baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Para nós aqui, Renan; para eles, as duas letras têm o mesmo som. É outra língua, outra cultura"&lt;/em&gt;, eu disse a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles ficaram em silêncio. Não sabiam o que pensar. Abri a &lt;a target="_blank" href="http://pt.wikipedia.org" title="Wikipédia, trabalhando para você viver melhor."&gt;Wikipédia&lt;/a&gt;, em busca de correspondências para as notas musicais. Estava ali, sem margem para qualquer dúvida: a nota representada pela letra G era a nota sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4200550187268977686?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4200550187268977686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/sao-joao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4200550187268977686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4200550187268977686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/sao-joao.html' title='São João'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-4628569948461569283</id><published>2009-07-02T03:42:00.002-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.484-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Figura de um oito</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;G&lt;/span&gt;uilherme era o homem. Ou o menino, melhor dizendo. Melhor ainda seria dizer que ele era o cara. Ele quis trazer seu acordeon para a Ilha Basilisco, mas foi impedido pelo  irmão mais novo. Ao invés disso, acabou trazendo consigo um diapasão, mais fácil de carregar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a primeira vez dele e de Adriano na Ilha Basilisco. Ele olhava o sino criado pelo amigo ferreiro como eu, sem acreditar no que via. Em Taurinos se podiam ver coisas por vezes que assombravam os próprios moradores da cidade, acostumados àquela realidade mágica e irreal. Anderson parecia cada dia mais tenso, como se estivesse a ponto de explodir. Na vinda, eu tive que colocá-lo separado de Renan, no banco da frente, ou Adriano (que hoje era quem dirigia o carro) iria acabar batendo ou capotando, tamanha a energia destrutiva acumulada dos dois. Guilherme parecia tenso também, podia sentir no ar a tensão entre os dois policiais e parecia preferir estar em qualquer lugar que não fosse o carro dos Conselheiros naquele momento. Eu não podia culpar o garoto, mas ele parecia ter um papel essencial no problema que se apresentava naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;N&lt;/span&gt;a ilha, Guilherme esperou que os dois policiais se adiantassem e, sós comigo e Adriano, comentou que desde o dia do ritual não reconhecia o velho amigo Anderson. Isso era mais que natural, quem sai de um ritual daqueles exatamente como entrou? Nem nós, que nem éramos os executantes, o que dirá Anderson. O menino objetou que havia algo na expressão de Anderson que ele, Guilherme, já tinha visto antes. Eu disse a ele que tinha tido a mesmíssima impressão, de uma forma muito nítida. Que eu já tinha visto aquele olhar antes. Guilherme também achou que o detalhe que chamou sua atenção na expressão dele poderia mesmo ser o olhar. Adriano nada dizia, mas parecia sentir o mesmo: seguia interessado e silente a um só tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sentia falta da sobriedade e da temperança do velho sertanejo Danilo no dia de hoje. O modo como impôs respeito ao Anderson quando ele já se destemperava mais uma vez, seu conhecimento da cidade, sua guarda intemporal dos costumes locais. Claro que havia limites no que ele poderia fazer. Somos reféns desses sete meninos. Quando "sêo" Danilo disse que não tínhamos como separar sozinhos os meninos quando brigavam, que éramos apenas adultos, era isso que ele queria dizer. Hoje estou só no meio desses monstrinhos minúsculos, pequenos paióis de pólvora sempre prontos para voar pelos ares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sino, não precisamos dar a volta. A parte voltada para o final da trilha já mostrava um outro desenho. No texto gravado, a mesma disposição enigmática da primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;em&gt;"A letra A tem teu nome. A letra A é a primeira letra da palavra "ausente". A letra R tem teu nome. Tu estás aqui, mas tu estás sozinho. A letra G tem teu nome. A letra G tem teu dobre."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Fiquei olhando para Anderson e ele me devolveu um olhar no mínimo embaraçado. Renan olhou para mim e para os outros, tão confuso quanto todos os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E essa agora?"&lt;/em&gt;, perguntou Adriano, &lt;em&gt;"mais uma charada?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma chorada, isso sim. Longe de apontar soluções, o "manual de instruções" auto-atualizável de Tinnitus só parecia nos propor mais problemas. Definitivamente há algo emperrando as coisas por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, subimos todos a escada em espiral, apesar dos protestos dos dois policiais, especialmente de Anderson que se opôs o quanto pode até que eu, Adriano e Guilherme pusemos os dois em xeque. Afinal, a Polícia Obscura era subordinada à Sociedade Antiga dos Taurinos por mais que fossemos da Câmara Externa da Polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá em cima, era um passeio largo, como uma canaleta e parapeitos com altura razoável para o vento que corria por sobre o topo do sino, um vento contínuo, permanente. Tínhamos chegado ao ponto mais ventoso da ilha: o próprio topo do arco do sino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramos em frente ao equipamento. Eu nunca tinha visto nada parecido. Era uma caixa soldada no chão ou talvez fosse melhor dizer que ela era inteiriça, formando um todo com o resto do imenso arco de sustentação de Tinnitus. Sobre a caixa, um oito deitado como os que se viam nas armaduras noturnas e pavorosas da Polícia Obscura. O oito era como uma partícula luminosa se movendo ali sobre o tampo da caixa, formando sua figura artificialmente e absurdamente luminosa mesmo à luz do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme se juntou aos outros dois e também colocou suas mãos sobre o oito. Eles fecharam os olhos e ouvi Anderson dizendo coisas a ele baixinho, algo como instruções do que Guilherme deveria imaginar enquanto se concentrasse. O zumbido do sino já começava a incomodar, especialmente nesta ilha, tão perto dele, especialmente quando estávamos exatamente em cima dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada aconteceu. O zumbido continuava. Renan coçou a cabeça e olhou o parceiro e o irmão. Anderson tinha o ar distante, enquanto Guilherme parecia que o observava com atenção. De repente, Guilherme tirou do bolso o diapasão que tinha trazido e com ele deu leve pancada no arco. O mais estranho de tudo sucedeu nesse instante: Anderson caiu desmaiado no exato momento em que Guilherme fez isso. Enquanto socorríamos o ferreiro, Guilherme parou com o diapasão na mão. Relanceei os olhos para ele e ele olhava para mim, aparentemente confuso com o que acabava de acontecer. Não menos ficamos eu, Renan e Adriano. Guilherme afirmou que a nota não se encaixava mesmo com a do diapasão; estava descendo mais e mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;ndrés ficou dando voltas pela sala como uma fera enjaulada enquanto eu e Adriano contávamos aos pais dele sobre o dia de hoje. A mesma sensação de estranhamento por toda a parte, a linguagem hermética do sino trazendo mais confusão ao invés de soluções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Mas quer dizer que o "A" representa o Anderson?"&lt;/em&gt;, perguntou Aparecida, interessada e já se queixando do som do sino que começava a se tornar mais e mais presente, incomodamente presente. Agora, o sino já não é mais intermitente, algo que vem e que vai. Já se tornou contínuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Sim, como o "R" representa o Renan e o "G" o Guilherme"&lt;/em&gt;, explicou Adriano. Duílio acompanhava interessado, mas não dizia uma palavra. Como o próprio filho mais velho, mais cedo na ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"E se ele estava ausente, quer dizer que ele não estava lá? Que ia querer dizer com isso, que ele estava com a cabeça em outro lugar, por exemplo?"&lt;/em&gt;, ela continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriano não soube ou não quis responder; eu disse que achava a idéia dela bem pertinente. A passagem do desmaio de Anderson quando o som do diapasão foi produzido foi a que causou mais estranhamentos na fazenda Taurinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Anderson tem estado bem estranho ultimamente, não é simplesmente aquele sentimento de revolta do início"&lt;/em&gt;, afirmei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Outro dia eu brinquei com o Anderson dizendo que se ele me desse o polegar esquerdo dele eu conhecia um jeito de fazer alguma coisa terrível com o Renan"&lt;/em&gt;, disse Andrés, em tom confessional, tão subitamente que assustou todos nós, &lt;em&gt;"ele tirou uma faca de caça do bolso e eu tive que tomar a faca dele porque eu vi que ele ia cortar a porra do próprio polegar dele. Nó, foi uma briga&amp;hellip;"&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A narração encheu todos nós de assombro. Aparecida chegou a ralhar com ele, &lt;em&gt;"isso é coisa que se proponha pra alguém, menino sem juízo?"&lt;/em&gt;, e Andrés acrescentou, &lt;em&gt;"e isso é contra eles mesmos, a Polícia Obscura não pode funcionar assim. Pela Lei deles, um tem que se matar pelo outro e o outro tem que se matar por um. Pensar em prejudicar o parceiro não existe. Foi brincadeira, mas o olhar do Anderson não era de brincadeira, era de quem aceita uma proposta séria, fora a briga que foi com ele prele guardar a bosta da faca. Me arrepio só de pensar. O olhar dele não era o olhar dele."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Guilherme me disse o mesmo hoje na ilha e eu também tenho sentido o mesmo"&lt;/em&gt;, informei e Adriano cedo confirmou minhas palavras com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu "ouvi", D. Stella"&lt;/em&gt;, Andrés me disse, sorrindo ligeiramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-4628569948461569283?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/4628569948461569283/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2010/07/figura-de-um-oito.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4628569948461569283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/4628569948461569283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2010/07/figura-de-um-oito.html' title='Figura de um oito'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-7309258596006232380</id><published>2009-07-01T03:25:00.007-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.484-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Ouvido absoluto</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;A&lt;/span&gt;nderson foi o último a chegar. Nos reunimos no Mithraeum por conta das discussões e brigas dos meninos ontem na Ilha Basilisco. Sendo o Mithraeum um campo neutro, eu esperava que pudéssemos resolver o enigma do sino juntos. Começamos explicando a Adriano, Arthur, Bruno e Guilherme o que aconteceu. Renan contou até mesmo sobre a experiência de Andrés no lugar de iniciação de Anderson, o que arrancou gargalhadas dos cinco outros Taurinos, para desassossego de Andrés que fitava Renan com aquele olhar característico de ódio que sempre me incomodou nos meninos daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"As letras que tem seu nome, A e R são as dos dois meganhas&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, Bruno tentava entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Meganha é o caralho!!! Isso é desacato à autoridade policial!!"&lt;/em&gt;, Renan se ergueu furioso, &lt;em&gt;"vê direitinho como é que fala da gente, Bruno!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"É, também acho bom que&amp;hellip;"&lt;/em&gt;, disse Anderson, mas interrompeu a frase no meio. Via-se que ele não queria ter a mesma opinião do parceiro mais novo nem que fosse para defender a si mesmo. Eu achei aquilo estranho. Desde o começo, aprendi que a Polícia Obscura tinha como código de honra a união dos dois, fossem qual fossem as circunstâncias. Não entendia a disposição briguenta deles, principalmente a de Anderson; sabia que era devido muito à zanga de Anderson por ter sido feito policial antes de sua vontade, mas aquilo chegava a ser absurdo, considerando aquele código de honra. Eu disse a mim mesma que iria observar aquilo mais de perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Bom, sim, os nomes dos policiais"&lt;/em&gt;, atalhou Arthur, querendo se livrar da nova maré de discórdia, &lt;em&gt;"mas o que quer dizer isso de que você gosta de música mas não entende nada?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme olhou para Arthur e Renan olhou para Guilherme. Este não devolveu o olhar para o irmão, talvez porque estivesse perdido em pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O único nesta reunião que conhece música é o meu irmão"&lt;/em&gt;, disse Renan, ainda olhando para Guilherme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O sino está tocando na nota errada"&lt;/em&gt;, Guilherme aparteou, &lt;em&gt;"desde o dia da tua iniciação, Anderson. Eu comentei isso contigo, mas você preferiu ignorar o que eu estava dizendo."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Impossível!"&lt;/em&gt;, rebateu Anderson, já começando a ficar irritado, &lt;em&gt;"tratei o sino e o bronze da ressonância o tempo todo pra que a nota saísse certinha, não pode estar tocando a nota errada. Eu sou liso com essas coisas, eu não erro, Guilherme!"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia soar como excesso de presunção, mas não era. Não em se tratando de Anderson, eu vinha descobrindo. Mas se Anderson não tinha errado na fundição do sino, o que poderia ter saído errado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O problema não está no bronze nem no sino, Anderson; eu sei que se foi você quem fez só poderia ter saído perfeito"&lt;/em&gt;, tornou Guilherme, &lt;em&gt;"o problema está na velocidade do dobre dele. É como um disco daqueles antigos que diminui a rotação. A nota está descendo cada vez mais por conta da velocidade, cara. Agora mesmo eu estou ouvindo o sino em fá."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Espera, espera, o Guilherme podia ouvir o sino desde o início?"&lt;/em&gt;, perguntei, sem entender, &lt;em&gt;"não eram apenas os entrantes que podiam ouvir?"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renan explicou que Guilherme podia ouvir qualquer som, mesmo um copo quebrando e dizer que nota ele produziu ao se quebrar. A isso se chamava &lt;b&gt;ouvido absoluto&lt;/b&gt;. Ele podia, ainda segundo Renan, ouvir mesmo os sons que nós não podíamos. Embora espantada, não perdi meu tempo reclamando com eles que eles nunca tinham me dito isso. Já tinha aprendido que era um procedimento inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"O som do sino não me perturba, D. Stella"&lt;/em&gt;, ele falou, &lt;em&gt;"posso fazer o som desaparecer da minha atenção como aparecer na hora que eu quiser."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que loucura. Não teria imaginado isso nem em mil anos. Me lembro que durante o ritual de iniciação de Anderson, ele citou uma música de Guilherme Arantes, mesmo sabendo que não poderia falar. Isso traía um certo fanatismo por música, um lado que eu não conhecia nele. Entendi a presença dele em minha casa com o violino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Que aconteceu com você quando você disse que o que o entrante falou era uma letra do Guilherme Arantes?"&lt;/em&gt;, ao ouvir a pergunta ao meu lado, estranhamente, Anderson estremeceu e começou a suar frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu levei um chutão nas costas, vindo de fora do círculo externo"&lt;/em&gt;, ele respondeu, baixando os olhos, sem encarar o irmão caçula que o fitava, &lt;em&gt;"e foi muito bem feito pra você"&lt;/em&gt;, acrescentou Renan, rindo deliciado como estivera naquela tarde fatídica, &lt;em&gt;"sinto uma dorzinha nas costas e tenho pesadelos com aquilo até hoje, se a senhora quer saber."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino. Tendo seguido as regras, já tem sido para mim um pesadelo, imagino o que ele deve ter passado por quebrar essas regras. Andrés disse que o assunto estava bom, mas era completamente fora do que tínhamos vindo conversar. "Sêo" Danilo aprovou a observação dele, olhando para mim. Anderson também me fitava do modo mais estranho que já vi. Eu tinha visto aquele olhar antes. Só não me lembrava onde, mas sabia que era algo muito próximo ao assunto sobre o qual conversávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou decidido pelo Conselho que Guilherme iria para a Ilha Basilisco em vez de Andrés desta vez. Adriano saiu da reunião tão calado como tinha entrado. Se eu nunca o tivesse visto, não saberia nem mesmo qual o timbre de sua voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="height: 30px"&gt;&lt;/div&gt;&lt;!-- spacer --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4937082799087280960-7309258596006232380?l=radiouniversal2.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/feeds/7309258596006232380/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ouvido-absoluto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7309258596006232380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4937082799087280960/posts/default/7309258596006232380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://radiouniversal2.blogspot.com/2009/07/ouvido-absoluto.html' title='Ouvido absoluto'/><author><name>Stella Freitas-Grisam</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01732811153602926814</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_L3o7XGktyy4/SjoZM0Xs55I/AAAAAAAAAXs/p8vtTWxp5jY/S220/matias-inseto.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4937082799087280960.post-2583047561733731695</id><published>2009-06-30T16:39:00.005-03:00</published><updated>2010-12-19T20:35:46.485-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tinnitus'/><title type='text'>Ilha Basilisco</title><content type='html'>&lt;span class="capitular"&gt;O&lt;/span&gt; Sol subia preguiçoso por sobre as montanhas de Taurinos, preguiçoso até demais. O silêncio no carro só era quebrado pelo meu mp3 conectado no som do carro de Duílio que Anderson dirigia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="quoting"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"A partir da cama num hotel de fronteira, olhos de água, céu e missa ao calor do dia ou à sua certeza. Mal o sol amarelecera no céu. Mal o sol amarelecera de esperança, toda a minha boa vontade. Olhos de água, céu e missa. Ao calor do dia ou à sua certeza. Mal o sol amarelecera no céu. Mal o sol amarelecera&amp;hellip;"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Mal O Sol&lt;/b&gt;, escrito por &lt;b&gt;Moto Perpétuo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;As palavras da canção escrita por Guilherme Arantes tantos anos atrás ecoavam na minha cabeça. Quero dizer, ecoavam na minha cabeça, até que Anderson pediu para tirar a música. Pensei: &lt;em&gt;"agora é moda os rapazinhos da Polícia Obscura me pedindo para tirar músicas."&lt;/em&gt; Quando Renan resolvia ficar de boa com a música, era Anderson quem entrava no plantão. Andrés me surpreendeu tomando a minha defesa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Eu estou escutando a música também, Anderson; não tira não, D. Stella."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Tá me atrapaiano na direção."&lt;/em&gt;, a voz era levemente rosnada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Se quiser, eu 
